• ‘A lista onde não cabe apenas viver ‘


      “Se o seu cocô estiver nesse formato e boiando desse jeito, sinal de intestino maravilhoso”. Era o último card de um post que pulou no meu feed do Instagram com uma lista dos sinais de que a vida tá “saudável”. Antes vinha a cor do xixi, as horas de sono e de exercício físico semanal, os gramas obrigatórios de fibras, a poupança de 30% do salário mensal, a amizade com a creatina, uma DR com o álcool e as boas-vindas a uma meta de viés autoritário chamada moderação. No dia seguinte li outra postagem sobre o que seria a verdadeira saúde: ter tempo. O texto do influencer confrontava dinheiro e felicidade, performance e realização, resultado e bem-estar. Achei tão inspirador quanto ardiloso, pela reprodução da própria lógica das redes sociais, onde a facilidade de acesso a informações somada a alguma estratégia de mensagem, nos transforma em seguidores de check lists quase sempre inatingíveis e desconectadas da realidade diversa desse país. Queremos dar check, check, check como quem persegue aquele corpo da atriz da novela que tampouco é real numa vida real.

      O algoritmo vai para suas entranhas, percebe o conflito interno e te perturba (possivelmente pra sempre) num confrontamento diário com as suas escolhas. Quando o recorte maternal é descoberto, então, um novo mundo de novos julgamentos e culpas recai. Posts turbinados de especialistas que te falam o que é uma infância desejável – muitos profissionais são superpreparados, bem-intencionados e, de fato, prestam um serviço social incrível -, mas onde deixamos caber espaço pra nossa intuição? Em que jaca eu vou poder enfiar meu pé (ainda que só de vez em quando) e ensinar minha filha a fazer o mesmo? Tenho sentido falta dos excessos, que não sejam de informações e certezas. Quero abraçar a ciência e suas novas revelações, me mantendo de mãos dadas com Dionísio e sua abundância de prazer livre. Como reencaixar um hedonismo que se mantenha independente das novas amarras morais impostas por uma produção incessante de conteúdo wellness que não tira um tempo de descanso?

      Se a gente não descansa e se excede (um pouco) fora dos padrões, como vamos pensar e repensar a nossa própria realidade? Se o que estamos fazendo realmente faz sentido diante das nossas necessidades reais? Mais que ter tempo, me parece urgente resgatar o tempo real das coisas na mesma velocidade em perseguimos os likes e o gabarito nas check lists. Sejamos produtivos para construir o nosso tempo. Como? Sendo antiprodutivo. A palavra nem existe no word, tive que incluir no dicionário durante a digitação. Mas o conceito está largamente explorado no necessário livro da Mariane Santana que chegou aqui em casa esses dias e entrou pra minha check list de obras necessárias em 2026.

      Em Quem dá conta de tudo não dá conta de si mesmo a revolução está na recusa de viver para produzir para existir de outras formas, a partir de parâmetros singularmente nossos. Sai o automatismo que nos leva ao scrolling das check lists diárias, entra o ócio consciente para construir sentido e renovar a criatividade. A educadora e pesquisadora do trabalho vai além do indivíduo e mostra como a cultura da alta produtividade tem raízes históricas com impacto na coletividade desde sempre, afinal, o efeito manada é poderoso e quem manda sempre soube disso. O projeto opressor de subjetividades vai se atualizando de tempo em tempo quando, na verdade, tempo é experiência de vida e viver é muito mais que produzir e dar o check.

      Há alguns dias o incrível André Carvalhal – uma fonte de check lists interessantes – me lembrou que ficamos, em média, cem dias do ano conectados em telas. Mas esse grande intérprete de presente e futuro não nos deixou à deriva na imensidão ansiógena e, trouxe, o igualmente necessário A alegria em ficar de fora. Nas páginas está um caminho para encontrar conforto e alegria longe das check lists que estão nas time lines. O GPS antidigital vai te levar pra bem pertinho de nós: dentro da gente. Mas pra chegar lá é preciso tempo e disposição, pois quase sempre a lista de afazeres pra faxina interna põe você de volta à centralidade e não a expectativa do outro, o reconhecimento que vem (apenas) do trabalho e dos acontecimentos relações que não controlamos. Se puder fazer isso cercado de verde, pode ser ainda melhor. Ah, a viagem é de ida e volta, e você voltará melhor para dar seus checks necessários.

      Nota: Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Vogue Brasil.



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