• Por que a espironolactona virou a nova obsessão do TikTok para tratar a acne?


      Se você passou mais de alguns minutos no TikTok nos últimos meses, provavelmente se deparou com vídeos de antes e depois impressionantes, rotinas minimalistas e um nome recorrente: espironolactona. Apresentada como uma espécie de “pílula milagrosa” para acne hormonal, a substância ganhou status de queridinha entre mulheres adultas. No entanto, apesar do hype recente, ela está longe de ser uma novidade na dermatologia.

      “A espironolactona é um medicamento antigo, da década de 1960”, explica a dermatologista Lilia Guadanhim em entrevista à Vogue Brasil. “Inicialmente, era usada para tratamento de pressão alta. E, como em muitos casos na medicina, observou-se que esse remédio também tinha outros efeitos e que poderia ser usado para a acne. Portanto, estamos falando de um tratamento consagrado e usado já há muitos anos”.

      Segundo a especialista, seu sucesso está diretamente ligado à sua ação hormonal. “Ela funciona como um bloqueador do receptor de hormônios masculinos”, esclarece a médica. Na prática, isso significa reduzir a influência dos andrógenos, como a testosterona, sobre a pele, diminuindo a produção de oleosidade e, consequentemente, a formação da acne.

      De acordo com o dermatologista Guilherme Muzy, o medicamento tem ganhado espaço como alternativa aos antibióticos. “Ele não é inferior e tem uma vantagem importante: pode ser usado por longos períodos, coisa que o antibiótico não permite, já que seu uso prolongado contribui para a resistência bacteriana”, diz. Ainda assim, ele faz um contraponto importante: “Ela não é mais eficaz do que a isotretinoína [popularmente conhecida como roacutan], que continua sendo a medicação mais eficiente para o tratamento da acne”.

      Apesar da popularização, a espironolactona não é para todo mundo. Seu principal uso é em casos de acne da mulher adulta, especialmente quando há condições associadas, como síndrome dos ovários policísticos ou irregularidade menstrual. E se, por um lado, a viralização ajuda a colocar o tema em pauta, por outro, levanta um alerta importante. “Sem dúvida, esse tipo de exposição pode trazer risco”, afirma Lilia. “O problema é que estamos falando de um medicamento que não exige receita”. Ou seja, o acesso facilitado pode incentivar o uso sem orientação médica. E os riscos não são poucos. A espironolactona é contraindicada para gestantes e deve ser usada com cautela em mulheres com possibilidade de engravidar, já que pode ter efeito teratogênico.

      Guilherme é direto e critica a superficialidade dos conteúdos virais: “Medicamento é com o médico, porque é necessário ajustar dose, avaliar a resposta do organismo, combinar com outros tratamentos… Quando um criador de conteúdo faz um vídeo, raramente vai falar das contraindicações ou dos efeitos colaterais, porque ele nem sabe. E é aí que mora o problema”.

      Beleza Pele Skincare Acne — Foto: Vogue Brasil/ Karla Brights
      Beleza Pele Skincare Acne — Foto: Vogue Brasil/ Karla Brights

      Afinal, quais podem ser os efeitos colaterais da espironolactona?

      De forma geral, o medicamento é considerado seguro, especialmente por já ser amplamente estudado há décadas. Ainda assim, efeitos colaterais existem. “É um diurético, então o paciente vai mais vezes ao banheiro”, explica Lilia. Entre os sintomas mais comuns estão também tontura e dor de cabeça. “Algumas pacientes podem ter sensibilidade nas mamas ou sofrer com alterações no ciclo menstrual”, acrescenta Guilherme. Há ainda uma questão metabólica importante: “Ele pode alterar os níveis de potássio, causando o que a gente chama de hipercalemia”, diz a médica.

      Outro ponto que raramente aparece nos vídeos é o tempo necessário para ver resultados. “Ele tem um pico de ação em três meses”, afirma Lilia. Ou seja: não é uma solução imediata, apesar da promessa de transformação rápida que domina as redes. O risco, segundo a especialista, é a frustração e o atraso no tratamento correto. “Muitas vezes, os pacientes chegam dizendo que já tentaram de tudo, mas não usaram dose adequada, nem pelo tempo necessário”.

      No fim das contas, o hype da espironolactona representa bem a relação atual entre beleza, informação e redes sociais: um tratamento eficaz, respaldado pela ciência, mas que ganha contornos distorcidos quando viraliza.

      “Tudo que faz o paciente procurar tratamento mais cedo é positivo”, avalia Lilia. “O lado ruim é quando isso leva à automedicação”. Guilherme vai na mesma linha e faz um alerta sobre o impacto da desinformação: “Por conta de um vídeo para ganhar like, você pode deixar uma pessoa receosa de fazer um tratamento que seria muito bom para ela”.

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