Sim, "America’s Next Top Model" foi um produto do seu tempo – mas isso não o torna justificável


Nenhum reality show de TV encapsulou tão bem as atitudes dos anos 2000 quanto America’s Next Top Model — um verdadeiro colosso que voltou a ser revisitado no debate cultural sobretudo porque muita gente maratonou episódios antigos durante a pandemia e depois dela. Agora, um documentário muito aguardado em três partes, Reality Check: Inside America’s Next Top Model, chegou à Netflix — e é… uma experiência e tanto. Gordofobia, assédio sexual, fazer modelos posarem como vítimas de assassinato, ou como outras etnias, ou como se tivessem bulimia, ou como se fossem pessoas em situação de rua — o ANTM foi por esse caminho, sim. Rever tudo isso com a cabeça adulta, sob a lente dos anos 2020, faz o queixo cair.
Eu assistia America’s Next Top Model todos os dias depois da escola, quando era pré-adolescente e adolescente. Aquela era a era dos transtornos alimentares impulsionados pelo Tumblr e de celebridades tamanho 40 sendo chamadas de “enormes” pela imprensa, então eu realmente não me lembro de achar nada do conteúdo chocante. No recreio, meninas almoçavam um punhado de sementes de abóbora e depilavam as pernas no intervalo para não deixar aparecer nem um fio de pelo em corpos ainda mal saídos da puberdade. Lésbicas não eram consideradas “cool” naquela época, então a homofobia casual do ANTM dificilmente me faria reagir. O programa era apenas um microcosmo do que se vivia então; o tipo de mensagem à qual todos nós éramos submetidos. Naquele tempo, eu achava que Tyra Banks era sábia — ela tinha os melhores interesses daquelas garotas em mente, certo?
Essa dissonância desconcertante — entre o que era considerado “normal” antes e agora — costuma ser usada como contra-argumento para justificar certos acontecimentos ou, em alguns casos, para fugir da responsabilidade. “Eram outros tempos”, dizem as pessoas sobre os anos 1970, quando músicos homens mais velhos “dormiam com” meninas de 14 anos (crianças). Em Reality Check, esse mesmo argumento é mobilizado por muitos dos envolvidos no programa. “Era o mundo em que a gente vivia”, diz Banks no episódio dois, referindo-se à gordofobia desenfreada. “Algumas dessas coisas também são, de certa forma, a realidade do mundo”, minimiza o ex-jurado Nigel Barker, após ver imagens de uma modelo, Keenyah, sendo assediada sexualmente diante das câmeras. “Sempre houve muitos problemas com, você sabe, esse tipo de assédio.” Banks ao menos adota um tom mais arrependido. “Eu estava tentando empoderá-la com as informações que eu tinha”, diz. “Mas aquilo deveria ter sido interrompido… Então eu digo à Keenyah: ‘boo boo, me desculpa muito’.”

Tyra, Jay Manuel e Miss J. durante o ciclo 6 de “America’s Next Model”
Getty Images
Eu entendo o que eles querem dizer. Muitos dos acontecimentos e atitudes do ANTM eram amplamente considerados aceitáveis — ao menos no sentido de que iam ao ar na TV, e nós consumíamos tudo. Mas também acho que duas coisas podem existir ao mesmo tempo. Podemos saber que algo foi produto de sua época e, ainda assim, reconhecer que não deveria ter acontecido. Um dos momentos mais perturbadores de Reality Check é quando uma jovem modelo, então com 21 anos, foi filmada fazendo sexo com um modelo masculino depois de beber duas garrafas de vinho, durante o que ela diz ter ficado “apagada por boa parte do tempo”. A cena foi exibida na TV e, depois, ela foi publicamente envergonhada por “trair” o namorado. No documentário, ninguém — nem os apresentadores, nem Tyra, nem o produtor executivo — verbaliza que aquilo foi errado. De fato, uma coisa é olhar para o ANTM dentro de seu contexto; outra é evitar expressar qualquer horror ou remorso. “Nós tratávamos Top Model como um documentário”, disse o produtor executivo Ken Mok quando perguntado se houve algum momento em que pensaram em desligar as câmeras. “E nós avisamos as garotas disso.”
Antes de assistir, eu presumia que o documentário sobre America’s Next Top Model seria um caos divertido — e há, sim, momentos selvagens e engraçados, especialmente quando tudo descamba para o absurdo. Mas, na maior parte do tempo, eu só me senti triste e esvaziada. Fiquei triste por esse ter sido o mundo em que vivi como adolescente, junto de todo mundo, quando meu cérebro ainda estava em formação e era maleável. Fiquei triste pelas modelos do documentário, muitas das quais não conseguiram trabalho depois de participar de reality shows, e muitas das quais claramente ainda estão traumatizadas. Fiquei até triste por Tyra Banks, que internalizou suas próprias experiências na indústria e as repassou para a pessoa seguinte.
Mas, principalmente, fiquei triste porque, apesar de todo o discurso do “eram outros tempos” — que é verdadeiro até certo ponto —, também não estamos vivendo em um mundo completamente novo. A violência sexual continua comum e normalizada em todas as indústrias, com pouquíssimas consequências. O SkinnyTok, a resposta atual ao Tumblr pró-anorexia, está por toda a internet. E o mundo da moda dificilmente pode ser descrito como antirracista, certo? Daqui a 25 anos, vamos olhar para hoje e dar de ombros, dizendo que também “eram outros tempos”?
“Olhar para aquele programa com a lente de hoje é tipo: ‘Nossa, por que você fez isso?’”, diz Banks perto do final do documentário, entrelaçando as mãos naquele tom característico de TED Talk. “E eu agradeço por isso. Essa é a única forma de mudar. É a única forma de melhorar. Isso é importante. E quero que vocês saibam que eu quero que vocês sejam tão abertos quanto eu estou agora em relação a serem chamados à responsabilidade, porque quando alguém chamar vocês pela merda de vocês, esse dia vai chegar.”
A câmera então corta para Dani, uma modelo que teve o espaço entre os dentes fechado cirurgicamente no ANTM apesar de dizer que não queria, várias vezes. “Amiga, isso é absolutamente ridículo. Hora perfeita de parar.” E então ela vai embora.
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