Na sala do Museu FAMA, em Itu, a trilha é de Erik Satie, compositor francês cuja “música de mobiliário” é apontada como precursora da música ambiente e que fazia parte da vanguarda parisiense frequentada por Tarsila nos anos 1920. É ali que está “Tarsila: Onde Nascem as Imagens“, exposição que reúne cerca de 45 desenhos de Tarsila do Amaral (1886-1973) e que a Vogue visitou na abertura. Os estudos passam por várias fases da carreira da artista, de naturezas-mortas do início da formação a esboços para telas como “A Cuca“.
“As pessoas às vezes me falam, ‘ah, a Tarsila não pintou desenho, não tem desenho, né?’ Eu falo, ‘gente, como assim a Tarsila não tem desenho?'”, conta Paola do Amaral Montenegro, sobrinha-bisneta da artista e gestora da Tarsila do Amaral S.A., empresa que administra o legado dela. “Então eu acho que isso daqui é de fato mostrar uma Tarsila completamente nova para as pessoas, pertinho de São Paulo.”
O recorte sai de uma coleção de 204 folhas que pertence a Marcos Amaro, fundador do museu e curador da mostra. Como Tarsila usava muitas vezes os dois lados do papel, o conjunto soma 238 imagens, e alguns desenhos estão montados de forma que frente e verso fiquem à vista. Segundo o museu, é a maior coleção de desenhos da artista. Os trabalhos foram exibidos no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro em 1969 e depois saíram de circulação. De acordo com Amaro, um colecionador guardou os desenhos numa gaveta por anos, sem mostrá-los nem à esposa, e não permitiu que entrassem no catálogo raisonné de Tarsila.
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A montagem não segue a ordem cronológica. Um dos pontos de partida é Pedro Alexandrino, professor de Tarsila, que se especializou em natureza-morta quando o gênero era o menos prestigiado da tradição acadêmica. Uma obra dele está na sala, ao lado dos estudos da aluna, e a comparação mostra de onde vem o cuidado dela com luz, sombra e volume. Quem vai de um desenho a outro também percebe a mão da artista mudando. Nos papéis mais antigos aparece o que desenhistas chamam de “linha peluda”, o traço hesitante de quem volta com o lápis várias vezes sobre o mesmo movimento. Nos posteriores, a linha sai contínua.
Parte do conjunto vem de um projeto que nunca chegou ao palco. Tarsila, Oswald de Andrade e Heitor Villa-Lobos planejavam um balé com personagens do folclore brasileiro, com texto dele, música do compositor e cenário e obras dela. O espetáculo não foi montado, e o que ficou são os desenhos da Mãe-d’Água, do Saci e de outras figuras cujo papel no roteiro ninguém sabe. Perto deles está um estudo para “A Cuca“, com tatu, bichos e uma boneca indígena. A tela final pertence ao Musée de Grenoble, na França. Na leitura da equipe do museu, a Cuca do desenho olha para o sapo como para um muiraquitã, o amuleto que Mário de Andrade pôs no centro de “Macunaíma“, escrito na mesma época.
Nos desenhos ligados à antropofagia, a mostra aponta outro hábito da artista, a fotografia. Tarsila registrava trens, paisagens e os matacões, grandes rochas arredondadas da região de Jundiaí, e usava a silhueta dessas pedras para desenhar os bichos das telas do período. O conjunto inclui ainda um autorretrato de cabelo curto, de 1923, em grafite e crayon, o desenho de um cemitério registrado na então União Soviética e ilustrações para livros de Osório César. A expografia foi planejada em 3D e testada em realidade virtual antes da montagem, já que o curador acompanhou o processo a distância. Na saída, o público é convidado a responder por escrito à pergunta do título, e as respostas devem formar um banco que o museu pretende compartilhar no Instagram.
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A mostra em Itu se soma a uma série de exposições que marcam os 140 anos de nascimento de Tarsila, completados em 1º de setembro. Neste ano, a artista ganhou uma individual em Brasília, no Centro Cultural do TCU, uma exposição em Campos do Jordão e a imersiva “O Brasil de Tarsila“, no Nubank Arte Lab, em São Paulo, com curadoria de Paola e Juliana Miraldi. “Eu acho que o que a gente pode fazer como empresa que gere esse legado é devolver de fato para as pessoas”, diz Paola.
Para ela, a trajetória pessoal da artista também faz parte desse legado. “Primeiro que é uma honra ser uma mulher gerenciando o legado de uma outra mulher”, afirma. Paola lembra que Tarsila teve uma vida privilegiada até perder os privilégios financeiros e passar a trabalhar muito. “Para além da Tarsila ser a mulher à frente do seu tempo quando tá tudo bem, quando não tava tudo bem ela foi e deu um jeito de fazer ficar tudo bem.” E completa: “Muita gente fala, a Tarsila teve uma vida terrível, sofreu, foi muito traída. Mas é uma vida, eu gosto de falar que é uma vida bem vivida, porque ela se entregou.”
Os desenhos devem voltar a aparecer em breve. Segundo Paola, outra exposição está sendo planejada para os próximos meses. “Vai ser em São Paulo e são desenhos também.” Mas vamos ter que aguardar para mais informações.
Tarsila: Onde Nascem as Imagens
Museu FAMA. Rua Padre Bartolomeu Tadei, 9, Vila São Francisco, Itu (SP)
Quintas e de sexta a domingo, das 11h às 17h
R$ 80 (até 30 de novembro, todos pagam meia, R$ 40). O ingresso dá acesso também ao Museu Asas de Um Sonho e às demais áreas do centro cultural, exceto o Ateliê do Kobra
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