O Segredo de Widow’s Bay – criada por Katie Dippold (roteirista de Parks and Recreation) e dirigida por Hiro Murai (que trabalhou em Atlanta e O Urso) – é um enorme sucesso, mas também tem sido uma série de impacto gradual, o que parece ser um tema recorrente nas produções da Apple. A série estreou em abril e, a cada episódio, um efeito dominó a levou ao topo da lista das mais assistidas do streaming, garantindo com folga uma segunda temporada. Isso se deve, em parte, ao magnífico Rhys, cuja atuação como o “confuso prefeito de uma ilha assombrada” é tão cativante que se torna impossível imaginar outra pessoa no papel. Mas também, a meu ver, porque a série consegue aterrorizar e, ao mesmo tempo, soar como uma daquelas que se assiste para relaxar. Já existiu alguma série que faz você gritar e gargalhar ao mesmo tempo?
De fato, imagine Gilmore Girls cruzado com O Iluminado e você chega perto. São dramas de cidade pequena, dinâmicas de amizade complicadas e uma adolescente rebelde, tudo costurado com cuidado nas situações mais alucinadas que se pode imaginar, envolvendo xamãs e viagens alucinógenas de cogumelo. Num minuto você está curtindo o primeiro encontro nervoso de Tom com uma mulher que está na cidade para uma despedida de solteira, no outro está em pânico estilo A Bruxa de Blair diante da ameaça de um ghoul à porta. No segundo episódio, há até uma perseguição de palhaço, possivelmente a aparição de palhaço mais aterrorizante deste século (desculpa aí, Bill Skarsgård).
Se a mistura inédita de drama gótico e cômico atrai os espectadores, é o elenco que os mantém grudados na tela. É bem provável que você vá pesquisar no Google onde já viu aqueles atores, porque são veteranos de séries como The Walking Dead, True Blood e Glow. Kate O’Flynn, a atriz britânica que interpreta Patricia, a assistente neurótica de Tom, desponta como um destaque absoluto. Menção especial também para Kevin Carroll, que vive Bechir Clemmons, o policial sofrido que tem muito trabalho pela frente (com tantos ataques de ghouls e desaparecimentos), e Jeff Hiller, que faz Dale, funcionário da prefeitura. Quem assistiu a Somebody Somewhere, a premiada comédia de Bridget Everett na HBO, vai reconhecer o conforto particular do talento de Hiller em cena.
Em meio a um mar de remakes, reboots e Love Island: Unseen Bits, o estrondoso sucesso de Widow’s Bay talvez não seja surpresa. Estávamos clamando por um drama original capaz de nos lançar, de supetão, em território desconhecido, e O Segredo de Widow’s Bay faz exatamente isso. Tem cara de um reset cultural muito necessário. Que venha logo a segunda temporada.
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