Esta semana, a UNEP divulgou um novo relatório dizendo que o mundo deve ultrapassar o limite de 1,5°C e considera esse aumento praticamente inevitável nas trajetórias atuais. A urgência climática deveria comover populações, governos e setores industriais por ações efetivas e coletivas. Desta forma, pensar no papel do Brasil é pensar nas oportunidades que a nossa grande diversidade, biológica e cultural, oferece.
E não tem como pensar em biodiversidade sem Amazônia, um dos biomas mais ricos do planeta, com papel importantíssimo para o equilíbrio climático e a manutenção da vida. Porém, a maior floresta tropical do mundo vai além da natureza, são pessoas, território, cultura, arte e saberes. “Eu acredito no fator humano em primeiro lugar, pensar nas pessoas antes das commodities, marcas e símbolos”, diz a designer de joias paraense Naisha Cardoso.
Hoje, dia 5 de setembro, é o dia dedicado à Amazônia e vamos conhecer 5 pessoas e iniciativas de diferentes partes do território.
As artes da jovem indígena Yaka Huni Kuin
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Huni Kuin significa “povo verdadeiro” e representa a maior população indígena do Acre. Com uma vasta cultura que reúne cantos, pinturas, conhecimentos botânicos e teares manuais, a nova geração tem desempenhado um papel importante no resgate de saberes ancestrais que estavam se perdendo. Nascida na Aldeia Chico Curumim, na Terra Indígena Kaxinawa do Rio Jordão, no Acre, Yaka Huni Kuin é artista visual e aprendiz da floresta. Atualmente, vive no município de Jordão, para onde se mudou para estudar. Em suas pinturas, produzidas em acrílico sobre tela, traz a cosmovisão e os conhecimentos do povo Huni Kuin. Os desenhos representam uma geometria sagrada e simbolizam cura e proteção. A etnia também mantém conhecimentos ancestrais sobre espécies vegetais medicinais, como a ayahuasca, cujo uso tradicional permanece vivo entre os Huni Kuin.
“Minha arte está ligada aos cantos ancestrais do Nixipae – Ayahuasca, as mirações, e as histórias do povo Huni Kuin que trazem conhecimentos e ensinamentos espirituais. Por meio da arte, expresso aquilo que é recebido e vivenciado, mantendo viva a tradição e a sabedoria dos meus ancestrais”, conta a artista. Co-fundadora do Centro de Cultura Kayatibu e do movimento Makhu, a artista teve obras expostas no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM), integrou a exposição “Les Vivans”, na Fundação Cartier, na França, e participou da 35ª Bienal de São Paulo, “Coreografias do Impossível”.
As campanhas da SOS Amazônia: Café pela Amazônia e Quanto vale uma floresta em pé
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Com sede no Acre, a SOS Amazônia é uma organização da sociedade civil criada em 1988 por professores, estudantes universitários e representantes de movimentos sociais, entre eles o ativista e seringueiro Chico Mendes. A organização tem como objetivo defender a causa extrativista, proteger a Floresta Amazônica e apoiar as populações tradicionais. Entre diversas frentes de atuação, a organização está promovendo um evento onde a pausa para o café se transforma em um momento de conexão com a floresta, levando sabores, saberes e histórias da Amazônia ao coração de São Paulo. Essa é a proposta do Café pela Amazônia, realizado em parceria com a Orla TotalPass, nos dias 5 e 6 de setembro, no Parque Villa-Lobos.
“Levar a Amazônia para São Paulo é também uma forma de lembrar que a floresta não está distante da vida de quem vive nas grandes cidades. Ela está presente na água, no clima, na biodiversidade e também nos produtos que chegam às nossas mesas. O Café pela Amazônia nasce para criar essa conexão de uma maneira leve, afetiva e acessível”, destaca Miguel Scarcello, cofundador e secretário-geral da SOS Amazônia. Outro destaque é a campanha Protect the Amazon Rainforest, que permite a qualquer pessoa no mundo contribuir para financiar a proteção de 45 hectares de floresta. “Enquanto o desmatamento continua ameaçando a floresta, a campanha permite que qualquer pessoa, em qualquer lugar do mundo, contribua diretamente para a proteção de áreas nativas, além de uma nascente e garantir a proteção da biodiversidade em uma área estratégica” , destaca.
O objetivo é adquirir e proteger permanentemente 45 hectares de floresta amazônica nativa, incluindo uma nascente que abastece um viveiro responsável pela produção de até 450 mil mudas nativas por ano. Como a região ainda não é uma área protegida, a iniciativa representa uma oportunidade de conservação preventiva. A pressão da expansão agrícola tem fragmentado a cobertura florestal ao redor, deixando os remanescentes vulneráveis e ameaçando a biodiversidade e os recursos hídricos. Ao garantir a posse da área antes da degradação, o projeto protege a nascente, apoia o viveiro e fortalece a conectividade ecológica da região.
Doe aqui: https://www.globalgiving.org/projects/protect-the-amazon-rainforest/
As joias contemporâneas da designer paraense Naisha Cardoso
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Desde 2004, o Naisha Cardoso Atelier produz em Belém joias atemporais totalmente feitas à mão, sem estoque, com coleções permanentes e inspiradas em elementos amazônicos contemporâneos. “O design na Amazônia pode ser um grande contador de histórias. Toda a nossa simbologia e etnografia não são apenas um resumo simbólico, mas uma ferramenta de expansão para diferentes saberes culturais de todos os povos que colaboraram para o que hoje chamamos de floresta amazônica”, conta Naisha.
A artista trabalha com as formas dos rios, os mapas da bacia hidrográfica e elementos ordinários do cotidiano para falar de uma Amazônia que integra floresta, cidade, ribeirinhos, quilombolas, os fluxos migratórios, os povos originários em uma cidade muito vívida e cosmopolita, irremediavelmente arraigada à cultura indígena. “Somos tudo isso ao mesmo tempo, tradição e transgressão. Querer setorizar é afunilar a visão, deve-se fazer exatamente o contrário. A Amazônia é a perder de vista” complementa.
A proposta do atelier é unir a base clássica da joalheria ao “design desviante”, como denomina. Cuias, raízes, vidros, tucupi e infusões são o Hi-Lo que dialoga com o design clássico, com gemas naturais brasileiras e metais nobres, tal qual a visão que a designer tem da Amazônia: integração de várias linguagens. “Ao mesmo tempo, não podemos romantizar nem contribuir para reforçar estereótipos. Tudo o que é exagero aqui dá o seu recado: é um convite a pensar mais. A gente precisa expandir sempre o pensamento sobre todos os assuntos amazônicos, e não tentar resumir. Que a beleza e o design estejam a serviço desse ativismo delicado.”
A poesia amazônida de Eliakin Rufino: “Não há Brasil profundo, há pensamento raso”
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Enquanto uma visão estereotipada da Amazônia ainda é amplamente difundida, o pensador Eliakin Rufino questiona narrativas de separação e termos como “Brasil profundo”. “O conceito foi criado para nomear regiões brasileiras consideradas longínquas e atrasadas. E foi assim que a Amazônia entrou no mapa do Brasil profundo, mas não é um elogio, é uma humilhação moral, cultural e social, e não podemos mais aceitar essa condição”, explica o poeta e escritor roraimense.
Com uma vasta trajetória artística de mais de 40 anos, Eliakin, que também é jornalista, músico, professor e filósofo, foi um dos precursores do movimento Roraimeira, que buscou fortalecer e divulgar a produção cultural de Roraima. Em suas obras, valoriza a diversidade cultural, social e ambiental do extremo norte do Brasil. “Não há Brasil profundo, Brasil profundo foi inventado por quem pensa raso, teóricos da superfície, acadêmicos urbanos, intelectuais do asfalto. Brasil profundo somos nós, nortistas, indígenas, caboclos, quilombolas, ribeirinhos, povos da floresta. Somos vistos com desprezo, tratados como estranhos, olhados com desdém. Quem inventou o Brasil profundo nada na superfície de um Brasil colonizado. Não há Brasil profundo, há pensamento raso. Há preconceito e atraso”, diz em sua memorável participação no TEDX Amazônia.
Nota: Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Vogue Brasil.









