Em Belo Horizonte, quem quer entender Bruna Martins não precisa perguntar quem ela é. Basta sentar à mesa em qualquer um dos seus restaurantes. Cada casa fala uma língua diferente da mesma pessoa: uma fala mineirês fechado, outra fala espanhol com sotaque de Minas, uma terceira já não existe mais, e a quarta ainda está aprendendo a falar. A raiz é musical, não culinária. A chef estudou saxofone erudito na UFMG, curso concorridíssimo, antes de migrar para o noturno de Música Popular.
Foi ali, discutindo por que os músicos da capital mineira não tinham onde tocar à noite, que a ideia de um restaurante começou a ganhar forma, junto dos sanduíches que ela já vendia na própria escola pra pagar as contas. Aos 22 anos, alugou uma casa velha em Santa Tereza, bairro que viu nascer o Clube da Esquina, por 700 reais por mês. Comprou piano, comprou fogão, e virou cozinheira sozinha ali dentro. “Meu sonho era menor do que o potencial do espaço”, ela diz sobre aqueles primeiros meses.
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Esse restaurante, o Birosca, hoje já não mora mais em Santa Tereza. Depois de doze anos no endereço original, mudou para Lourdes em janeiro e virou Birosca Restaurante & Deli, com horário estendido e produção própria de picles e fermentados. É o lado mais mineiro, mais caseiro, mais afetivo de Bruna. Na cozinha maximalista que ela mesma descreve, os temperos vêm sempre acentuados, sem meio-termo, o mesmo instinto que produz a galinhada mentirosa: coração, galinha caipira, risoni e gema, um prato que gruda na memória de quem prova. O salão tem clima de bistrô e uma coleção de objetos que foram garimpados ao longo das peregrinações da chef e que, de alguma forma, se conversam em suas diferenças. A casa entrou nas duas últimas edições do 50 Best Discovery, 2024 e 2025 — e um dos motivos pode ser o almoço na área externa, com o sol se movendo pela mesa aos poucos, no meio do verde do bairro, perfeito pra perder a hora conversando com amigos ou divagando nos próprios pensamentos.
Mas, se o Birosca é a língua materna da Bruna, o Gata Gorda é um idioma que ela foi aprender já adulta. A casa nasceu de uma viagem dela ao Gastronómika, em San Sebastián, e virou o que ela chama de ‘bodega moderna’ — e um cruzamento de brasilidade com influências ibéricas, “e com pitadas do mundo também”. Você entra e sente isso na hora, painéis de azulejo português, garimpados por Bruna fora de Minas, dividem espaço com parede em tijolo aparente e tom terracota, pimentas secas penduradas nas luminárias, e, lá pelo fundo, um salão que rompe com tudo isso, cheio de telas contemporâneas e coloridas na parede. Um mosaico visual, tanto quanto o cardápio. Ali o atum rouba a cena em mais de uma forma, no brioche com ikura, na croqueta com aioli, e tem um prato que sempre rende risada, a tortinha ‘McDonas’, com porco, maçã e molho glace, que a Bruna conta ter nascido de uma homenagem à tortinha de maçã do McDonald’s, só que bem mais sofisticada.
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Já não é mais possível comer no Florestal (o meu favorito quando estive em BH), mas vale registrar o que foi. A casa fechou recentemente, depois de cumprir o que a chef chama de sua missão: um restaurante de protagonismo vegetal e agricultura familiar, com atendimento que fugia de propósito do modelo mais formal, mais serviçal, que domina Belo Horizonte. “Foi como se fosse um foguete, tinha uma missão a ser cumprida. Não é um restaurante pra eternidade”, diz ela sobre o fim. Foi, segundo Bruna, o projeto mais político dos três: pratos sem proteína animal sustentados por sabor e criatividade, não por substituição.
E é como político que Bruna enxerga o próprio trabalho, mesmo fora do prato. “Sinto que, como empreendedora que emprega mulheres, pessoas trans, pessoas negras, gays, e que tem uma gastronomia focada em pequenos produtores, fazendo curadoria de agricultura familiar, é o meu papel político”, diz. Foi essa mesma convicção que a fez, em 2013, contratar só mulheres para a cozinha do Birosca. ‘Fui muito incomodada com o cenário da gastronomia de Belo Horizonte, e ao mesmo tempo eu não era levada a sério de jeito nenhum. Fui percebendo que eu tinha que ser muito boa pra ser levada a sério”, lembra.
Ela chegou a sair de um grupo de WhatsApp de cozinheiros depois de ver colegas defenderem um chef acusado publicamente de assédio por uma funcionária. “Fui muito solitária no meu processo“, resume. Segurar isso, segundo ela, tem raiz na própria criação, já que os pais são psicólogos, e ela cresceu dentro de um repertório de saúde mental que hoje reconhece como estrutural pra tudo que construiu. “Fiz análise a vida inteira. Eu realmente me considero uma pessoa tranquila, e sou meio fria, sei lidar com os problemas sérios sem surtar, mas já surtei muito, e isso faz parte do meu casco”, diz.
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O próximo idioma que Bruna está aprendendo é o português de Portugal, ou melhor, a versão dele que passa por Minas. O Viralata, ainda em preparação para inaugurar nos próximos meses, nasce de uma pesquisa sobre as latinhas de conserva portuguesas, tão tradicionais que viram souvenir de viagem, cruzadas com o hábito mineiro de guardar carne de lata, segundo a chef. ‘Não posso deixar de falar da carne de lata, de coisas que a gente faz e deixa guardado na lata. Estou trazendo essa brincadeira do Viralata também, do brasileiro: qual é a posição dele no mundo em relação a Portugal’, explica. Ela nota que os restaurantes de comida portuguesa no Brasil costumam ser bastante tradicionais, e quer o oposto: ‘Quero fazer uma coisa mais divertida, mais inovadora, que vai misturar um pouco dos dois.
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Endereço: Rua Levindo Lopes, 96, Savassi, Belo Horizonte, MG
Birosca Restaurante & Deli
Endereço: Rua São Paulo, 2003, Lourdes,, Belo Horizonte, MG
Telefone: (31) 9 9957-7267
Horários: terça a sábado, 12h às 23h; domingo, 12h – 17h, segunda, fechado.
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