Existe um intervalo curto, no fim da tarde, em que o céu fica rosa. Um rosa que dura o que dura uma respiração mais longa, troca de tom enquanto você olha e some antes que dê tempo de mostrar para alguém. Maria Luiza Jobim aprendeu a esperar por ele primeiro no céu de Lisboa, onde mora, e depois reconheceu o mesmo rosa no pôr do sol do Rio, onde nasceu. Nesse vaivém, guardou a sensação até ela virar canção. Rosa no Céu, seu terceiro álbum solo, disponível nas plataformas de streaming, é o que ficou desse instante depois que ele passou.
“Esse disco tem muito esse quê visual, essa coisa da sinestesia, que faz parte do meu processo de composição”, conta à Vogue. “É esse momento fugaz, na hora do lusco-fusco, que é uma expressão tão carioca, que eu amo. Vem de um sabor de verão, de uma leveza, de um fim de tarde, do sol que aqui em Lisboa fica até quase dez da noite.” A primeira impressão é a de um disco que transporta. Ele tira o ouvinte do próprio universo e levanta outro em volta, feito de tintas antigas que desembocam num pop de feição mais indie. Maria Luiza opera bem nessas misturas, e o resultado é coeso sem ser uniforme. Nada ali soa escancarado.
A geografia do álbum é dupla, e foi nesse trânsito que o conceito se formou. “A cidade de Lisboa e a vivência aqui trouxeram muito do jeito do disco”, diz. “Tem muitos aspectos além de me conectar com a língua, que é a mesma língua, mas não é a mesma língua, e isso me intriga: as palavras têm significados diferentes aqui e lá. Tem a calçada portuguesa, que é a mesma pedra do Rio, e a gente tropeça e escorrega igualzinho.” Ela recusa um rótulo fácil para esse vaivém. “Acho que o disco tem um sabor sem fronteiras. Não gosto muito da palavra internacional, prefiro sem fronteiras, porque me interessa muito essa coisa de ser estrangeira. Já fui estrangeira muitas vezes, e isso coloca a gente num outro lugar de relação consigo.”
A referência que ela busca para explicar o ponto é o psicanalista Contardo Calligaris. “Ele falava uma coisa de que eu gosto muito: a gente se relaciona não pra conhecer o outro, mas pra se conhecer. Quando estou fora da minha casa, eu me conheço mais do que nunca. Percebo o quanto sou latino-americana, o quanto sou brasileira.” É desse lugar, o de quem observa o país de longe, que nasce a tal síncope. “Esse disco tem uma síncope muito brasileira. Tem bossa nova, tem meio que um pagode, tem meio que uma marchinha, mas tem um sabor nas texturas, nas congas, que me parece de um olhar de quem vem de fora, de quem está observando o Brasil, não de quem está dentro.”
Convém situar o disco para além da etiqueta que o sobrenome Jobim e a tradição bossa-novista naturalmente sugerem. Rosa no Céu não é um álbum de bossa nova, é um álbum que tem bossa nova. Ela está lá, viva e bem-resolvida, na clássica Sofá vermelho e na sofisticada Boca a boca, e divide espaço com pop, com um inglês de inflexão indie e com a chanson francesa, sem que nenhuma dessas cores se imponha sobre as outras. É nessa convivência que o álbum ganha personalidade. Boca a boca traz um pop retrô melancólico que, para o meu ouvido, conversa com a escocesa Camera Obscura de Let’s Get Out of This Country. Não é uma referência que ela declare, e vale para essa faixa, não para o disco inteiro, mas as duas se entenderiam, com a cantora assinando a versão mais moderna do papo.
O que segura tudo no mesmo prumo é o método. “Eu me preocupo muito com isso, por isso gosto tanto de disco e não lanço muito single”, explica. “Sei que hoje as pessoas consomem muito single, mas sou antiga nesse aspecto. Gosto dos discos porque eles contam uma história.” A costura não vem da semelhança entre as faixas. “As canções não são necessariamente parecidas, nem do mesmo gênero, mas contam uma história porque têm um arranjo que conversa, uma produção que conversa, certos instrumentos. A gente usa coisas quentes, a conga, às vezes um violão com uma pegada mais espanhola. A gente queria pintar o disco com a cor desse verão, dessa luz, desse sabor.” Foi a sinestesia, de novo, fazendo as vezes de régua. É o terceiro tom de uma sequência que começou em Casa Branca (2019) e passou por Azul (2023).
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Maria Luiza se descreve antes como compositora do que como cantora, e a distinção não é detalhe. “Ser compositora pra mim veio desde muito cedo. Eu fazia música muito novinha, falava pra minha mãe sem saber o que estava fazendo: ‘Mãe, olha isso que eu inventei’.” O ponto sensível ficava do outro lado. “Mais difícil pra mim foi a coisa de ser cantora, porque tem menos compositoras mulheres do que cantoras, principalmente no Brasil, onde você logo é taxada como cantora, a nova cantora da MPB. Eu ficava desconfortável com esse título, porque não me sinto assim. Sempre me senti mais atrás do palco, compondo. Gosto de trilhas, de produção. O cantar veio mais como consequência, não como primeira vocação.”
Cinco das oito faixas trazem a assinatura dela, sozinha ou em parceria, e a principal delas é com Marcelo Camelo, que produz o disco, assina arranjos e toca os instrumentos de base. A devoção é antiga e ela não esconde. “Eu falo que ele é o meu Beatle favorito. Sou da geração Los Hermanos, acompanhei de perto o trabalho solo dele, e muito do que eu faço tem ele dentro.” O encontro veio pela amizade com Mallu Magalhães, esposa de Camelo, e virou método de trabalho. “Quando mostrei as primeiras músicas, ficou uma coisa meio ‘ora, bora’, porque ele também se reencontra ali, se enxerga naquele trabalho, e sabe o que fazer com ele.” Sobre o que cede e o que mantém numa parceria, a resposta dela escapa de qualquer regra. “Pra mim tudo é possível, não tem nada inegociável. O importante é ficar bom. O que eu quero é que soe bem, e isso é inegociável. É a definição de um bom casamento: quando a gente consegue fazer uma coisa bonita junto, cada um do seu jeito.”
A primeira música a chegar foi Go go go, e foi ela que destravou o resto. “Ela chegou numa noite, fiz rapidinho, sozinha. Tinha a cara de Nova York, já veio com uma história, um amor que começou lá. Então tinha que ser em inglês.” A canção, em inglês e de clima praiano, marca a lógica que Maria Luiza usa para decidir a língua de cada faixa. “Não tem exatamente uma coisa que uma língua deixa e a outra não. O inglês tem uma qualidade mais melódica e uma liberdade cultural na hora de escrever. No Brasil a gente tem um rigor muito grande. Imagina o Chico Buarque escrevendo ‘Construção‘. O nosso crivo ficou muito alto. Quando vou escolher, nunca penso ‘essa eu quero em inglês’. É o que a música pede.” Portugal, apesar do nome, é outra que pede inglês: uma canção sobre a chegada de um amor, escrita no vaivém entre o Rio e Nova York.
A única regravação do disco é La javanaise, clássico de Serge Gainsbourg de 1963, em dueto com Chico Chico. “Sou apaixonada por essa música e pelo Gainsbourg. Ela tem total esse perfume do disco, desse verão europeu. É uma música que canto há muito tempo, toco nos meus shows, e há muito tempo queria gravá-la.” A faixa reúne, sem que isso tenha sido combinado, dois herdeiros de nomes centrais da música brasileira: ela, filha de Tom Jobim; ele, filho de Cássia Eller. “A gente nunca conversou sobre isso, eu e o Chico Chico. Chamei ele como artista, sou super fã. Foi uma coincidência mesmo, mas adoraria trocar essa ideia com ele.”
A faixa que dá nome ao álbum não é dela, e a história por trás merece registro. “Rosa no Céu” é composição de Mallu Magalhães e Marcelo Camelo. O título, esse sim, nasceu de uma brincadeira entre Maria Luiza e Mallu, que passaram a mandar uma para a outra fotos de céus cor-de-rosa de vários cantos do mundo. A canção, com cordas de Jaques Morelenbaum, traduz aquela imagem numa letra simples e direta, e fecha o conceito que costura tudo.
Resta o nome. Maria Luiza estreou aos sete anos cantando, no último disco do pai, o samba que levava o seu nome. Levou tempo, e alguns discos, para sair de baixo do que ela chama de árvore frondosa. Ela não disfarça o tamanho do que herdou. Só aprendeu a ocupar o próprio espaço dentro dele. “Ofuscar ele sempre vai, porque é uma estrela muito brilhante. Mas o importante pra mim é encontrar o meu caminho e a minha verdade, fazer coisas bonitas, estar inspirada e passar isso pras pessoas.” O que mudou, diz, não foi o pai. Foi ela. “Hoje eu transito com muito mais tranquilidade pela obra dele, porque eu sei mais quem eu sou.”
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