• O momento de começar a reposição hormonal pode fazer diferença para o coração


      Uma das perguntas que mais aparecem quando se fala em terapia de reposição hormonal na menopausa é se faz bem ou mal ao coração. A resposta, como quase tudo que envolve menopausa, depende de contexto. E um novo estudo publicado na JAMA Internal Medicine traz uma nova e importante informação sobre isso: o momento em que a terapia hormonal é iniciada parece fazer diferença. A pesquisa analisou dados de 2.737 mulheres participantes do Study of Women’s Health Across the Nation (SWAN), acompanhadas por até duas décadas. Todas apresentavam sintomas como ondas de calor e suor noturno, não tinham doença cardiovascular no início da análise e nunca haviam usado terapia hormonal.

      Entre as mulheres que começaram a terapia hormonal durante a perimenopausa ou no período próximo à menopausa, os pesquisadores estimaram uma redução de 22% no risco de eventos cardiovasculares, em comparação com as que não iniciaram o tratamento. Quando consideradas especificamente as mulheres que começaram a terapia até dez anos depois do início da menopausa, a redução estimada chegou a 27%. Para aquelas que iniciaram mais de dez anos depois, não houve uma redução clara do risco.

      É aí que entra uma ideia que ganhou força nos últimos anos na discussão sobre terapia hormonal, a chamada “janela de oportunidade”. “Os resultados são interessantes porque mostram que não podemos olhar para a terapia hormonal de maneira isolada ou considerar que seus efeitos serão iguais para todas as mulheres. A idade, o momento da transição menopausal, os sintomas, os fatores de risco cardiovascular e o histórico clínico precisam fazer parte dessa decisão”, explica a ginecologista Ana Paula Fabricio.

      Os autores da pesquisa ressaltam que os achados não devem ser usados para recomendar terapia hormonal com a finalidade de prevenir doenças cardiovasculares, uma vez que dizer que mulheres que iniciaram o tratamento apresentaram menor risco cardiovascular não é o mesmo que dizer que a terapia hormonal reduziu diretamente esse risco. Esse cuidado também ajuda a colocar o estudo no lugar certo dentro de uma discussão que já mudou bastante nos últimos anos. A ideia de que terapia hormonal é simplesmente “boa” ou “ruim” para a saúde não dá conta da complexidade do tratamento. A idade em que a mulher está, o tempo desde a menopausa, o tipo de terapia, a presença ou não de útero, os sintomas e o histórico individual precisam entrar nessa equação.

      “A indicação continua sendo individualizada, principalmente para tratamento dos sintomas da menopausa, levando em consideração idade, tempo desde a menopausa, intensidade dos sintomas, histórico pessoal e familiar e fatores de risco”, diz a ginecologista. Para mulheres que estão passando pela transição menopausal e se perguntando se a terapia hormonal pode fazer sentido, a novidade não está em uma autorização para começar o tratamento. Está em uma informação que pode tornar a conversa com o médico mais precisa: quando se fala em terapia hormonal, o timing também faz diferença.

      A menopausa e o coração

      A queda dos níveis de estrogênio vem acompanhada, em algumas mulheres, de mudanças na composição corporal, colesterol, pressão arterial e metabolismo. Mas isso não quer dizer que a menopausa, sozinha, cause doença cardíaca, e sim que esse é um período importante para olhar para a saúde de maneira mais ampla.

      “A menopausa não deve ser encarada apenas como uma fase marcada por ondas de calor ou alterações menstruais. É também uma fase importante para avaliar pressão arterial, colesterol, glicemia, composição corporal, atividade física, alimentação, tabagismo e histórico familiar, porque todos esses fatores interferem no risco cardiovascular”, afirma Ana Paula.

      No Brasil, as doenças cardiovasculares continuam entre as principais causas de morte, o que torna essa atenção ainda mais relevante. E a própria transição menopausal pode ser um bom momento para rever hábitos, exames e fatores de risco que muitas vezes acabam ficando em segundo plano no cotidiano.



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