“Sentia que precisava estar triste”


    O príncipe Harry revelou que, durante muito tempo, sentiu culpa por conseguir experimentar momentos de felicidade após a morte de sua mãe, a princesa Diana. O duque de Sussex, de 42 anos, compartilhou detalhes sobre o processo de luto em uma nova MasterClass, na qual revisitou sentimentos que carregou desde a infância, quando perdeu a mãe aos 12 anos.

    Diana morreu em agosto de 1997, em um acidente de carro em Paris. Segundo Harry, a perda desencadeou um período marcado por “entorpecimento e bloqueio emocional”, estado que o ajudava a manter o foco nas tarefas do dia a dia e a entrar em uma espécie de “estado de adrenalina”. Ele chegou a enxergar essa capacidade como um “superpoder”, que também contribuiu para seu desempenho durante a passagem pelo Exército.

    Com o tempo, porém, o príncipe percebeu que essa reação funcionava como uma forma de escapar do sofrimento, impedindo-o de enfrentar verdadeiramente a ausência da mãe.

    A princesa Diana anda em um toboágua com seus filhos, o príncipe William e o príncipe Harry, em 1993 — Foto: Getty Images/ Reprodução
    A princesa Diana anda em um toboágua com seus filhos, o príncipe William e o príncipe Harry, em 1993 — Foto: Getty Images/ Reprodução

    Harry temia perder a conexão com a mãe ao superar o luto

    Durante a MasterClass, o duque explicou que, ao começar a compreender a origem daquele mecanismo emocional, passou a temer que a recuperação pudesse afastá-lo de Diana. Para ele, deixar a dor para trás significaria correr o risco de perder uma ligação importante com a mãe.

    “Quando percebi de onde vinha o superpoder e a conexão com ele, meu medo era: se eu me curar, se eu procurar a solução, será que eu o perderei? Será que perderei o superpoder? Isso significa que perderei a conexão com a minha mãe?”, explicou ele na MasterClass.

    Harry também contou que associava a tristeza à demonstração de amor e saudade. Por isso, permitir-se viver momentos felizes provocava sentimentos de culpa, como se estivesse sendo desleal à memória da princesa.

    “Passei muito tempo emocionalmente anestesiado, em grande parte porque me sentia desleal e culpado pela possibilidade de ser feliz e alegre sem ela”, continuou o Príncipe Harry. “Sentia que precisava estar triste e emocionalmente anestesiado para provar a ela que sentia sua falta.”

    A mudança aconteceu quando ele começou a considerar que Diana gostaria de vê-lo feliz. Essa compreensão, segundo o príncipe, transformou a maneira como passou a enxergar a própria vida e o processo de recuperação emocional.

    “Isso me libertou e me deu uma perspectiva de vida completamente diferente”, disse ele. “A chave de tudo é conhecer a si mesmo e saber como seu sistema nervoso e todo o seu corpo reagem a certas situações. Então, agora, consigo reconhecer quando tenho uma descarga de adrenalina e também sei o que não exige adrenalina.”

    Exercícios de respiração ajudam o príncipe a lidar com as emoções

    Harry também abordou as estratégias que utiliza para se acalmar quando percebe que está sob pressão. Entre elas, estão os exercícios de respiração, que o ajudam a reconhecer as reações físicas associadas à ansiedade e a recuperar o equilíbrio.

    “Ainda estou trabalhando nisso, certamente porque muitas vezes a respiração superficial, a sensação de aperto no peito, todas essas coisas ainda me incomodam bastante”, disse Harry. “E acho que, novamente, meu sistema nervoso é facilmente afetado por ter vivido 15, 16, 20 anos em um estado de hipervigilância e reatividade. Mas se eu conseguir encontrar tempo e lugar para simplesmente respirar e me reconectar, isso, para mim, faz toda a diferença.”

    O duque de Sussex explicou que compreender os próprios limites e identificar as respostas do corpo tem sido parte importante de sua jornada. A capacidade de reconhecer quando está em estado de alerta permite que ele encontre maneiras de interromper esse ciclo e se reconectar consigo mesmo.

    Príncipe Harry e Princesa Diana na Espanha em 10 de agosto de 1987 — Foto: GettyImages
    Príncipe Harry e Princesa Diana na Espanha em 10 de agosto de 1987 — Foto: GettyImages

    Harry relembra o dia do funeral de Diana

    Durante a aula, o príncipe também voltou a um dos momentos mais dolorosos de sua infância: o funeral da mãe. Ele contou que conseguiu chorar quando estava longe das câmeras e da atenção pública, cercado apenas por familiares.

    “Finalmente, chegou o dia do enterro e, cercado apenas pela família, longe dos olhares de choro, das câmeras e, suponho, das expectativas, julgamentos e olhares indiscretos do mundo, eu desabei a ponto de chorar”, disse ele. “E me lembro de pensar ou sentir que, na verdade, foi muito bom chorar.”

    Além da dificuldade de expressar a tristeza, Harry revelou que demorou a aceitar a morte de Diana. Durante anos, alimentou a esperança de que a mãe não tivesse partido definitivamente e de que, em algum momento, reapareceria para levá-lo e ao irmão, o príncipe William, para longe das dificuldades que enfrentava.

    “E então, anos depois, eu estava procurando provas por causa do enterro; eu não queria acreditar. Eu não acreditava que ela tinha ido embora. Eu acreditava que ela voltaria em algum momento. Eu acreditava que ela tinha criado essa saída para escapar de todas as coisas que estavam destruindo sua vida e que ela voltaria à ativa disfarçada e então nos levaria, a mim e ao meu irmão, para longe.”

    O funeral de Diana, Princesa de Gales, foi realizado na Abadia de Westminster em 6 de setembro de 1997 — Foto: GettyImages
    O funeral de Diana, Princesa de Gales, foi realizado na Abadia de Westminster em 6 de setembro de 1997 — Foto: GettyImages

    Segundo Harry, essa expectativa permaneceu por aproximadamente dez anos. Ele explicou que o bloqueio emocional também teve consequências sobre as lembranças que guardava da mãe, incluindo aspectos de sua voz e de sua personalidade.

    “Essa crença protetora durou uma década”, continuou o Duque de Sussex. “O mecanismo de defesa da mente e do corpo era bloquear as emoções e bloquear as memórias. Não apenas as memórias ruins, mas também as boas. Eu me esqueci de como era a voz da minha mãe. Eu me esqueci da risada dela. Eu não conseguia visualizar como ela era sem olhar para uma fotografia dela.”

    O funeral de Diana, Princesa de Gales, foi realizado na Abadia de Westminster em 6 de setembro de 1997 — Foto: GettyImages
    O funeral de Diana, Princesa de Gales, foi realizado na Abadia de Westminster em 6 de setembro de 1997 — Foto: GettyImages

    Família e trabalho filantrópico são fontes de felicidade

    Atualmente, Harry afirma encontrar alegria tanto nas atividades filantrópicas quanto na convivência com a família. O príncipe é casado com Meghan Markle, com quem tem dois filhos: Archie, de 7 anos, e Lilibet, de 5.

    Apesar de valorizar as duas áreas, ele explicou que manter o equilíbrio entre os compromissos profissionais e a vida familiar exige atenção. Uma das estratégias que adota é evitar passar períodos muito longos longe da esposa e das crianças.

    “O fator mais importante para mim é a energia, a alegria e a felicidade que sinto ao estar com minha família, especialmente com meus filhos, e a alegria e a felicidade que sinto ao estar em campo a trabalho”, explicou. “E a chave para encontrar esse equilíbrio entre alegria e felicidade é não ficar mais de 10 dias longe da minha esposa e dos meus filhos. Trata-se de equilibrar meu trabalho e o propósito por trás dele, bem como ser pai e marido, e todos esses elementos de múltiplas identidades se unindo.”

    Príncipe Harry, Príncipe Archie, Princesa Lilibet e Meghan Markle — Foto: Reprodução/Instagram
    Príncipe Harry, Príncipe Archie, Princesa Lilibet e Meghan Markle — Foto: Reprodução/Instagram

    MasterClass terá renda destinada a instituições de apoio ao luto

    De acordo com informações apuradas pela revista PEOPLE, a MasterClass procurou Harry no ano passado para desenvolver um curso dedicado ao luto. As gravações foram realizadas na Califórnia, no início do verão do hemisfério norte.

    O lançamento está previsto para acontecer pouco antes do Dia Mundial da Saúde Mental, celebrado em 10 de outubro. A renda obtida com o projeto será destinada a duas organizações que oferecem apoio a pessoas enlutadas: o Comfort Zone Camp e o Scotty’s Little Soldiers, instituição que conta com o apoio de longa data do príncipe.

    A princesa Diana segura o príncipe Harry no dia de seu batizado, 21 de dezembro de 1984 — Foto: PA Images via Getty
    A princesa Diana segura o príncipe Harry no dia de seu batizado, 21 de dezembro de 1984 — Foto: PA Images via Getty



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