Por que o Carnaval pode nos deixar mais permissivos com nossas escolhas?

A psicanálise ajuda a entender que não se trata apenas de “perder a cabeça”. Em Psicologia das Massas e Análise do Eu, Sigmund Freud explica que, quando estamos em grupo, algo em nós se transforma. Sozinhos, temos nossos limites, nossas culpas, nossa imagem de quem queremos ser. No meio de uma multidão, identificados com um bloco, com amigos, com a energia coletiva, esses limites podem se afrouxar. Não desaparecem, mas ficam menos rígidos. A sensação é de amparo: se todo mundo está fazendo, por que eu não faria?

Isso não significa que o Carnaval seja um surto coletivo ou um colapso moral. Há também um lado saudável nessa experiência. Durante o ano inteiro somos cobrados a performar, produzir, dar conta de tudo, manter coerência. A festa abre uma brecha. Permite experimentar outras versões de si, brincar com a própria imagem, testar desejos que estavam guardados. Para muita gente, isso tem um efeito quase libertador. Não é só sobre beijo na boca ou noites viradas. É sobre sentir-se menos controlado, menos observado, menos preso a uma identidade fixa.

Ao mesmo tempo, é preciso reconhecer que essa liberdade pode trazer consequências. Há quem termine um relacionamento em meio à euforia e, semanas depois, queira voltar. Há quem ultrapasse limites que, em outro contexto, consideraria importantes. O que muda não é apenas a circunstância externa, mas a forma como cada um se sente por dentro. No calor da festa, a decisão pode parecer um gesto de coragem, de autenticidade, de “agora eu vou viver o que quero”. Quando a rotina volta, surgem outras perguntas, outros valores, outras necessidades.

Por outro lado, também não faz sentido romantizar tudo o que acontece na festa como se ali estivesse o “verdadeiro eu”. Não existe um eu puro esperando o Carnaval para aparecer. Somos sempre atravessados por influências, expectativas, medos e desejos. No meio da multidão, nos identificamos com algo maior e isso nos transforma temporariamente. Quando a música para, cada um volta a lidar com as próprias escolhas.

O Carnaval, no fim das contas, não é apenas sobre permissividade ou libertinagem. É sobre o quanto somos influenciáveis pelo laço coletivo e o quanto carregamos desejos que nem sempre cabem na rotina. Ele expõe nossa ambivalência, nossa vontade de pertencer e, ao mesmo tempo, de transgredir. E talvez seja justamente por tocar nessa tensão tão humana que, ano após ano, continuamos a nos autorizar a viver esses dias como se fossem um parêntese na própria história

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