“Não estou grávida. Só estou um pouco mais gorda agora. É a menopausa.” A declaração da apresentadora e ex-modelo Heidi Klum, feita no começo do ano, poderia ter sido dita por muitas mulheres. Por mim, inclusive. O ponteiro da balança praticamente não muda, mas a calça fica apertada. Isso quando ainda fecha. E o mais frustrante é que não há uma alteração relevante na alimentação nem na atividade física. Como se isso já não fosse suficiente, ainda vem os comentários da patrulha da vida alheia: “Ah, mas precisa treinar mais”, “Precisa parar de preguiça”… Mas a verdade é que a explicação passa longe da falta de disciplina.
A chamada “barriga da menopausa” é uma consequência das mudanças hormonais que começam ainda no climatério, fase de transição que pode durar até dez anos antes da última menstruação. A queda progressiva do estrogênio altera a forma como o organismo utiliza energia, preserva massa muscular e distribui gordura pelo corpo. O resultado é uma mudança na silhueta que muitas mulheres percebem mesmo mantendo a mesma alimentação e a mesma rotina de exercícios.
“Isso não é culpa da mulher. Não é uma questão de escolha, de fazer mais dieta ou simplesmente comer menos. Existe uma mudança hormonal importante acontecendo, e ela modifica completamente a forma como o organismo funciona”, explica a nutricionista Patricia Davidson, especialista em climatério e menopausa.
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Essa transformação já foi demonstrada em diversos estudos. Uma revisão publicada no Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism mostra que, após a queda do estrogênio, ocorre uma redistribuição da gordura corporal: ela deixa de se concentrar principalmente nos quadris e nas coxas e passa a se acumular na região abdominal. Em muitas mulheres, a circunferência da cintura aumenta mesmo sem alterações significativas no peso corporal. “É muito comum a paciente dizer: ‘Estou fazendo tudo igual, mas minha barriga apareceu’. O problema não é falta de força de vontade. O corpo muda as regras do jogo na menopausa”, resume a ginecologista Ana Paula Fabricio, pós-graduada em Nutrologia pela Associação Brasileira de Nutrologia (ABRAN).
A gordura que mais preocupa não aparece no espelho
A mudança na silhueta costuma incomodar pela estética, mas o principal motivo de preocupação está escondido. Grande parte desse aumento de volume corresponde à gordura visceral, localizada ao redor dos órgãos internos. “Diferentemente da gordura subcutânea — aquela que fica logo abaixo da pele —, ela funciona como um tecido metabolicamente ativo, produzindo substâncias inflamatórias que deixam o organismo mais vulnerável a diversas doenças”, alerta Patricia Davidson.
Segundo a International Menopause Society, o acúmulo de gordura visceral está associado ao aumento do risco de diabetes tipo 2, hipertensão, doença cardiovascular e esteatose hepática. “Quando uma paciente chega dizendo que a barriga aumentou, minha primeira preocupação não é estética. É prevenir problemas metabólicos e cardiovasculares”, afirma Ana Paula.
A queda do estrogênio desencadeia uma grande reorganização metabólica. Ao mesmo tempo em que favorece o acúmulo de gordura abdominal, ela reduz progressivamente a massa muscular. Como o músculo é um dos tecidos que mais consomem energia, o gasto calórico diário diminui naturalmente. “O maior patrimônio da mulher depois dos 40 anos passa a ser a massa muscular. Quando ela diminui, o organismo fica muito mais propenso ao acúmulo de gordura”, explica Patricia Davidson.
Outro fator importante é a resistência à insulina, que se torna mais frequente nessa fase. Com isso, o organismo perde eficiência para utilizar a glicose, favorecendo o armazenamento de gordura abdominal e aumentando a fome, especialmente por carboidratos. É isso mesmo o que você está pensando: uma coisa puxa a outra, não existe uma causa apenas.
E tem mais: o sono também entra nessa conta. Ondas de calor, despertares frequentes e noites mal dormidas elevam os níveis de cortisol e dificultam ainda mais o equilíbrio metabólico. “Não é apenas o estrogênio que muda. A mulher dorme pior, perde massa muscular, aumenta o estresse e pode desenvolver resistência à insulina. São vários fatores atuando ao mesmo tempo”, explica Ana Paula. Estudos da North American Menopause Society mostram que a privação crônica de sono está associada ao aumento do apetite, pior controle glicêmico e maior acúmulo de gordura visceral, tornando o controle do peso ainda mais desafiador.
O que realmente funciona?
Se a origem do problema é multifatorial, a solução também precisa ser diversa. As duas especialistas são unânimes ao afirmar que insistir apenas em dietas muito restritivas ou aumentar horas de exercício aeróbico costuma trazer frustração. “O tratamento precisa olhar para a causa. Não existe uma solução isolada”, afirma Ana Paula.
Entre as estratégias com melhor respaldo científico estão o treinamento de força, ingestão adequada de proteínas para preservar a massa muscular, melhora da qualidade do sono, alimentação rica em alimentos in natura e, para mulheres com indicação médica, a terapia hormonal da menopausa. Patricia Davidson lembra que perseguir apenas o número da balança costuma ser um erro. “Muitas mulheres treinam cinco ou seis vezes por semana e continuam frustradas porque olham apenas para a barriga. O foco precisa ser recuperar a saúde metabólica e preservar a massa muscular. É isso que muda a forma como o corpo responde.”
A menopausa altera a fisiologia, redistribui a gordura, reduz a massa muscular e altera o metabolismo. Nenhuma dessas transformações, entretanto, significa que a barriga seja inevitável ou que cuidar da alimentação e praticar exercícios tenha deixado de fazer sentido. Na verdade, isso apenas mostra que o organismo passou a funcionar sob novas regras, o que pede novas atitudes.
Conhecer e entender as mudanças tira a culpa que paralisa e desanima e abre uma porta enorme para adotar estratégias que tenham a ver com essa nova fase da vida. E só um lembrete: que esse novo plano seja baseado na ciência, tenha menos cobranças e expectativas muito mais realistas.









