• Jão: ‘A música me reencontrou’


      Jão passou perto de um ano e meio recolhido, longe dos palcos e das redes, num período atravessado pela morte do pai, Carlos. Foi correndo de madrugada que a vontade de compor voltou. “A música me reencontrou, na verdade. Um dia correndo de madrugada, ela só bateu em mim de novo e voltou a ter graça de uma maneira meio instintiva”, conta o cantor, com exclusividade à Vogue Brasil. Desse reencontro nasceu Memórias Póstumas, seu quinto álbum de estúdio, que chegou às plataformas em 26 de julho, quase dez anos depois da estreia com Dança Pra Mim.

      O disco olha para o cotidiano e encontra nele um tamanho inesperado. Jão percebeu isso no contraste entre a perda e a rotina que seguia indiferente. “A simplicidade, a idiotice, das pessoas continuarem indo à padaria no dia em que eu perdi meu pai, é mais intenso para mim do que escrever uma grande metáfora sobre o universo”, diz. A partir daí, o pão, o restaurante, os gatos, tudo virou material. “Quando eu percebi o quão mundana a morte pode ser, decidi que as coisas mais banais também poderiam ser gigantes.”

      A literatura entra como estrutura e como tema. O título remete a Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, e a faixa que encerra o álbum ecoa a dedicatória do romance. Foi ao compor a música-título que Jão encontrou a chave do disco, a de um narrador que molda a realidade com as palavras. “Inventar é um ótimo jeito de ser”, resume. Ele cita Machado, lido primeiro na adolescência e revisitado adulto, e O Feiticeiro de Terramar, de Ursula Le Guin, em que a magia se aprende ao descobrir o verdadeiro nome das coisas.

      O cantor explica álbum não foi escrito em linha reta. Partiu de blocos de anotações e frases soltas, e foram cerca de 68 músicas até as 14 finais. No corte, Jão diz ter priorizado a incerteza e a crueza dos dias comuns, e deixado de lado canções mais pop. “Ainda penso em lançá-las um dia porque são perfeitas, mas não são perfeitas para quem eu sou no momento”, relembra.

      A virada também é sonora. Onde Super apostava em guitarras e refrões de arena, aqui entram violões, cordas e flautas, numa paleta que Jão associa ao pop brasileiro dos anos 80 e 90, de Kid Abelha e Marisa Monte aos Paralamas. Ele voltou a produzir ao lado de Zebu e chamou nomes de outra geração, como Marco Mazzola e músicos ligados a Raul Seixas. Outro destaque é a faixa João foge à regra, a primeira que ele não assina, escrita por Pedro Tófani, seu namorado e diretor criativo. “Achei que seria legal ter literalmente um outro ponto de vista”, diz, sobre um disco construído em várias perspectivas.

      Jão no clipe de "Catedral" com look Céline — Foto: Divulgação
      Jão no clipe de “Catedral” com look Céline — Foto: Divulgação

      Aliás, o tom mudou, mas a convicção não. Jão fala em amadurecer à vista de todos sem se moldar a quem não gosta dele. “Me trair nunca é uma opção”, garante. A mesma lógica organiza a estética da era, que veste o escritor e a morte no mesmo terno. “Defuntos e escritores se vestem de maneira parecida”, observa, sobre a capa e o figurino pensados com o stylist Pedro Sales. O próximo capítulo é o palco, que ele já prepara, com a ideia de cantar palavras íntimas num ambiente grandioso, honrando cada uma delas.

      Abaixo, confira a entrevista completa

      Vogue: Seus quatro discos anteriores giravam em torno dos elementos, terra, ar, água e fogo. Esse quinto rompe com isso e fica mais aberto a interpretações. Como foi compor sem esse fio condutor?

      Jão: Foi muito humano e natural. Dessa vez eu não me senti pensando em qual seria o próximo passo para minha carreira crescer mais, eu só precisava realmente escrever. Mas eu ainda adoro pensar nos álbuns como obras completas para além das músicas. Quando fiz a música Memórias Póstumas, e percebi que eu podia ser esse narrador não-confiável, que brinca de moldar a realidade com as palavras, eu vi um poder muito grande nisso, principalmente para atravessar o momento que eu estava passando. Inventar é um ótimo jeito de ser. Então foi virando um álbum sobre o cotidiano, com perspectivas diferentes, saltos temporais, e clímax abruptos. Coisas que roubei dos livros.

      Vogue: O disco nasceu de blocos de anotações e frases soltas, e teriam sido umas 68 músicas até sobrarem 14. Como você percebe que uma frase dessas vira canção? E o que fica de fora?

      Jão: Eu priorizei a incerteza, a insignificância, a crueza das coisas e dos dias comuns. Acho que deixei algumas músicas pop de fora que um determinado público adoraria, e ainda penso em lançá-las um dia porque são perfeitas, mas não são perfeitas para quem eu sou no momento.

      Vogue: A literatura está no título e na última faixa, que conversam com Machado de Assis, mas também na estrutura do disco. Quando a leitura entrou nessa história, e que outros autores rondaram a escrita?

      Jão: Eu li Machado pela primeira vez na adolescência e eu só digeria a melancolia daquilo tudo. E depois adulto, eu comecei a ver a beleza nas coisas que ele apontava de forma fúnebre ou crua. Gosto como ele fala dos sapatos, do sol, da pneumonia, da chuvinha fraca, como formas naturais da existência das coisas. E isso me guiou muito na escrita do meu disco. E eu também li muita fantasia nesse último ano, que era uma obsessão minha adolescente que dormiu quando minha carreira começou a tomar meu tempo. Li o Feiticeiro de Terramar, da Ursula Le Guin, e é engraçado que no livro, as magias são aprendidas quando você descobre o verdadeiro nome das coisas. O que tinha tudo a ver com o que eu estava escrevendo, em uma perspectiva muito diferente.

      Vogue: “Catedral” abre o álbum a partir da perda do seu pai, e você trouxe áudios da família para algumas faixas. Como foi a decisão de colocar a voz dele dentro das músicas?

      Jão: Eu quis naturalizar tudo o que estava vivendo e homenageá-lo ao meu modo. Mas não ouço esse pedaço das músicas desde o dia que incluímos.

      Vogue: Pela primeira vez tem uma faixa, “João”, em que você não assina a letra, escrita pelo Pedro. Como foi abrir esse espaço e entregar a autoria de uma canção a outra pessoa?

      Jão: Foi muito natural, porque não era simplesmente uma outra pessoa. É a pessoa que divide a vida comigo, constrói e me vê vivendo. Um dos pilares desse álbum são as perspectivas. Algumas músicas são escritas do ponto de vista de outras pessoas. Achei que seria legal ter literalmente um outro ponto de vista, não-literário, mas talvez nunca aconteça de novo.

      Vogue: Em “O Amor” você chamou o Marco Mazzola e músicos ligados ao Raul Seixas e à MPB, e a flauta aparece em várias faixas com um quê barroco. Como você chegou a essa paleta mais orgânica e a essas parcerias com gente de outra geração?

      Jão: Sempre fui muito fã do Raul e fiquei muito mais nesse último ano. Sobre a roupagem do disco, tudo aconteceu de forma natural. Eu, o Pedro, o Zebu sempre discutimos sobre como existe uma estética sonora e pop no Brasil, que apesar de muito reverenciada, não passou tempo suficiente pra colocarem lá em cima junto da MPB, Bossa Nova: que é o pop, pop/rock dos anos 80/90. Amo muito tudo que aconteceu nesse período, Kid Abelha, Skank, Marisa, Paralamas… Acho que é um som bem brasileiro, que ressoa comigo mais naturalmente do que mimetizar a MPB clássica que em mim soaria como uma caricatura.

      Vogue: O disco chega depois de quase um ano e meio de recolhimento, longe das redes. Como foi reencontrar a vontade de fazer música, e o que mudou na sua relação com o trabalho quando você voltou?

      Jão: A música me reencontrou, na verdade. Um dia correndo de madrugada, ela só bateu em mim de novo e voltou a ter graça de uma maneira meio instintiva. E eu quis fazer isso de novo. Então sinto que minha relação com ela está mais calejada, no sentido de que eu não sinto que preciso provar alguma coisa, mas faço porque quero.

      Vogue: Depois do porte de estádio de “Super”, esse disco baixa o volume e olha para o cotidiano. Como é amadurecer à vista de todo mundo dentro do pop, e construir um espaço mais adulto sem largar o público que te acompanha desde o começo?

      Jão: Eu descobri bem cedo na minha carreira que meu maior trunfo como artista é ser fiel a mim e isso até irrita um pouco as pessoas, acho. Não mudo meu trabalho pra caber no gosto de quem não gosta de mim. Acho que é uma busca inútil na qual alguns artistas vivem. E não existia espaço na minha vida para um disco que não fosse esse. Então, até comercialmente, me trair nunca é uma opção e eu banco isso. Quando fizer sentido e eu sentir vontade de fazer um disco todo pop, cheio de melodias grudentas, eu vou fazer, se eu sentir vontade de fazer um voz e violão, eu vou fazer. Eu me sinto cada vez mais seguro de saber que eu tenho a fundação que me permite existir na música.

      Já sobre o cotidiano, em algum momento, eu percebi que os detalhes do dia a dia podem ser mais dramáticos que a hipérbole. A simplicidade, a idiotice, das pessoas continuarem indo a padaria no dia em que eu perdi meu pai, é mais intenso para mim do que escrever uma grande metáfora sobre o universo. Quando eu percebi o quão mundana a morte pode ser, então eu decidi que as coisas mais banais também poderiam ser gigantes. O pão, o resturante que vamos, os meus gatos. Tudo isso passa a ser mágico nas palavras. Escrever sobre detalhes pequenos faz com que seja um disco que você vai descobrindo aos poucos. Não está tudo dado de imediato e as coisas vão aparecendo a medida que se ouve. Quero ir construindo esse trabalho como uma casa, tijolo por tijolo. Porque de fato acredito no alicerce.

      Jão — Foto: Divulgação
      Jão — Foto: Divulgação

      Vogue: Na capa, você aparece de alfaiataria e com uma flor na orelha, ao lado de uma senhora de vestido preto. Como vocês pensaram esse contraste de figurino, e o que a roupa dela conta na cena?

      Jão: Ela pode representar muitas coisas. Não queria que alguém batesse o olho na capa e falasse “ah é a morte” só porque ela estava com um cajado e um véu preto. Ela é a morte, é o tempo, é a minha avó, sou eu. E o figurino dela é bonito na sutileza. Amo as meinhas altas dela que acabaram não aparecendo na foto. Trazem um ar meio colegial e jovem pra essa figura.

      Vogue: Como foi construir o styling desta era com o Pedro Sales, e que referências guiaram essa alfaiataria mais sóbria, de ar oitentista? Como o luto e a memória entraram nas escolhas das peças?

      Jão: Esse álbum tinha duas imagens muito fortes desde o início. A do escritor, e a da morte. Foi interessante quando a gente percebeu que defuntos e escritores se vestem de maneira parecida. O terno é um símbolo que une as duas coisas, sem ser literal. É uma sutileza desse universo na qual eu vejo graça. E acho que as flores, as cores, as sandálias de couro dão uma assinatura brasileira e viva para esse momento, que não quero que seja uma caricatura. A sonoridade dos anos 90 do disco também deixou essa escolha bem natural. Os ternos largos do Giorgio Armani de 93, Gucci antes do Tom Ford… Mas quando as novas coleções da Dior e da Chanel saíram esse ano eu e o Pedro Sales trocamos várias figurinhas. Tinha alfaiataria e flor em tudo. Demos um jeito de incorporar.

      Vogue: No “Super” você assumiu uma imagem mais expansiva, teve até o loiro e o vermelho. Nesta fase mais recolhida, como está a sua relação com se vestir e se ver na imagem? Quanto desse figurino é você e quanto é personagem?

      Jão: É cem por cento eu. Eu acho que a moda é um jeito de reforçar a identidade de um projeto, mas antes precisa ser genuíno. E eu já estava meio cansado dos figurinos popzões do Super, do cabelo, mesmo antes de sumir. Foi muito natural ir pra essa nova estética. Não exigiu esforço, pelo contrário. Foi um alívio.

      Vogue: Esses looks nasceram para a capa e a campanha. Como você imagina levar essa identidade visual para o palco quando as músicas virarem show?

      Jão: Eu e o Pedro Sales estamos cheio de ideias. O palco tem nuances específicas. É onde meu trabalho mais ganha vida, e a parte mais importante de todas, para mim. Estou obcecado com esse show, porque acho que vai ser muito diferente de tudo que eu já fiz. Cantar palavras tão íntimas, em um ambiente tão grandioso, honrando cada uma delas. Não acho que o figurino tenha que gritar acima da música, mas sem dúvida é um pilar que contará essa história junto.

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