Cara Delevingne tem o hábito de trocar de pele. Modelo desde a adolescência, tornou-se musa de Karl Lagerfeld, estrelou filmes como Cidades de Papel e Esquadrão Suicida e, em 2024, estreou no West End londrino com “Cabaret“. Em 2026, assumiu mais uma pele, a de cantora, e já está na estrada: a turnê começou em junho, com uma banda formada só por mulheres, e passou por Europa e Estados Unidos. Nesta quarta-feira (12), quando ela completa 34 anos, é essa a aventura que a ocupa.
A música, porém, veio antes de tudo. Aos oito anos, numa festa de virada de milênio, Cara se levantou, sentou ao lado de Andrew Lloyd Webber ao piano e começou a tocar. Por volta dos sete, já havia se apaixonado pela bateria, atraída pelo barulho e pela liberdade do instrumento. Só que, enquanto a carreira a levava para as passarelas de Burberry e Chanel e para as telas, ela seguia compondo escondida. Em entrevista recente à Vogue americana, contou que se trancava para não ser ouvida: “sempre que se tratava das músicas que eu tinha escrito, me trancava no banheiro para tocá-las, porque simplesmente não queria que ninguém ouvisse. Eram sempre para mim.”
O que mudou foi a decisão de abrir a porta. À Vogue, ela resumiu a virada como um “por que não?”. “Nunca vai ser o momento certo, eu nunca estaria pronta, mas sempre soube que um dia faria isso”, disse. Compor sempre foi, para ela, uma fuga saudável, e a meta era estrear com impacto: “você tem uma chance de fazer uma entrada, então é melhor que seja memorável.”
A entrada aconteceu em maio, com “I Forgot” e “Out of My Head“, lançadas juntas em um curta de sete minutos dirigido por Jessica Lee Gagné, vencedora do Emmy por “Ruptura“. As duas se costuram sem fronteira nítida, e isso é proposital. “Eu não queria que as pessoas soubessem quando uma música terminava e outra começava, porque era assim que meus sentimentos funcionavam naquele momento”, explicou à publicação. “I Forgot” nasceu de uma frase que ela soltou no estúdio na primeira semana de volta às gravações, “eu esqueci que o mundo é real”, num dia em que se sentia, nas palavras dela, um nervo exposto. “Out of My Head” começou com outro título, “Talking Heads”, e trata da dissociação e do vínculo distante com a família.
O terceiro single chegou em junho. “Need It” é a faixa mais voltada para a pista, coescrita com Fiona Apple, amiga e mentora de longa data, com quem Cara já tinha trabalhado ao gravar vocais de apoio em “Fetch the Bolt Cutters” (2020). A dupla compôs trocando frases em post-its. A canção retoma a pegada dançante e percussiva de “Out of My Head”, com a voz fragmentada sobre sintetizadores pulsantes. A produção do disco é assinada por Cara ao lado de BJ Burton, nome ligado a Bon Iver e Charli XCX.
O método de composição, pelo relato dela, não tem regra fixa. Às vezes parte da letra, às vezes de uma ideia de arranjo, às vezes de notas de voz gravadas no banheiro ou ao acordar de madrugada. “Não costumo planejar o que vou escrever quando entro no estúdio. Tento usar o que acontece ali, os sentimentos que surgem”, contou à Vogue. O resultado sonoro é escuro e eletrônico, e bebe nas compositoras dos anos 1990. “Sempre me senti atraída por cantoras e compositoras, especialmente da era dos anos 1990, mulheres encontrando seu poder na voz, na frustração, na raiva”, disse, sem descartar o pop e as raves entre as referências.
O álbum tem um fio condutor, mas gosta de desviar. Ela descreve um arco que vai do medo introspectivo e da dor ao conflito entre o certo e o errado, até um desfecho de “dane-se” e curtição. A faixa de abertura é um poema que escreveu no fim da adolescência, uma das primeiras vezes em que tratou de saúde mental. O repertório ainda passa por dependência, dissociação, sexualidade e relações abusivas. A última música, segundo ela a mais pop do conjunto, é uma canção de amor para a namorada, escrita, nas palavras dela, para irritá-la.
Até o clipe partiu de um gesto instintivo. Cara assistiu a “Ruptura” sem som, tocou as próprias músicas por cima e teve certeza da parceria. “Pensei: espera, isso é uma combinação perfeita”, lembrou. Gravou em Montreal, apostou num clima surreal e dispensou qualquer direção de moda, aparecendo de jeans e camiseta. A ideia, disse, era que o disco soasse como um recomeço: “eu queria que o álbum soasse como um renascimento, como um recomeço.”
O disco de estreia, ainda sem título anunciado, está previsto para os próximos meses pela Warner. A turnê que já a ocupa desemboca no Brasil em dezembro, no Primavera Sound São Paulo, nos dias 5 e 6, em Interlagos.









