No começo da manhã em Granada, na Nicarágua, o calor já se instala e uma umidade densa paira no ar. As pessoas circulam pelas ruas beliscando quesillo, macio e esponjoso, enquanto outras vendem frutas fatiadas, desviando dos carros que buzinam a caminho pelos cruzamentos. Ouço o tema de abertura de uma novela atravessar a porta de tela de uma casa próxima. “Buenas!”, grita nossa guia Aurora Alvarez-Granados Ramírez, de cropped, ao entrar saltitante no pátio onde estamos reunidos.
Estou numa jornada de duas semanas que serpenteia da Nicarágua até a Guatemala, com paradas em Honduras e El Salvador, ao lado de uma dúzia de viajantes dos Estados Unidos, do Reino Unido e da Austrália, entre 20 e 75 anos. O grupo é quase todo de mulheres, com a exceção de um marido acompanhante. Algumas são queer. Todas estão igualmente curiosas para conhecer essa região cheia de história.
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Como uma chilena-americana, com uma mãe que fez um extenso projeto de fotojornalismo na Guatemala nos anos 1990, sempre senti um chamado para explorar essa região. Mas fazia tempo que eu não entrava numa viagem organizada como essa. Costumo preferir viajar sozinha, o que me deixa perambular sem pressa e escolher meu próprio roteiro, embora também goste do conforto de deixar um especialista local guiar o caminho. Alvarez-Granados Ramírez trabalha como guia bilíngue por toda a América Central e, como mulher trans, oferece um olhar sobre esses países que leva em conta como as pessoas queer os vivenciam. Ela conduz viagens de uma a três semanas com a Intrepid, e também por conta própria, traçando uma rota por Costa Rica, El Salvador, Guatemala, Honduras, México e Nicarágua.
Para Alvarez-Granados Ramírez, isso significa navegar por uma região onde a visibilidade pode vir acompanhada de risco. As proteções LGBTQIA+ seguem limitadas e aplicadas de forma desigual nos países do nosso roteiro. “[As pessoas trans] não têm um lugar à mesa onde possamos ser respeitadas, valorizadas e amadas pela nossa cultura como aquilo que somos”, diz ela. “Pelo menos ainda não.” Ser tratada no gênero errado e encarada não é incomum, conta, e a segurança muitas vezes depende de ler rapidamente qualquer ambiente em que ela entra. Ainda assim, é essa consciência que molda a forma como ela guia, o que compartilha e em quem confia para receber isso. “Eu sentia que não pertencia a lugar nenhum até depois da minha transição”, diz. “Hoje sei que meu lugar era no turismo, por causa de quem eu sou e de onde venho. Minha história merece ser contada.”
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Alvarez-Granados Ramírez cresceu cercada por visões tradicionais de gênero da América Central, conta ela, com uma separação nítida e tradicional de papéis entre homens e mulheres. Mas ela prefere as crenças espirituais de sua herança indígena maia k’iche’. “Cresci com minha família me dizendo que toda mulher e todo homem têm energia feminina e masculina dentro de si, e que podemos acessar esse poder a qualquer momento”, diz.
Embora suas viagens não sejam pensadas exclusivamente para viajantes queer ou trans, Aurora prioriza a segurança e o conforto de todos. Suas vivências moldam seus limites e ajudam a proteger o grupo inteiro. E abrem espaço para um olhar necessário numa região que costuma ser reduzida a uma estética de cartão-postal, com fachadas coloniais, vulcões dos quais se pode descer deslizando e mercados coloridos como pano de fundo bonito. O trabalho dela quer interromper isso.
Em Masaya, na Nicarágua, ela nos leva ao bairro de Monimbó, onde conhecemos uma família de várias gerações que faz máscaras. As peças, entalhadas e em papel machê, já serviram tanto como talismãs para invocar espíritos quanto como ferramentas de ativismo político. “Nos últimos dias da ditadura de Somoza, no fim dos anos 1970, quando os moradores de Monimbó lutavam contra o governo, eles usavam essas máscaras para proteger o rosto na batalha e esconder a identidade, o que as tornou um símbolo de resistência, revolução e orgulho nicaraguense”, diz. “O mesmo fenômeno se repetiu numa revolta de 2018, em resposta à corrupção e a reformas tributárias.”
Na estrada esburacada rumo ao sítio arqueológico de Copán, em Honduras, ela pergunta se queremos saber nosso nahual, nosso signo do zodíaco maia. Todos assentimos animados. Um a um, ela lê os signos de cada viajante do grupo, explicando cada um com uma mistura de humor e cuidado, às vezes com uma piscadela cúmplice. Quando diz a um jovem da geração Z, que anda sempre de cores vibrantes e se move de um lado para o outro cheio de energia, que o dele é o beija-flor, todos rimos. Mesmo nos poucos dias juntos, sabemos que é certeiro. E não surpreende ninguém que o de Alvarez-Granados Ramírez seja kame, a coruja, o signo conhecido por ser delicado e ao mesmo tempo inteligente, um líder magnético e adaptável às mudanças.
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O roteiro dela também reserva tempo para polos regionais de cultura queer, onde artistas e comunidades LGBTQIA+ prosperam. Lugares como Los Robles, na capital nicaraguense de Manágua, que abriga uma das casas noturnas mais barulhentas e orgulhosas do país, a Candyland by Teatro. Ou a Cidade da Guatemala, onde existe uma cena drag ativa e recursos como a Reinas de la Noche Otrans, que oferece atendimento médico e de saúde mental gratuito para pessoas queer. Vemos como a comunidade trans existe apesar da discriminação.
“Histórias sobre pessoas indígenas queer e pessoas trans não são para todo mundo”, ela me diz mais tarde. “Nem todo mundo está pronto para ouvir, mas, como mulher trans, tenho uma noção do que as pessoas que viajam comigo estariam abertas a escutar.”
Em vez de pensar as histórias queer à margem da sociedade centro-americana, Alvarez-Granados Ramírez prefere destacar como as duas coisas estão entrelaçadas. É o caso do huipil, blusa tradicional usada pelas mulheres indígenas maias da região, que se tornou item marcante da comunidade trans na Guatemala. Para as mulheres trans que o vestem, é símbolo de orgulho não só do gênero, mas também da identidade cultural. Para ela, é um lembrete de que vem de uma linhagem de mulheres resistentes e aventureiras, que compartilharam suas histórias por gerações. Mulheres que mantiveram as casas de pé durante a Guerra Civil da Guatemala, que introduziram a água fervida para o consumo seguro em sua comunidade, ou que seguem mantendo vivas as tradições k’iche’ num mundo em transformação.
Alvarez-Granados Ramírez brilha nos espaços onde pode ser ela mesma.
Alvarez-Granados Ramírez brilha nos espaços em que pode ser ela mesma, onde a flagramos cantando junto com o rádio e dançando enquanto espera numa fila, misturando-se ao burburinho em vez de se proteger dele. Depois da transição, conta, passou a sentir uma conexão ainda maior com o mundo, e foi o turismo que lhe permitiu canalizar isso, ao trazer visitantes para as terras natais de sua família, no altiplano oeste da Guatemala e em El Salvador. “Ninguém me deu um manual de como fazer isso”, diz. “Mas alguém tem que se colocar à frente. É o meu momento.”
Ao fim da viagem, nosso grupo de 14 está unido, entre si e com a guia. Somos, oficialmente, uma turma. Em Antígua, nos demoramos mais que o normal depois do café da manhã. Há abraços de verdade, olhos marejados. Há promessas de manter contato e uma resistência a desfazer o que foi construído. Antes da viagem, eu tinha só um punhado de estereótipos sobre essas cidades e receio de viajar sozinha como uma mulher americana de aparência branca. Mas o que fica comigo são as pessoas como Alvarez-Granados Ramírez, cheias de autenticidade, calor genuíno e uma confiança inteira, e suas histórias, de camadas complexas, às vezes desconfortáveis e traumáticas, mas sempre humanas. O que ela nos ofereceu não foi só uma forma diferente de ver a América Central, mas um questionamento das suposições que moldam a própria ideia de viajar.
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Reportagem de Christina Berke, publicada originalmente na Condé Nast Traveler. Traduzida e republicada com autorização.
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