A 24ª Flip já tem cara. A festa anunciou nesta terça-feira (23.06) a programação completa, e o desenho assinado pela curadora Rita Palmeira deixa pouca margem de dúvida sobre o que move esta edição. No centro da edição está Orides Fontela (1940-1998), poeta nascida em São João da Boa Vista que Antonio Candido apresentou ao país como uma espécie de Rimbaud brasileira, mais pelo temperamento do que por outra coisa.
Orides publicou cinco livros em vida e teve o aval da crítica desde cedo, com o Jabuti por Alba, em 1983, e o prêmio da APCA por Teia, em 1996. Ainda assim, sua poesia ficou mais entre pesquisadores, poetas e leitores especializados do que com o grande público. A escolha tem lógica dupla: é o segundo ano seguido em que a Flip homenageia um poeta, depois de Leminski em 2025, e marca o retorno de uma mulher ao posto, o primeiro desde Pagu, em 2023. Na coletiva, Palmeira foi direta ao dizer que parte da ideia é simplesmente fazer mais gente ler Orides. A editora Hedra acompanha o movimento e relança os cinco títulos originais
A vitrine internacional traz um nome que a Flip persegue há anos: Zadie Smith. A inglesa de Dentes brancos fecha o sábado em entrevista com Juliana Borges, e deve falar de colonialismo, imigração e racismo, temas que atravessam sua ficção. Em volta dela, um padrão difícil de ignorar: muitos dos convidados nasceram num país e escrevem em outro. O franco-argelino Kamel Daoud, Goncourt de 2024, e a franco-mauriciana Nathacha Appanah, Femina de 2025, vivem na França. O guatemalteco Eduardo Halfon, criado nos Estados Unidos, mora em Berlim e escreve em espanhol. Foi um dos poucos recortes conscientes da curadoria. “Alargar o número de países representados é um desejo curatorial”, disse Palmeira na coletiva, antes de assumir um gosto particular pelo tema: pensar “o deslocamento da língua, ou quando não é a língua, da religião, da questão política”.
Para ela, é o que puxa a literatura para um terreno político sem precisar anunciar. Daoud divide mesa com a luso-angolana Djaimilia Pereira de Almeida; Halfon, com a argentina Paloma Vidal. Completam o time a catalã Eva Baltasar, que encerra a festa ao lado da amazonense Susy Freitas, a americana Katie Kitamura e o italiano Andrea Bajani, premiado com o Strega.
O fio mais evidente, porém, é político, e nem se disfarça. Perguntada se o tom foi planejado, Palmeira disse considerá-lo inevitável. “A literatura não existe fora do mundo”, afirmou, e lembrou que “a Flip não é descolada do tempo em que ela é feita”, num ano que definiu como especialmente difícil no Brasil e fora dele. Em ano de eleição, a festa colocou a ministra do Supremo Cármen Lúcia para falar do seu Pela mão do povo: Democracia e voto no Brasil e dos ataques recentes às instituições, em conversa com Paula Miraglia.
Logo adiante, o crítico João Cezar de Castro Rocha e o psicanalista Paulo Schiller dedicam uma mesa inteira à ascensão da extrema direita. O exílio e o autoritarismo voltam em vários encontros. O líbio Hisham Matar, autor de O retorno, sobre o pai sequestrado pela ditadura de Gaddafi, senta com Milton Hatoum, recém-empossado na Academia Brasileira de Letras. O ucraniano Andrei Kurkov debate com a canadense de origem ucraniana Maria Reva o problema de narrar uma guerra em andamento. E a angolana Ana Paula Tavares, Camões de 2025, costura poesia, história e feminismo.
Do lado de cá, a edição aposta em encontros de ficcionistas, como Andréa del Fuego com Paulliny Tort, em poesia e canção, com Leonardo Gandolfi e Mateus Baldi, e numa estreia de formato: a seção Do livro ao palco traz Denise Stoklos num espetáculo sobre Dalton Trevisan, com direção de Alessandra Maestrini. Além disso, Flip também mexeu no relógio. As noites de sexta e sábado terminam mais cedo, às 19h, para liberar Paraty para o jantar e a festa, e o domingo ganhou três mesas, num desenho mais próximo do das primeiras edições.
A celebração de Orides começa antes de Paraty. Nesta terça à noite, a cantora Fabiana Cozza sobe ao palco da Casa Natura, em São Paulo, com o sanfoneiro Cleber Silveira, num show inspirado nos poemas dela. De 25 a 27 de junho, o Sesc recebe o Ciclo da Autora Homenageada, de graça, com nomes como Alcides Villaça, Fernando Paixão, Olgária Matos e Paulo Henriques Britto.
A 24ª Flip acontece em Paraty, de 22 a 26 de julho. Os ingressos entram à venda no site oficial nesta sexta, 26 de junho. Quem fica em casa acompanha as mesas pelo YouTube da Flip e pelo canal Arte1.
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