Sem peso, sem medo: Alysa Liu conquista ouro com leveza rara na patinação

Uma apresentação leve, alegre e dourada deixou claro: não há ninguém na patinação artística como Alysa Liu.

Depois de concluir o programa livre, com a arena praticamente vindo abaixo ao seu redor, Liu deu um leve movimento no rabo de cavalo, fincou a ponta do patim no gelo e se virou para agradecer.

Antes da reverência, ergueu os dois braços de forma teatral e esfregou as mãos, como quem diz: “Pronto. Missão cumprida. Hora de ir para o karaokê.”

A exceção em um esporte moldado pela tensão

Na patinação artística, o frio costuma vir não só do gelo. Poucas modalidades carregam tanta tensão individual.

É um atleta sozinho na pista, sob luzes fortes e milhares de olhares. Não há companheiros para dividir a responsabilidade. Um erro mínimo pode separar a glória eterna do constrangimento duradouro. Quando surgem, os sorrisos geralmente são forçados ou de alívio.

Nas últimas semanas, o gelo foi impiedoso com alguns favoritos. Após um programa livre que o tirou da briga por medalha, Ilia Malinin disse que sua antiga versão virou “poeira” e que deixaria os Jogos transformado. Já Amber Glenn chorou intensamente após um curto desastroso.

Liu reagiu de forma oposta.

Ao encerrar sua última pirueta layback, com o dourado do vestido brilhando sob as luzes, a primeira americana a conquistar o ouro olímpico na patinação em 24 anos parecia simplesmente feliz.

Sem lágrimas. Sem desabar no gelo. Apenas um sorriso travesso e um aceno ao público.

Esperando o resultado como quem assiste a um espetáculo

Como última competidora, Liu dependia das notas de Ami Nakai para saber se ficaria com prata ou ouro. Enquanto aguardava, permaneceu tranquila. Sorriu para a câmera, acenou e saiu da cadeira de líder para conversar com Glenn.

Quando as notas confirmaram o ouro, foi direto até Nakai, levantando-a em um abraço apertado.

Na cerimônia, ao correr pelo túnel até o pódio, chegou a murmurar: “O que está acontecendo?”. Já no alto do pódio, parecia mais preocupada em ajeitar os mascotes de pelúcia ao lado da medalha do que absorver a dimensão do momento.

Mais tarde, entre comentários desconexos sobre o quanto amava o novo vestido e a animação para a gala, respondeu a uma pergunta séria: como lidou com a pressão olímpica?

“Você vai ter que me explicar o que é pressão olímpica. Quem está colocando essa pressão? Que pressão?”, disse, séria.

A volta por escolha própria

O segredo de Liu está justamente aí.

Depois de ser engolida pela máquina de expectativas ainda adolescente, ela aprendeu a devolver a pressão em forma de leveza.

Sua patinação agora é nos próprios termos: música escolhida por ela, coreografia construída em parceria, agenda de treinos ajustada à própria rotina — e, acima de tudo, alegria.

Aos 13 anos, venceu o Nacional dos EUA tão pequena que precisaram ajudá-la a subir ao pódio. Aos 16, já era olímpica e medalhista mundial.

Então, parou.

A aposentadoria precoce parecia definitiva. Saiu para viver o que chama de vida comum: karaokês, videogames, faculdade, experiências com moda, piercings, aulas de psicologia.

Quando decidiu voltar, a diferença era clara: ela queria voltar.

Muito além dos saltos

O ouro não veio por acaso. Liu é hoje uma patinadora mais completa do que a prodígio que encantou o país anos atrás. Não porque salte mais alto, mas porque patina com o coração.

Seu programa livre, ao som de “MacArthur Park”, de Donna Summer, foi tão envolvente que por momentos parecia flutuar. Os saltos surgiam como pontos de exclamação dentro da melodia.

Como terminou em terceiro no programa curto, entrou na pista ainda ameaçada pelas apresentações de Nakai e Kaori Sakamoto, que tinham vantagem na pontuação.

A arena viveu minutos de tensão enquanto aguardava as notas. Todos pareciam nervosos — menos Liu.

“O que eu estava pensando? Hum… Eu adoro assistir a Ami patinar. Tinha um lugar na primeira fila”, contou.

Quando a nota final confirmou o ouro, a celebração foi natural. Bandeira americana nos ombros, foto mordendo a medalha, acenos e entrevistas.

Mas, ao refletir sobre o metal dourado que combinava com o vestido, deixou escapar o que realmente importava.

“Eu não precisava de medalha”, disse. “Se eu tivesse caído em todos os saltos, ainda estaria ali usando esse vestido. Então, independentemente do resultado, estava tudo bem.”

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