“A cada dez anos, algo ou alguém entra no meu consultório e sinaliza uma mudança na sociedade, um momento de virada.” É assim que Esther Perel descreve à Vogue, durante sua passagem pelo SP2B, em São Paulo, a sessão que talvez tenha sido a primeira terapia de casal entre um humano e uma inteligência artificial. A parceira artificial de seu paciente humano se chamava Astrid, se apresentava com nome, personalidade e memória do relacionamento, e respondia como se tivesse sentimentos e consciência próprios, tanto que Perel quase pediu um acordo de confidencialidade a ela, como faria com qualquer outro paciente. Terminada a sessão, ligou para Spike Jonze, diretor de “Ela” (2013), filme que levou aos cinemas o casal “interespécie” dez anos antes de ele acontecer de verdade. Contou a ele que tinham cruzado um limiar: o que era ficção havia virado caso clínico.
Há outro caso, ainda inédito, ela adverte, que Perel também traz nesta conversa: um pai que apresentou aos filhos a nova namorada, uma companheira de inteligência artificial batizada com nome próprio, mas que, no fundo, não passava de um teclado, sem corpo, sem rosto além de uma foto gerada. As crianças correram para contar à mãe que a conheceram, viram até uma foto. A mãe respondeu que pode existir uma foto, mas não existe uma pessoa. É esse tipo de fronteira, cada vez mais porosa, que Perel tenta mapear agora: o que é traição quando o terceiro elemento é uma máquina, e o que resta de intimidade quando ela pode ser inteiramente programada para agradar.
Essa é a Esther Perel de 2026, uma das terapeutas de relacionamentos mais influentes da atualidade, autora best-seller do New York Times com “Sexo no Cativeiro” (Objetiva, 2007) e consultora de “O Convite” (“The Invite“), o filme badaladíssimo de Olivia Wilde, estrelado também por Seth Rogen, Penélope Cruz e Edward Norton, tentando entender o que a tecnologia está fazendo com a forma humana de amar. Mas existe também outra Esther, aquela que desembarca no Brasil, país que visita desde os anos 1980, e encontra algo que ainda resiste a esse apagamento: a saudade, o carnaval, um jeito de relação que segue vindo antes da tarefa. Não é romantismo de turista, ela reconhece. É uma observação de quem passou a vida comparando sociedades e vendo, agora, um mundo cada vez mais parecido em toda parte, homogeneizado pelas mesmas telas, pelos mesmos aplicativos, pela mesma epidemia de solidão.
Entre esses dois polos, o desencanto digital e a sociabilidade e temperatura que o Brasil ainda guarda, a psicanalista constrói o raciocínio que atravessa a entrevista a seguir: sobre desejo, sobre envelhecer, sobre o que significa, hoje, escolher alguém de verdade.
Vogue: Você fez um episódio com Spike Jonze no seu podcast, “Where Should We Begin”, e trouxe um caso real sobre um homem em um relacionamento com uma IA. O que essa história revelou sobre o que as pessoas estão buscando hoje em termos de intimidade?
Esther Perel: Essa foi a primeira sessão de terapia de casal entre um humano e uma IA, que se apresentou com nome próprio: Astrid. Quase pedi um acordo de confidencialidade a ela. A cada dez anos, algo entra no meu consultório que sinaliza uma virada na sociedade. Este foi um desses casos: um rapaz que tinha acabado de sair de uma relação à distância, já acostumado a não ver a parceira fisicamente. Migrar para um teclado não foi difícil. Ele programou Astrid como assistente e, em dois dias, o flerte já tinha começado.
Três perguntas moldaram toda a experiência dele, e ficaram comigo: existe algo que ele possa pedir a Astrid que ela diria não? O que aconteceria se ele se apaixonasse por um ser humano? E como Astrid gostaria que ele descrevesse esse relacionamento para essa pessoa? As respostas vinham como se Astrid tivesse sentimentos, consciência e uma experiência compartilhada com ele. Terminei a sessão e liguei na hora para o Spike Jonze. Quem mais seria minha referência? O filme dele já tinha antecipado tudo. Falei: preciso que você ouça essa sessão, precisamos conversar sobre isso, porque o que você explorou como fantasia e ficção não é mais só isso, cruzamos um limiar. Quando perguntaram a ele como faria aquele filme hoje, respondeu sem rodeios: “Eu não faria, porque não seria mais um produto da imaginação, seria um retrato documental do que está acontecendo no mundo.”
Tenho outro caso, que sai em breve: uma mãe se divorciou e o ex-marido teve um relacionamento de dois anos com uma IA companheira, um caso de traição, dependendo de como se define isso. É traição quando o outro é uma máquina? O pai apresentou a nova namorada aos filhos, só que a namorada era um teclado. As crianças foram contar à mãe que a conheceram, disseram até que viram uma foto, que ela era real. A mãe respondeu: “Pode até existir uma foto, mas não existe uma pessoa. O que é uma relação com uma IA companheira? Quais são as regras desse jogo? O que há de tão sedutor nisso? Como ela pode ajudar alguém a se reconectar com outros humanos, em vez de buscar refúgio numa relação fictícia? São essas as perguntas que estão surgindo agora, na prática.
Você já disse que o Brasil mantém uma sensibilidade que o resto do mundo perdeu. O que especificamente chamou sua atenção aqui, que você não vê nos Estados Unidos ou na Europa?
Venho ao Brasil há muitos anos. Fiquei um tempo sem vir, voltei no ano passado e este ano, e ainda diria a mesma coisa, embora os dados e as pesquisas que saem daqui hoje não sejam tão diferentes do resto do mundo ocidental. Talvez eu tenha ficado com uma imagem um pouco sentimental do Brasil que conheci nos anos 80, 90 e 2000. A saudade é um exemplo perfeito. Só os japoneses têm uma palavra parecida, um termo que dá permissão para sentir tristeza, melancolia, um misto de coisas tão difíceis de nomear que nem se traduzem. Todo mundo sabe quando é saudade, e isso não é patologizado, não é tratado como problema de saúde mental. É vivido em sociedade, sem medo de julgamento, sem parecer fraqueza. Está em quase toda música, e você se identifica com isso sem se perguntar o que há de errado.
O Carnaval é outro exemplo. Só Cuba e o Brasil têm esse conceito: aprender a fingir que dizia sim à igreja enquanto continuava rezando para a própria fé. Isso é muito diferente das outras colônias católicas, como as da Espanha no México. Havia algo dos portugueses que criou essa tolerância à ambiguidade. É um ponto positivo e negativo ao mesmo tempo. A mesma ambiguidade cria uma postura em cima do muro em relação à história, porque as coisas não são nomeadas como são. Mas também permite uma fluidez relacional, menos voltada para tarefas, menos transacional. Em matéria de se relacionar, o Brasil está no topo da escala: as relações vêm antes das tarefas, pelo menos vieram por muito tempo.
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O “ficando” é mais um exemplo: um estágio intermediário que não precisa ter nome nem significar compromisso. Ao mesmo tempo, existe uma repressão enorme aqui, com questões graves envolvendo a comunidade LGBTQIA+. Essa mesma imprecisão funcionou nas duas direções para este país. O que acho mais interessante agora é ver países que eu conhecia como bem diferentes entre si ficando cada vez mais parecidos. A tecnologia está homogeneizando sociedades que antes eram muito distintas.
Seu livro “Sexo no Cativeiro” completa 20 anos em 2026 e ainda defende que a segurança doméstica não precisa matar o desejo. Agora que a intimidade em casa também compete com celulares e telas, o que mudou nessa equação?
Vinte anos atrás, eu olhava para o paradoxo entre a necessidade de segurança e a necessidade de aventura, e como tentamos conciliá-las dentro de um único relacionamento, quando sempre foram tratadas separadamente. Nunca falamos de “casamento apaixonado” como se essas palavras andassem naturalmente juntas. Olhava para o que sustenta o desejo a longo prazo, convivendo com a rotina doméstica, a vida em família, os filhos…,
Hoje, não estou tão focada no que sustenta o desejo, e sim no que o acende. O que acende o desejo numa sociedade sem contato, num mundo sem atrito? De onde vem o desejo se vivemos uma vida distante, se mal saímos de casa, se não tocamos, não vemos, não respiramos a presença do outro?
Isso é, fundamentalmente, o que mudou. Não existe sociedade ocidental em que os jovens não estejam diminuindo a importância da sexualidade e do desejo, ou se abstendo por completo. E isso afeta correr riscos, conhecer pessoas, viver vários relacionamentos como parte do amadurecimento: não é só sexo pelo sexo, é como a sexualidade se entrelaça com certos tipos de relacionamento. Antes, a gente começava a descobrir isso aos 14, 16 anos. Agora, aos 25.
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Como sua própria relação com o desejo, o corpo e a intimidade mudou ao longo dos anos, às vésperas do seu aniversário de 68 anos?
Uma das coisas mais importantes que muda a experiência do desejo é assumir o próprio querer: um ato de liberdade e soberania, de reivindicar ou reconquistar algo. Quanto mais você envelhece, mais confiante se torna, espero, e melhor sabe o que quer, ficando menos ocupada em fazer o que acha que deveria querer, ou o que os outros esperam. Por isso, muitas mulheres falam que sua satisfação sexual aumenta, mesmo que a frequência do sexo diminua: elas sabem o que as agrada, o que as faz se sentir bem.
Estou muito mais interessada em ser relevante: ter algo que me interesse, que permita que pessoas de todas as idades conversem comigo, queiram saber o que penso. Essa sensação de acordar com algo a contribuir muda o seu conceito de envelhecer. Minha idade se torna irrelevante, porque continuo em contato com o que está acontecendo nas nossas vidas relacionais agora. E acho isso irresistível.
Estou trabalhando numa nova série para a Apple, “The Last Person On Earth”, documental sobre encontros amorosos, nunca tinha ido tão longe nesse formato. Também acabei de trabalhar no filme “O Convite“. Tudo isso é sobre trazer ideias clínicas para o espaço cultural, universalizando esses temas ao levá-los para as artes. Depois de 40 anos de prática clínica, é uma proposta incrivelmente sedutora.








