Viver a Copa do Mundo vai além de um torneio de futebol, sendo uma tradição enraizada no Brasil. Além dos churrascos em família e das apostas informais, o costume de decorar as ruas para o mundial tem ganhado força novamente. Com bandeirinhas em verde e amarelo, latas de tinta e desenhos de figuras nacionais, as ruas brasileiras se transformam em um cenário de celebração coletiva.
Apesar de a Seleção Brasileira, maior campeã com cinco títulos, não vencer uma Copa há 24 anos, a empolgação dos torcedores permanece inabalável. No Rio de Janeiro, moradores de diversas áreas da cidade utilizaram a arte urbana para manifestar seu apoio ao Brasil, especialmente para o evento de 2026, fortalecendo laços comunitários e culturais.
Morro do Pinto: Resgatando Memórias e Fortalecendo Laços
No bairro do Santo Cristo, centro da cidade, os residentes da Rua Capiberibe se mobilizaram para resgatar a memória afetiva da comunidade do Morro do Pinto, focando nas crianças que não vivenciaram esses momentos. Isabel Boechat, vice-presidente do Centro Cultural Capiberibe 27, coordenou as atividades.
Boechat descreve o processo de engajamento: “A rua foi entrando no clima aos poucos: moradores ajudando, crianças pintando, famílias acompanhando, gente chegando para ajudar, colaborar de alguma forma.” Ela ressalta a transformação da iniciativa em um evento comunitário: “Hoje a minha avaliação da ação é que não foi uma ação feita ‘para’ a comunidade, foi feita com a comunidade. Em algum momento, deixou de ser só uma pintura e virou encontro, convivência, pertencimento.”
A movimentação atraiu apoio de moradores do Morro da Providência, Santo Cristo e outras regiões portuárias. Os custos dos materiais foram cobertos por doações de residentes, amigos, parceiros e o Centro Cultural Capiberibe 27. Comerciantes locais forneceram provisões e as crianças desfrutaram de almoço, picolé e lanches durante o processo.
Para Isabel Boechat, o essencial era dar protagonismo às crianças, reacender a memória coletiva e unir a comunidade através da Copa. Ela conclui: “Elas [as crianças] pintaram, imaginaram, colocaram cor na rua. E isso tem uma força muito grande, porque talvez no futuro elas lembrem: 'eu pintei a minha rua para a Copa'. Era isso que a gente queria entregar para elas. E acho que conseguimos.”
Morro do Turano: Inspiração e Superação Comunitária
O sucesso no Morro do Pinto inspirou outras iniciativas na cidade. O universitário Silvio Rosa, de 21 anos, morador do Morro do Turano, no Rio Comprido, zona norte, citou a escadaria do Morro do Pinto como uma das inspirações para a decoração que ajudou a criar em sua comunidade.
Silvio, que nunca havia pintado a rua para a Copa, organizou um dia de grafite focado nas crianças. Poucas semanas depois, ele inscreveu a Alameda Manoel Costa no concurso "Meu Beco na Copa", promovido pelo projeto Favela Radical, unindo sua ideia a uma oportunidade.
Apesar da desconfiança inicial e da falta de apoio de alguns vizinhos, Silvio enfatizou a dedicação infantil: “Foram mais as crianças mesmo, elas, sim, aderiram a todo momento, sempre perguntando pra gente quando ia ser a pintura e tudo mais, sempre ansiosas. E ajudaram muito, de verdade mesmo.”
A iniciativa foi liderada por Silvio, sua namorada Taíssa Brito, e a artista Anunki, contando com a participação ativa das crianças do Morro do Turano. Ao final do projeto, diversas áreas da comunidade já estavam coloridas. Silvio avalia a ação como extremamente positiva, especialmente no contexto atual do país, resgatando símbolos brasileiros e promovendo a união comunitária.









