Petria Chaves: Sim, sou filha da geração dos anos 60. Inclusive, minha mãe nasceu nos exatos 1960. Ela é bem o estereótipo dessa mulher que saiu para o mercado de trabalho, perdeu o pai cedo (ele faleceu quando ela tinha 16 anos)… Ela lutou demais. Tornou-se diretora de uma grande companhia aérea, onde começou como recepcionista. Uma mulher que conquistou muito, mas ainda muito refém da imagem, da beleza, de procedimentos estéticos para ser aceita e se aceitar.
Se por um lado estamos galgando posições na política, nas corporações, na sociedade, ainda temos índices de feminicídios absurdos. Além isso, não resgatamos o que perdemos de fato ao longo da nossa existência: o feminino simbólico. Me refiro à uma sociedade que dê o devido valor à calma, ao silêncio, ao sistema de cooperação matriarcal, ao cuidado, ao gerar e a essa comunicação sutil com a natureza e seus mistérios. Nós estamos conquistando lugares no mundo dos homens. Mas ainda não construímos um mundo com o repertório das mulheres.
Hoje, ainda precisamos de fato de igualdade. Mas devemos lembrar que a estrutura da sociedade é patriarcal. O que estamos conquistando, ainda, são lugares dentro de um tabuleiro em que as regras correspondem à visão de sucesso e prosperidade dentro de uma lógica masculina delineada pela competição, pela beleza estética da forma externa, pela juventude plástica para atender a um imaginário de fragilidade, docilidade e domesticação. Me espanta estarmos inseridos tão fortemente nisso, de forma talvez inconsciente, gastando milhões com a indústria estética para mudar nossos corpos, o fluido da natureza em nós, e chamando isso de liberdade de escolha.









