O Festival de Veneza de 2026 vai ser estrelado, mas poderia ter sido bem mais. Vários títulos muito aguardados que, em algum momento, se esperava que aportassem no Lido neste outono, agora não vão comparecer: Digger, de Alejandro González Iñárritu, com Tom Cruise; The Social Reckoning, de Aaron Sorkin, com Jeremy Strong como Mark Zuckerberg; The Adventures of Cliff Booth, spin-off de Era Uma Vez em Hollywood dirigido por David Fincher e estrelado por Brad Pitt; Cry to Heaven, de Tom Ford, com a estreia de Adele como atriz; e Behemoth!, de Tony Gilroy, com Pedro Pascal à frente e cara de concorrente a prêmios, para citar só alguns.
Ainda assim, a seleção da 83ª edição, que acontece de 2 a 12 de setembro, com Maggie Gyllenhaal na presidência do júri e George Clooney e a lenda de 93 anos Ellen Burstyn recebendo os prêmios pelo conjunto da obra, é cheia de estrelas. Há futuros concorrentes ao Oscar, thrillers de ritmo acelerado, aventuras de tirar o fôlego e, como sempre em Veneza, vários documentários feitos para virar manchete. Entre eles, um curta sobre o ICE codirigido por Laura Poitras, um estudo de quatro horas sobre Elon Musk pelo documentarista vencedor do Oscar Alex Gibney, um documentário de sete horas sobre Bernardo Bertolucci assinado por Luca Guadagnino, e um relato da recente turnê de reunião do Oasis, contado pelos próprios irmãos Gallagher. Estes são os 10 filmes que você precisa acompanhar.
O único (aparentemente) inabalável peso-pesado de premiação da lista é a comédia agitada e de humor negríssimo de Martin McDonagh. Seus dois últimos dramas, Os Banshees de Inisherin, de 2022, e Três Anúncios para um Crime, de 2017, transformaram a estreia em Veneza em glória de premiação, somando dois Oscars e 16 indicações entre os dois, e este é igualmente estrelado e pertinente. Ambientado entre as misteriosas e monumentais estátuas da Ilha de Páscoa, na véspera do golpe chileno de 1973, acompanha dois agentes desregrados da CIA (John Malkovich e Sam Rockwell) com planos de derrubar o governo nacional. Quando eles se enroscam com um par de estudantes rebeldes (Mariana di Girolamo e Ailín Salas), o caos toma conta. Parker Posey, Steve Buscemi e Tom Waits completam os papéis coadjuvantes desvairados, e muitos paralelos perturbadores com a política atual espreitam sob a superfície do roteiro hilário.
O primeiro casal do cinema espanhol, Penélope Cruz e Javier Bardem, está de volta com mais uma parceria, e promete. O cineasta vencedor do Oscar Florian Zeller (O Pai, O Filho) os colocou no centro de sua nova saga familiar, um thriller psicológico tenso sobre um arquiteto contratado para construir um bunker secreto e impenetrável a mando de um bilionário do setor de tecnologia. Acompanhado ainda por nomes como Paul Dano, Stephen Graham e Patrick Schwarzenegger, é um projeto que consome sua vida, abala seu casamento e provoca o lento desmoronamento de sua família. Espere um roteiro afiado e atuações explosivas, como de praxe.
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Foi uma estrada longa e dura para Werner Herzog. Sua mais nova esquisitice, um quebra-cabeça alucinatório sobre irmãs gêmeas codependentes (Rooney e Kate Mara, na primeira vez que as irmãs na vida real dividem a tela), recebeu uma vaga na seleção de Cannes no início do ano, mas o autor recusou, já que a tal vaga não o deixaria concorrer à Palma de Ouro. Agora, ele disputa o Leão de Ouro. É a história maluca de Jean e Joan Holbrooke, que falam em uníssono, têm os mesmos sonhos, amam o mesmo homem (Orlando Bloom, justo) e vivem à margem da sociedade. Depois que lhes designam um assistente social do governo (Domhnall Gleeson) na tentativa de ajudá-las a se adaptar à vida moderna, elas, por algum motivo, começam a cavar um túnel através de uma cadeia de montanhas em busca de uma terra imaginária onde o amor verdadeiro é possível. Não fica mais Herzog do que isso.
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A peça de teatro homônima de James Graham, de 2017, que narrava a ascensão de Rupert Murdoch e do The Sun no fim dos anos 1960, chega às telas pelas mãos do vencedor do Oscar Danny Boyle, em seu primeiro drama pesado e voltado a prêmios desde Steve Jobs, de 2015. Guy Pearce é seu Murdoch, e Jack O’Connell é Larry Lamb, um editor do Daily Mail que o magnata da mídia recruta como novo editor-chefe do The Sun, depois de comprar a então combalida publicação de seu jornal-mãe, o The Mirror. (Há ainda a sempre ótima Claire Foy como Jules Davies, esposa fictícia de Lamb e editora-adjunta do jornal.) O resultado é uma corrida moralmente duvidosa e sem freios pela maximização do lucro, que plantou as sementes da cultura tabloide sensacionalista de hoje.
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Se você ficou de queixo caído com o enigmático e belíssimo suspense sul-coreano Em Chamas, de 2018, de Lee Chang-dong, vai gostar de saber que o mestre finalmente retorna com mais um exame fascinante das relações íntimas. Desta vez, o foco recai sobre um quarteto entrelaçado: um trabalhador recém-demitido e sua esposa, e uma documentarista e seu marido, todos reunidos para fazer um filme que aos poucos desenrola seus desejos mais secretos. O elenco é de primeira, Cho Yeo-jeong (Parasita), Zo In-sung (Hope), Sul Kyung-gu (Oasis) e Jeon Do-yeon (Segredos de um Sol), e os jogos mentais que travam entre si são inspirados no Dekalog, de Krzysztof Kieślowski. A última aposta de festival a beber dessa fonte foi o malfalado Parallel Tales, de Asghar Farhadi, em Cannes, então torçamos para que este se saia bem melhor.
Robert Pattinson se transforma no apresentador engessado e indecifrável Chris Hansen, do programa To Catch a Predator, por volta de 2006, neste enredo tirado das manchetes, a estreia na direção de longa de ficção de Lance Oppenheim (Ren Faire). Foi o ano em que esse fenômeno televisivo dos anos 2000, tão eletrizante quanto perturbador, uma série de operações de flagrante montadas pelo apresentador e sua equipe, com apoio da polícia, em que iscas de rosto ingênuo eram usadas para atrair e prender supostos pedófilos, chegou ao auge, atraindo milhões de espectadores. Mas a busca implacável de Hansen e sua equipe por histórias cada vez maiores e alvos cada vez mais notórios logo se mostrou desastrosa. Com Ari Aster entre os produtores e Phoebe Bridgers no elenco, em sua estreia formal como atriz, tem cara do tipo de biografia pouco convencional que só a A24 faria.
Oasis: Don’t Look Back in Anger
A história mais reconfortante de 2025 chega às telas pelas mãos do roteirista Steven Knight (Peaky Blinders) e dos diretores de documentário musical Will Lovelace e Dylan Southern. Mais de uma década depois de sua separação conturbada, os eternos rivais Noel e Liam Gallagher, do Oasis, se reconciliaram, se reuniram e então embarcaram numa turnê mundial, muito emocionante para os fãs que já tinham perdido a esperança de que esse dia chegasse. Este mergulho arrebatador nos bastidores nos leva para dentro dos ensaios da banda, acompanha os irmãos na estrada e, notavelmente, traz as primeiras entrevistas conjuntas deles em mais de 25 anos. Melhor ainda, o diretor artístico do Festival de Veneza, Alberto Barbera, confirmou que os Gallagher vão, sim, promover o filme juntos no Lido. Você consegue imaginar essa coletiva de imprensa? Não consigo pensar em nada mais surreal, ou mais potencialmente caótico.
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Alicia Vikander, Susan Sarandon e Luca Marinelli estrelam esta dissecação poética do amor, do desejo e da obsessão, do cineasta italiano Andrea Pallaoro (que dirigiu Hannah, pelo qual Charlotte Rampling levou a Copa Volpi de melhor atriz em Veneza, em 2017). O roteiro é de Bernardo Bertolucci, o último que o lendário cineasta escreveu antes de morrer, oito anos atrás, e acompanha um prolífico produtor musical às voltas com o vício, que entra num caso improvável com uma enigmática fisioterapeuta. Filmado de forma nebulosa e embalado por música, promete ser uma homenagem à altura do saudoso diretor.
A produção recente do autor húngaro Kornél Mundruczó tem sido irregular, para dizer o mínimo. O thriller de nervos à flor da pele Fragmentos de uma Mulher, de 2020, com Vanessa Kirby, foi elogiado; já o recente At the Sea, com Amy Adams, que estreou no Festival de Berlim, não. Por isso é difícil avaliar a qualidade desta entrada fora de competição, embora no papel ela impressione. Ellen Burstyn assume o papel principal como uma nonagenária de pavio curto que faz amizade com um divorciado desnorteado (Taika Waititi, diretor vencedor do Oscar por Jojo Rabbit, de volta à atuação) enquanto os dois viajam de Chicago a Nova York para, pasme, devolver um pombo-correio perdido. Pamela Anderson, Édgar Ramírez, Lena Waithe e Murray Bartlett (The White Lotus) completam o pacote reluzente e simpático a Hollywood.
Ellen Burstyn também está no centro deste comovente curta de 17 minutos da presidente do júri de Veneza, Maggie Gyllenhaal, anunciado como uma ode a Marilyn Monroe no centenário de seu nascimento. Dakota Johnson é a estrela dos anos 1950 no auge da fama, aos 36 anos, a atriz tem exatamente a idade que Monroe tinha quando morreu tragicamente de overdose de barbitúricos, enquanto Burstyn é a artista veterana que Marilyn nunca chegou a se tornar. Como um olhar mais atento sobre o mito de Marilyn e os equívocos que ainda cercam sua figura, promete ser um filme potente e instigante.
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