
Nesta sexta-feira (02/10), o Musée des Arts Décoratifs, um dos mais prestigiosos endereços da arte e do design na França, abre as portas ao público para a celebração de um talento brasileiro, em plena fashion week de Paris. É lá que o fotógrafo de moda Rafael Pavarotti, nascido há 33 anos em Icoaraci, distrito de Belém (PA), ganha uma mostra que percorre seu trabalho, marcado pela força das cores da Amazônia onde cresceu.
A exposição Rafael Pavarotti, Photographer é a consagração de um artista que nos últimos anos se tornou referência nas principais revistas de moda do mundo e em campanhas de marcas como Dior, Chanel e Balmain. Além das cores intensas e saturadas, sua linguagem visual exalta figuras femininas fortes – rainhas, guerreiras, deusas – que evocam a cultura afro-brasileira. Entre as mulheres que já passaram por suas lentes, ele praticamente gabaritou a realeza do pop: a) clicou Beyoncé para a capa da Vogue britânica, em 2022, e registrou a cantora nos bastidores de sua turnê Renaissance em Londres, no ano seguinte; b) fez duas capas de revista com Rihanna, para a Dazed (em 2021) e a Perfect Magazine (2024); c) assinou a capa do mais recente álbum de Madonna, Confessions II, lançado em julho deste ano.
Mas sua importância vai muito além das divas da música. De ascendência afro-indígena, Pavarotti abriu caminhos, ocupou novos espaços e desconstruiu estruturas – como fotografar a primeira campanha da Dior composta inteiramente por modelos negros, sob a direção criativa de Kim Jones, para a coleção do verão 2021. A capa da Vogue britânica de fevereiro de 2022 foi outro marco: batizada As the World Turns, reuniu uma nova geração de modelos de ascendência africana e propôs uma reflexão sobre representatividade na moda.
Nascido em uma família de artesãos, Pavarotti começou a fotografar aos 12 anos com uma câmera do pai. Ver onde ele chegou me deixa especialmente emocionada: nos conhecemos no fim da sua adolescência, quando Pavarotti já desbravava a fotografia e morava no Vidigal, no Rio – e eu estava gravidíssima do meu filho, hoje adolescente. Na época, eu era redatora-chefe desta Vogue, e um fotógrafo com quem costumava trabalhar, Yuri Sardenberg, sentenciou: “Você precisa conhecer esse novo talento, Rafael Pavarotti. Um dia ele vai ser o maior fotógrafo de moda do Brasil.”
O fotógrafo brasileiro Rafael Pavarotti ganha exposição no Musée des Arts Décoratifs, em Paris
Rafael Pavarotti
Poucas semanas depois, tomamos um café e, a partir daí, dividimos muitos trabalhos, risadas e momentos festivos. Além de talentoso, Pavarotti era solar, carismático e reunia duas características essenciais à sua ascensão: muita resiliência e uma boa dose de “desobediência”. Mesmo muito jovem, ele já era fiel à sua essência e levava essa convicção para sua forma de trabalhar. Em entrevista ao curador de sua mostra, Sébastien Quéquet, explicou: “Desde o início, abordei a fotografia não como um serviço, mas como uma forma de expressar a minha maneira de ver e compreender o mundo”. E, assim, ele foi além da aposta do Yuri e conquistou a moda internacional.
Em cartaz até 2 de maio, Rafael Pavarotti, Photographer reúne mais de 200 obras e conta com patrocínio do Iguatemi. “Moda e arte sempre caminharam juntas na história do Iguatemi. Rafael Pavarotti traduz esse encontro como poucos, com um olhar brasileiro que redefine a imagem de moda no mundo. Acreditamos na moda como expressão cultural, capaz de apontar caminhos e revelar quem somos como país”, diz Carlos Jereissati, membro do conselho do Iguatemi.
Aqui, Pavarotti fala sobre o processo de construção da exposição e sobre como a relação com o Brasil moldou sua linguagem visual.
Como foi o processo de escolher o que entraria na exposição? Qual foi o fio condutor que escolheu para conectar diferentes trabalhos que você fez para diferentes revistas e marcas ao longo dos anos?
Rafael Pavarotti: Acho que esse foi um dos processos mais difíceis para mim como artista. O museu recebeu cerca de 700 imagens produzidas ao longo de dez anos, de 2016 a 2026, e foi a partir desse arquivo que o Sébastien Quéquet, meu curador, começou a construir a exposição comigo. Escolhemos olhar para esses dez anos porque eles foram muito significativos na minha vida e também atravessaram um período de grandes transformações no mundo.
Existe algo muito especial nessa seleção: algumas das imagens que estão hoje no museu foram publicadas há apenas dois meses. Então não é uma exposição que termina no passado, ela chega praticamente até o presente. Quando começamos a colocar esses trabalhos juntos, percebi que, mesmo tendo sido feitos para revistas, marcas e em momentos completamente diferentes, existia uma conversa muito antiga acontecendo entre eles e comigo mesmo.
Quando comecei, quase não existiam fotógrafos afro-indígenas ocupando esse espaço dentro da moda no Brasil. Ao longo desses dez anos, vi e participei de mudanças importantes, como fotografar a primeira campanha da Dior composta inteiramente por modelos negros, sob a direção de Kim Jones, e, alguns anos depois, a primeira campanha de alta-costura da Balmain realizada inteiramente com modelos negros. São acontecimentos que também contam uma história sobre o quanto o mundo ao redor dessas imagens estava mudando.
Mas, olhando para a exposição agora, acho que o fio condutor vai além desses marcos. São dez anos construindo uma maneira de olhar e, através dela, celebrando outras vidas, outras histórias e outras formas de existir. Para mim, a exposição não encerra esse diálogo. Ela mostra onde essa conversa chegou até agora.
“Quando comecei, quase não existiam fotógrafos afro-indígenas ocupando esse espaço dentro da moda no Brasil.
Como você deseja impactar as pessoas que visitam a exposição? O que deseja despertar nelas?
Eu acho bonito não saber exatamente o que uma imagem vai despertar em alguém. Cada pessoa entra na exposição carregando uma vida inteira consigo, suas memórias, seus desejos, suas referências e inevitavelmente vai encontrar alguma coisa diferente ali. Depois de tantos anos criando essas imagens, elas já não pertencem somente a mim. Quando alguém para diante de uma fotografia, de um desenho, de uma pintura ou lê um poema, começa uma relação sobre a qual eu já não tenho controle. E talvez seja justamente isso que eu deseje despertar: curiosidade.
Que alguma coisa ali faça a pessoa querer olhar por mais tempo, sentir antes de entender, ou sair com uma pergunta que não tinha quando entrou. Para mim, uma obra continua viva quando ela não termina naquilo que o artista quis dizer – e por aí vai.
O fotógrafo brasileiro Rafael Pavarotti ganha exposição no Musée des Arts Décoratifs, em Paris
Rafael Pavarotti
O Brasil está presente em toda a sua linguagem visual. Como ser brasileiro moldou a sua maneira de perceber a luz, a cor, as pessoas e de que forma você levou tudo isso para seu trabalho?
Eu sempre achei que o Brasil é o melhor país do mundo, mas sou muito suspeito para dizer isso – e imagino que muita gente pense a mesma coisa sobre o lugar de onde veio. O Brasil está no meu trabalho de maneiras que vão muito além daquilo que é imediatamente reconhecível. Está no gingado, no molejo, no axé, no atrevimento, no jogo de cintura e nessa capacidade muito brasileira de fazer acontecer, mesmo quando você não tem todas as condições a seu favor. Acho que carrego muito disso comigo.
Ao mesmo tempo, viajar pelo mundo, conhecer outras culturas, outras pessoas e outras formas de ver foi fundamental. Tudo isso vai amolando o olhar, amolando a percepção e até amolando o desejo. Você começa a enxergar aquilo que conhece a partir de outros lugares. E nunca achei que precisasse ser caricato para falar do Brasil. Você não precisa reproduzir literalmente uma memória para que ela esteja presente no que você faz. Existem muitas maneiras de carregar o lugar de onde você veio.
Eu também sempre me permiti experimentar muito. Às vezes uma coisa funciona, às vezes não funciona, às vezes eu gosto do resultado, às vezes não, e isso faz parte. Acho importante para um artista não ter medo dessa relação com o erro, porque ela também te leva para lugares que você não teria encontrado de outra forma. Acho que nenhum artista conhece a satisfação por completo. A gente está sempre um pouco insatisfeito, sempre procurando outra maneira de ver, de fazer, de chegar mais perto de alguma coisa que ainda não sabe exatamente o que é. Talvez seja justamente essa inquietação que mantém o trabalho vivo.
No fim, meu trabalho acaba contando a minha própria vida, a minha forma de estar no mundo. Mesmo quando estou contando a história de outra pessoa, alguma coisa visceral minha inevitavelmente atravessa aquilo.
Depois de tantos anos vivendo fora do Brasil, o que você faz para seguir conectado com a sua essência?
Eu não sinto que preciso fazer um grande esforço para continuar conectado com a minha essência, porque o Brasil está presente no meu cotidiano o tempo inteiro. Meu freezer está sempre cheio de açaí, estou sempre reunindo amigos em casa para fazer feijoada, ouvindo samba, acordando com Gal Costa, Maria Bethânia, Caetano Veloso, Tim Maia, Gilberto Gil. Eu escuto Os Tincoãs praticamente todos os dias, e existe alguma coisa naquela música que elimina qualquer barreira, qualquer distância entre mim e o Brasil.
Mas acho que essa conexão também está na maneira como eu vivo. Na relação que tenho com as pessoas do meu bairro, nessa vontade de criar uma sensação de vila, de comunidade, mesmo estando longe de onde nasci. Está no calor, no sorriso, na casa cheia, na maneira de receber e de cuidar das pessoas. Acho que o brasileiro tem uma habilidade muito bonita de levar charme para onde quer que vá. E morar fora me fez perceber que a nossa origem não fica parada no lugar de onde a gente saiu. Ela viaja com a gente, se mistura com o mundo e continua se transformando. Eu mudei muito vivendo fora, mas nunca senti que precisava escolher entre aquilo que eu era e tudo aquilo que fui encontrando pelo caminho.
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Vive le Pará!

