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Estamos romantizando o envelhecimento?


O arquétipo da velha sábia está em pleno processo de atualização. Até pouco tempo, ela, a avó amorosa e fofinha e a matriarca generosa e poderosa, eram as referências para mulheres bem sucedidas com mais de 60 anos. Os últimos dez anos mudaram muito, talvez tudo, sobre a imagem das mulheres nascidas a partir dos anos 1940/50. Vemos 80, até 90+, cheias de atitude e produtividade. Assistimos 60 e 70+ com corpos lapidados, “dentes e músculos”, como canta Caetano em Você é linda. Enquanto isso, as 50+ reinventam suas vidas e jornadas. Todas com a libido, a sobrancelha, o corpo e o humor lá em cima. Será? Será mesmo? Ou estamos romantizando o envelhecimento?

Eu penso que sim, estamos romantizando. Ao mesmo tempo, entendo a importância de referências assim e amo assistir essas mulheres. Elas inspiram uma vida com mais qualidade e vitalidade, com autoestima. Até que…tudo isso vire uma cobrança. É preciso cuidado e atenção. Quem fica só nas redes sociais pode acreditar que essas mulheres são maioria ou se colocar no terrível território da comparação. Sou influenciadora há quase uma década, o meu tema, somos nós, 50+, e afirmo: não caia nessa.

Muitas redes sociais têm um filtro cor-de-rosa, personagens criados e um recorte milimetricamente pensado. Daí o motivo de, muitas vezes, você se surpreender com uma rotina, um nécessaire, ou mais recentemente, com o tanto de livros lidos por alguém.

Gosto do hype dos livros. Contudo, sendo hype, tem construção. E, sim, a imagem da nova velhice também é construída. Vende livros e entretenimento, planos de saúde, suplementos, protocolos médicos, estilo de vida. É um produto, embalado em enredos romanceados. Que, por vezes, tem efeito perigoso: colocam o público em um lugar de inferioridade, inadequação ou distanciamento. Afinal, é preciso dinheiro para fazer parte desse universo. Para ter dinheiro, vem o trabalho, daí o etarismo do mercado ou até o cansaço mesmo. Descansar depois de anos de trabalho é um direito, não deveria ser considerado um luxo.

Contudo, a produtividade incansável é divulgada junto com os corpos sarados, a pele jovial, os cabelos brancos sem um fio fora do lugar, os dentes alvos e a disposição para muita festa. Os velhos não param, produzem, criam. É tão lindo… para quem quer. E quem está em exaustão? Vivemos tempos de economia e governos globais quebrados. Nesse cenário, vem a calhar a ideia da produtividade sem fim — o que talvez seja a única alternativa para muita gente. O idoso, a idosa, que quer, ama produzir e encontra espaço, vive um romance. Será que são maioria? Nas redes podem parecer que sim. Aliás, nas redes, quando aposentam, viajam o mundo. Todinho.

Parecer e ser. Lembrei daquela propaganda do “parece mas não é”. Lembra? É bem da nossa época e faz todo o sentido quando o assunto é a velhice atual. E a longevidade, hein? Quando foi que todo mundo passou a acreditar que é possível adiar a morte? De repente, a morte, a nossa única certeza, e a mais surpreendente delas, pode ser atrasada. Como? Me conta? O que uma vida saudável garante é um presente com mais qualidade e vitalidade. E isso é maravilhoso. Daí a estender a vida… são outros quinhentos.

Mais: há controvérsias. Bryan Johnson, aquele estrangeiro que quer reverter o tempo e ficar mais jovem com a passagem dos anos, gastou milhões em rotinas, dietas, protocolos e tomou 54 suplementos diários. Desenvolveu uma doença séria: uma gastrite em que o próprio estômago come o próprio estômago. Enquanto isso, no interior do Brasil, há mulheres e homens mais velhos, que ele, que eu, talvez que você, subindo em pés de açaí usando pecunha (um pedaço de pano ou corda nos pés), sem nenhum suplemento e protocolo. Estão mais enrugados, os dentes não estão todos lá, mas a família, a paz e alegria estão. E, assim, eles envelhecem muito bem. Pois envelhecer bem é relativo demais. Demais. Tem a ver com mobilidade, saúde geral, mas especialmente com os seus valores e crenças.

Talvez eu esteja romantizando a velhice na área rural, eu sei. Ok, estou. Mas, aos meus olhos, parece mais saudável que a da rede social. Fato é que envelhecer, é viver, e assim como a vida, pede um pouco de romance e fantasia. Simplesmente porque a realidade já é dura demais. Daí, um pouco de romance cai muito bem. Ou seja, romantizar pode ser uma boa saída. Mas com moderação, é claro.

Outra saída é radicalizar e seguir a linha de Jagger. Sim, Mick Jagger. Nas entrevistas para o lançamento do álbum mais recente de sua Rolling Stones, ele afirmou: não tem nada de bom em envelhecer, nem a sabedoria, porque a falta de memória a carrega.

Deve ser dificílimo envelhecer sendo o Mick Jagger, eu o entendo. Imagina ser a síntese da vitalidade, da rebeldia e do sex appeal no mundo todo, personificar os signos da juventude e… envelhecer? Eu imagino e já começo a romantizar a velhice um pouco para aliviar. E você?



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