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‘Porque a Bienal de Veneza importa’


A Vogue me convidou para colaborar como frequentadora do circuito de arte nacional e internacional. Aceitei com alegria e com a consciência de que, depois de quase 30 anos nesse meio, seja como colecionadora seja como fundadora e diretora-executiva da SP-Arte desde 2005, tenho mais perguntas do que respostas. Mas tenho também algumas convicções. Este é meu primeiro texto. E ele começa em Veneza.

Quando meu marido Heitor Martins assumiu a presidência da Fundação Bienal de São Paulo em 2009, fizemos um pacto: a partir daquele ano, iríamos a todas as edições da Bienal de Veneza que pudéssemos. Até hoje não perdemos nenhuma, já foram 9. Não é turismo. É compromisso.

A cada dois anos, milhares de pessoas atravessam oceanos, acumulam voos e jetlag e enfrentam fila nos vaporettos para renovar este mesmo compromisso. Para ver arte. Para conversar sobre arte. Para discordar sobre arte. Existe alguma outra prática cultural no mundo contemporâneo que produza um ritual de peregrinação dessa escala, com essa regularidade, há 131 anos? Não conheço nenhuma.

Harry’s Bar, em Veneza — Foto: Divulgação
Harry’s Bar, em Veneza — Foto: Divulgação

Veneza em maio também é isso: uma cidade inteiramente tomada pela arte e pela vida que orbita em torno dela. Os palazzos abrem suas portas para exposições paralelas — que às vezes superam o programa oficial. O circuito se expande pelos canais, pelas igrejas, pelos jardins. Há sempre um “on” e um “off circuit”, e navegar entre os dois é parte do prazer. Os restaurantes de sempre, que guardam nossa mesa como se nunca tivéssemos saído, e os novos que descobrimos a cada edição. E os bellinis no Harry’s Bar ou em qualquer terraço com vista para a água. Essa camada da Bienal, a que não aparece nos catálogos, é tão parte da peregrinação quanto qualquer obra exposta nos Giardini.

A 61ª edição, que visitei recentemente, foi a mais turbulenta em muitos anos. O júri renunciou. Pavilhões fecharam em protesto. A curadora camaronesa-suíço Koyo Kouoh morreu antes de ver a exposição abrir, e sua visão foi executada postumamente por uma equipe de quatro continentes. A Rússia voltou, com flores visíveis pelas janelas de um pavilhão que optou por não abrir as portas. Israel sob boicote não oficial. Um prêmio decidido pelo público porque a instituição não soube — ou não quis — decidir por si mesma.

Ouvi muita gente usar palavras como: caos, crise, fracasso. Discordo. O que esta edição revelou, de forma mais clara do que qualquer outra que eu me lembre, é a contradição estrutural que sempre esteve no coração da Bienal: o modelo dos pavilhões nacionais foi concebido na lógica das Exposições Universais do século 19 — a ideia de que a cultura é o território neutro onde as nações se encontram civilizadamente, independentemente do que façam fora dele. Sempre foi uma ficção. Em 2026, essa ficção simplesmente não aguentou mais o peso do mundo real.

E isso, para mim, é um sinal de saúde — não de colapso. Uma Bienal que não gera atrito provavelmente não está dialogando de verdade. O atrito desta edição foi real, às vezes doloroso, e não tinha solução fácil. O júri liderado por Solange Farkas fez a escolha mais honesta disponível ao recusar-se a julgar sob condições que considerava inaceitáveis. Não foi um gesto confortável. Foi um gesto de integridade — e integridade raramente é confortável.

Vista da exposição “Comigo ninguém pode”, de Adriana Varejão e Rosana Paulino, no Pavilhão do Brasil na 61ª Bienal de Veneza, com curadoria de Diane Lima — Foto: Getty Images

O Brasil, por sua vez, chegou com uma resposta diferente às mesmas perguntas que o mundo da arte debatia. “Comigo ninguém pode”, título tirado do nome de uma planta comum nas entradas das casas brasileiras, símbolo de proteção espiritual, reuniu Adriana Varejão e Rosana Paulino num diálogo que não tentou resolver as feridas coloniais, mas as habitou. A curadoria de Diane Lima propôs exatamente o que a palavra diz: proteção, toxicidade, resiliência. Não por acaso, essa é uma estratégia muito brasileira — processar o trauma por meio do fantástico, da fé, do que não se explica apenas pela razão.

Há algo de involuntariamente perfeito em fazer isso em Veneza. A cidade está afundando. Literalmente, milímetro a milímetro, pressionada pelas mudanças climáticas e pelo turismo de massa que ela mesma alimenta. Cada edição da Bienal acontece num palco que pode não existir daqui a um século na forma que conhecemos hoje. E ainda assim voltamos. Como se a fragilidade do lugar fosse parte do ritual — como se precisássemos fazer essa conversa exatamente aqui, exatamente porque aqui também é passageiro.

Peregrinos não viajam porque o santuário é perfeito. Viajam porque o gesto de chegar, de estar e de se encontrar importa mais do que qualquer resposta que encontrem lá. Nesta edição, artistas de países em guerra dividiram o mesmo corredor no Arsenale. Uma curadora morta teve sua visão honrada por desconhecidos. O Brasil plantou na entrada do pavilhão uma flor que protege.

A Bienal de 2026 não foi fácil. Mas renovou, mais uma vez, os votos de poder vislumbrar um mundo melhor. E para mim, depois de dezessete anos e nove Bienais, isso ainda é o suficiente. Por isso Veneza continua tão relevante mesmo num mundo hiper digital. Porque ela produz presença física. Peregrinação. Encontro. Fricção humana. Quase como um ritual secular global.

Em 2028, estarei lá novamente.



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