• Rainha das Matas: o festival transcentrado que une arte, natureza e cultura na Amazônia




      Em 2021, a artesã e multiartista Ágatha Felina estava no meio da mata. A tarde transcorria como tantas outras na comunidade do Pedral, no arquipélago do Marajó. Um grupo de amigos LGBTQIAPN+ passava o dia colhendo bacuri quando Ágatha começou a observar a paisagem ao redor. As árvores pareciam ornadas. Algumas carregavam flores como se usassem joias. Acostumada a trabalhar com sementes e fibras vegetais, começou a prender folhas ao próprio corpo. Logo os amigos fizeram o mesmo. Uma apareceu usando galhos secos como adorno, outra surgiu com pedaços de chifre de búfalo encontrados pelo caminho. Quando todos voltaram para se apresentar, Ágatha teve uma ideia: escolher a Rainha das Matas.
      “Vi que existia potencial de trazer mais gente para brincar. Tive a ideia na sexta-feira; quando foi domingo, voltamos para a comunidade do Pedral. Era uma caixinha de som carregada, uma garrafa de vodka, açúcar e um sonho”, relembra. A brincadeira não terminou ali. O público apareceu e mais participantes se juntaram ao grupo. Cinco anos depois, aquela tarde no Pedral é lembrada como a origem de um dos festivais mais singulares da Amazônia brasileira.
      “É uma festa das meninas, das trans, travestis, das bichas. É importante reforçar que esse é um coletivo transcentrado”, pontua Ágatha.
      Realizado anualmente em Soure, o Rainha das Matas reúne candidatas que criam indumentárias feitas exclusivamente com materiais orgânicos e apresentam performances inspiradas nos saberes, nas comunidades e nos ecossistemas amazônicos. Ao longo dos anos, o festival se tornou uma importante plataforma de visibilidade para artistas trans, travestis e outras dissidências de gênero do Marajó, ao mesmo tempo em que fortaleceu debates sobre preservação ambiental.
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      Bárbara Vale
      A história do evento, porém, é maior do que o próprio festival. Muito antes da primeira edição, a comunidade LGBTQIAPN+ de Soure já construía seus próprios espaços de encontro. Corridas, atividades esportivas, festas e ações culturais organizadas pela própria população local ajudaram a consolidar uma rede de convivência que permanece ativa até hoje. O Rainha das Matas surge desse contexto. “Era um povo que ficava atrás das cortinas. Muitas meninas não conseguiram estudar por causa da discriminação, muitas vivem da informalidade até hoje. O festival ajudou a trazer valorização para essas pessoas”, afirma Ágatha.
      A experiência de viver fora do Pará também influenciou a criação do projeto. Durante um período em Santa Catarina, Ágatha passou a refletir sobre a relação entre desenvolvimento, meio ambiente e comunidade. Quando retornou ao Marajó, voltou ainda mais atenta ao território onde cresceu. Como artesã, seu trabalho sempre esteve ligado àquilo que a natureza oferece. Sementes, fibras e materiais encontrados na floresta fazem parte do seu processo criativo. Essa relação acabou se tornando um dos pilares do Rainha das Matas. Desde a primeira edição, existe uma regra central: as candidatas só podem utilizar materiais orgânicos na construção de suas apresentações.
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      Dentro do festival, essas criações são chamadas de “esplendores” – e são muito mais que figurinos. Cada participante desenvolve uma narrativa própria e a traduz em estruturas produzidas com folhas, sementes, flores, fibras, galhos e outros elementos encontrados no território. O trabalho pode levar semanas e exige pesquisa, habilidade manual e conhecimento sobre os materiais utilizados.
      Na edição de 2026, dedicada aos saberes das populações ribeirinhas, uma das apresentações que mais chamaram atenção foi a de Adra Sabi, inspirada no Boi da Cara Preta. Os grafismos marajoaras que cobriam seu corpo pareciam pintura à distância. De perto, revelavam centenas de sementes de urucum aplicadas manualmente.
      “Quem olhava achava que era pintura. Quando chegava perto percebia que era tudo feito de sementes”, lembra Ágatha.
      Rainha das Matas
      Bárbara Vale
      A sofisticação dos esplendores ajudou a projetar o festival para além do Pará. Nos últimos anos, imagens das candidatas circularam amplamente pelas redes sociais, despertando o interesse de pessoas que nunca tinham ouvido falar do evento. Foi por esse caminho que a artista visual Rafaela Kennedy se aproximou do projeto.
      Natural de Manaus e radicada em São Paulo há mais de uma década, Rafaela está à frente da associação Transmoras e desenvolve pesquisas sobre travestilidade, meio ambiente e práticas coletivas de criação. Seu primeiro contato com o Rainha das Matas aconteceu em 2024, durante um projeto voltado à moda produzida no território paraense. “Quando começamos a pensar moda a partir do Pará, ficou impossível ignorar o Rainha das Matas. Ali existia uma produção estética muito potente, construída por pessoas dissidentes, profundamente ligada ao território e à preservação ambiental”, conta.
      A parceria se aprofundou rapidamente. Em 2026, diante das dificuldades enfrentadas pela organização, Kennedy assumiu a direção executiva da edição daquele ano e passou a atuar diretamente ao lado de Ágatha. O momento era delicado. Apesar da crescente visibilidade, o festival continuava operando com poucos recursos e dependia do esforço coletivo de voluntários e apoiadores locais para acontecer. Uma das principais mudanças implementadas em 2026 foi a formação de uma equipe composta majoritariamente por pessoas trans. “A gente precisava garantir que esse protagonismo também existisse nos bastidores. Não apenas no palco”, explica.
      Fotógrafos, comunicadores, produtores, educadores e artistas trans passaram a integrar a organização do evento. Toda essa estrutura ajuda a ampliar o impacto do festival para além da noite da premiação.
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      “O concurso dura uma noite. O que nos interessa é pensar o que acontece depois. Como essas pessoas continuam criando, trabalhando e desenvolvendo suas trajetórias”, reflete Rafaela. Essa preocupação aparece constantemente nas falas das organizadoras. Embora o Rainha das Matas seja conhecido pelas apresentações e pelos esplendores, existe um esforço crescente para transformá-lo em uma plataforma permanente de formação e desenvolvimento artístico. A ideia passa pela criação de oficinas, intercâmbios culturais e oportunidades de profissionalização voltadas principalmente para pessoas trans e travestis da região. “Quando o festival acontece, ele eleva a autoestima das pessoas. Elas passam a acreditar que são capazes de ocupar outros espaços também”, diz Ágatha.
      O impacto já pode ser percebido em diferentes frentes. Além de movimentar artistas e trabalhadores da cultura, o evento impulsiona a economia local. Hotéis, pousadas, restaurantes, mototaxistas, vendedores ambulantes e pequenos comerciantes são beneficiados pelo aumento da circulação de visitantes em Soure durante o período do festival. A edição de 2025 reuniu cerca de cinco mil pessoas, um número difícil de imaginar para quem acompanhou aquela primeira reunião improvisada na comunidade do Pedral. Hoje, o Rainha das Matas já faz parte do calendário cultural do Marajó. A organização estabeleceu que as próximas edições acontecerão sempre no segundo domingo de abril.
      A de 2027 já tem data e tema definidos. Marcado para o dia 11 de abril, o festival terá como tema” Encantos Quilombolas: Guardiãs da Floresta e da Liberdade”. A proposta dá continuidade à pesquisa desenvolvida pelo evento sobre as populações tradicionais da Amazônia. Depois dos manguezais e dos saberes ribeirinhos, a próxima edição voltará seu olhar para os territórios quilombolas e suas histórias de resistência.
      Enquanto planejam o futuro, Ágatha e Rafaela compartilham um sonho comum: criar uma sede permanente para o projeto. A ideia é construir um espaço capaz de receber oficinas, residências artísticas, encontros comunitários e processos criativos ao longo de todo o ano. Um lugar onde seja possível produzir esplendores, trocar conhecimentos e fortalecer a rede formada em torno do festival. “Eu imagino uma grande casa onde as meninas possam criar juntas, aprender umas com as outras e receber pessoas de outros lugares para trocar experiências”, diz Ágatha. A ambição é proporcional ao caminho percorrido até aqui. Depois de criar um palco para essas histórias, talvez o próximo passo seja garantir um lugar permanente para que elas continuem sendo contadas.
      Rainha das Matas
      Bárbara Vale



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