Devemos ao produtor Stuart Price muitos clássicos do pop contemporâneo, a começar pelo álbum inteiro de Confessions on a Dance Floor, disco cult de Madonna lançado em 2005. Uma obra tão poderosa que permitiu ao produtor se tornar um dos homens mais requisitados da indústria musical, chamado cerca de quinze anos depois por uma nova geração de popstars em busca de sua própria reinvenção disco, como Dua Lipa com seu álbum Future Nostalgia. A própria Madonna nunca esqueceu Stuart Price de verdade.
Depois de encerrar sua turnê mundial Celebration, apresentada como um mergulho no centro da vida da artista, passando por seus sucessos e também por seus fracassos (como ter sido barrada na entrada de uma balada em Nova York antes de sua estreia na música), a popstar começa a pensar em seu próximo álbum. Ela convoca vários produtores, mas a química não acontece. Surge então a ideia de chamar de volta o inglês Stuart Price, e de gravar o álbum em Londres, onde ele mora. Assim nasce Confessions II.
20 anos. Essa é a distância entre Confessions on a Dance Floor e Confessions II, o novo disco de Madonna. “Ela pensou esse novo álbum como a continuidade dessa era musical… mesmo que ela nunca tenha me dito isso!”, sorri Stuart Price durante uma sessão de escuta comentada do disco organizada em Paris, poucos dias antes do lançamento. “A ideia era ir na contramão do que se faz hoje, em que se escolhem faixas avulsas dentro de playlists prontas. Nós queríamos criar uma obra de arte total, que se ouvisse do início ao fim, sem interrupção”, continua o produtor. De fato, todas as transições do álbum escoam de uma faixa para outra, como uma espécie de set de DJ de pouco mais de uma hora. A ideia não é nova: RENAISSANCE, o disco de Beyoncé que homenageava a história das músicas eletrônicas, foi pensado da mesma forma em 2022.
Pontuado por momentos orquestrais e pela narração da própria Madonna, com a voz robotizada pelo vocoder, Confessions II faz jus ao seu nome. A artista se revela ali ao mesmo tempo em que multiplica os convites à dança: “Um dia, ela chegou ao estúdio com três páginas de texto, ligamos os microfones e ela recitou tudo de uma vez”, relembra Stuart Price. É o caso, por exemplo, da faixa “Danceteria“, em que a cantora convida o público a “se levantar e dançar” enquanto narra seus primeiros passos na música em Nova York, na boate que dá nome à canção.
De fato, depois de gravar seu primeiríssimo single “Everybody” em 1982, Madonna consegue cantá-lo no palco do Danceteria, templo do cool nova-iorquino dos anos 1980 (para se ter uma ideia, Sade foi garçonete lá e também deu seu primeiro show ali, no mesmo ano). Mais de quarenta anos depois, a artista revisita episódios como esse, que a transformaram na artista que é hoje, ao mesmo tempo em que se cerca de um elenco de “novos” talentos, de Sabrina Carpenter a Martin Garrix, passando pelo belga Stromae. “Diferente de Confessions on a Dance Floor, que se apoiava na cultura do sample, quisemos criar um disco que olhasse para o futuro, por meio de colaborações com uma nova geração de artistas”, explica Stuart Price. Daí resultam faixas como Bizarre, com uma identidade claramente influenciada pelos grandes sucessos de um Martin Garrix, em meados dos anos 2010.








