Bancada do Master atuou no Congresso para blindar investigações

Enquanto o Banco Central (BC) aprofundava análises sobre operações bilionárias do Banco Master e a Polícia Federal (PF) avançava em inquéritos que miram a atuação do banqueiro Daniel Vorcaro, um conjunto de iniciativas foi apresentado no Congresso para tentar blindar o caso. Lideradas principalmente por parlamentares do Centrão, as articulações incluíram emendas em propostas constitucionais, requerimentos para acelerar projetos sensíveis e manobras regimentais para travar uma CPI do chamado caso Master.

Nos bastidores, políticos e integrantes do mercado financeiro passaram a chamar esse grupo informal de “Bancada do Master”. A expressão passou a ser usada para descrever a coincidência temporal entre a ofensiva legislativa e o avanço das investigações sobre o banco, que acabou liquidado após frustrada tentativa de venda ao Banco de Brasília (BRB).

A primeira movimentação aconteceu ainda em 2024, quando o senador Ciro Nogueira (PP-PI) apresentou emenda à PEC da autonomia financeira do Banco Central para ampliar de R$ 250 mil para R$ 1 milhão a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Críticos da proposta afirmaram, à época, que a ampliação da garantia beneficiaria diretamente bancos médios com forte captação junto a investidores — perfil no qual o Banco Master se enquadrava.

A iniciativa passou a ser citada por parlamentares como exemplo do grau de influência política exercido pelo grupo ligado à instituição. Com a liquidação do Banco Master pelo BC, os desembolsos do FGC para cobrir depósitos e aplicações de clientes atingidos pelo grupo Master, que inclui hoje o Will Bank, podem somar até R$ 46,9 bilhões. O montante representa quase 40% da liquidez que a instituição tinha em junho de 2025, de R$ 121 bilhões.

À época, os papéis lastreados no FGC eram o principal vetor de captação do Banco Master. Em depoimento à Polícia Federal, Vorcaro afirmou que o modelo de negócios da instituição era “100% baseado no FGC”.

Operadores do mercado interpretaram a proposta como tentativa de favorecer a atuação do banco, o que foi negado pelo senador. A emenda acabou rejeitada pelo relator da PEC, Plínio Valério (PSDB-AM), que não acolheu a mudança.

Paralelamente, Nogueira manteve proximidade com Vorcaro em eventos patrocinados pelo banco e participou de discussões envolvendo a tentativa de compra do Master pelo BRB. Procurado, o senador não quis comentar o caso.

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Pressão sobre o Banco Central e articulação para acelerar projetos

Em setembro do ano passado, pouco antes de o Banco Central barrar a aquisição do Master pelo BRB, o deputado Claudio Cajado (PP-BA) apresentou um requerimento de urgência para acelerar a tramitação de um projeto que permite ao Congresso destituir presidentes e diretores da autoridade monetária. Aliado próximo de Ciro Nogueira, Cajado conseguiu apoio de líderes de seis partidos: MDB, PP, União Brasil, PL, PSB e Republicanos.

A proposta estava parada havia anos, mas passou a ser impulsionada justamente quando cresciam as suspeitas sobre o Banco Master. O movimento foi criticado por autoridades econômicas, como o ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles e o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, que viram risco de intimidação institucional num momento em que a autarquia investigava o Master.

Com a autonomia do BC aprovada pelo Congresso em 2021, no governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, os diretores da instituição passaram a ter mandato fixo de quatro anos. Diante da repercussão negativa sobre a proposta, a deputada Lídice da Mata (PSB-BA), uma das autoras originais do projeto, pediu que a matéria fosse retirada da pauta da Câmara.

Para o analista político Arcênio Rodrigues, mestre em Direito, com especialização em Direito Público e Tributário, a proximidade entre Vorcaro e lideranças políticas não invalida automaticamente as investigações, mas cria um ambiente de contenção.

“Esse tipo de vínculo cria um ambiente propício à contenção política das investigações, especialmente no âmbito do Congresso. Isso tende a produzir a percepção pública de seletividade institucional e de proteção corporativa”, explicou.

Para ele, o caso Master extrapola a responsabilização individual de banqueiros ou dirigentes públicos e se transforma num teste para o próprio sistema político.

“O escândalo do Banco Master coloca o Congresso Nacional diante de um teste relevante de maturidade democrática. Mais do que a responsabilização de indivíduos, está em jogo a credibilidade dos mecanismos de controle, a confiança pública no sistema financeiro e a legitimidade das decisões institucionais”, completou.

Procuradas pela reportagem, as lideranças e os partidos citados não responderam aos pedidos de posicionamento até o fechamento da matéria. O espaço segue aberto para manifestações.

PEC da blindagem e resistência à CPI do Banco Master

Em setembro de 2025, Claudio Cajado também relatou a chamada PEC da Blindagem, que concederia foro privilegiado a dirigentes partidários. A proposta avançou na Câmara sob patrocínio do presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB), e apoio de líderes do Centrão, mas acabou rejeitada no Senado.

Para senadores ouvidos pela reportagem, a coincidência temporal entre a tramitação acelerada da PEC na Câmara e o avanço das investigações sobre o Banco Master reforçou a percepção de que parte da cúpula do Congresso buscava criar um escudo institucional para dirigentes partidários e figuras políticas sob escrutínio. Entre os principais beneficiários, caso a PEC fosse aprovada, estariam os presidentes dos partidos.

Publicamente, o deputado Claudio Cajado negou que a proposta pudesse estar relacionada ao Caso Master. Ao jornal O Estado de S. Paulo, ele disse que não se deveria “relacionar a PEC das Prerrogativas ao Banco Master”. “Nada a ver [a suposta ligação do] foro privilegiado dos presidentes dos partidos nacionais a Vorcaro ou ao Banco Master”.

Atualmente, Antônio Rueda, presidente do União Brasil, tem sido apontado por parlamentares da oposição como um dos principais obstáculos para a instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre o Master no Congresso. Parlamentares ouvidos pela reportagem admitem que houve pressão por parte de integrantes da sigla de Rueda para desidratar as assinaturas ao requerimento protocolado nesta semana pelo grupo. A Gazeta do Povo procurou a assessoria de Rueda, mas não obteve retorno até o fechamento desta matéria.

Na Câmara, Hugo Motta afirmou publicamente que o requerimento para abertura da CPI entraria na fila regimental de pedidos já protocolados. “Nós temos aqui uma fila de CPIs. Essas CPIs são tratadas na ordem cronológica. A Câmara tem que obedecer a essa ordem cronológica”, disse.

No Senado, Davi Alcolumbre (União-AP) também já indicou que não pretende criar um colegiado para o caso. Na última sexta-feira (6), uma operação da PF colocou no centro das investigações o diretor-presidente da Amapá Previdência (Amprev), Jocildo Silva Lemos — indicado ao cargo pelo presidente do Senado.

A PF apura aplicações que somam quase R$ 400 milhões em letras financeiras do Banco Master em 2024, aprovadas em menos de 20 dias pela Amprev, apesar de alertas do Ministério Público Federal (MPF) e do Tribunal de Contas da União (TCU). Embora Alcolumbre não figure entre os investigados, o avanço da apuração aproxima o escândalo envolvendo o banco da cúpula do Congresso e amplia a pressão política sobre o presidente do Senado.

Além de Jocildo Lemos, o órgão previdenciário tem no Conselho Fiscal o irmão de Alcolumbre, o advogado Alberto Alcolumbre. A Amprev administra a previdência dos servidores públicos do Amapá e gere aposentadorias, pensões e os recursos do regime próprio estadual. Trata-se de uma autarquia do Governo do Amapá.

Em nota, a Amprev afirmou se considerar prejudicada pelas irregularidades atribuídas ao Banco Master e disse buscar o ressarcimento integral dos valores investidos. A autarquia informou ter adotado todas as medidas judiciais cabíveis, incluindo decisões que resultaram no bloqueio de repasses financeiros à instituição bancária.

Já a assessoria de Alcolumbre informou que o presidente do Senado confia nas instituições e defende apuração com transparência e respeito ao devido processo legal. Ele afirmou também esperar que “os verdadeiros culpados sejam punidos na forma da lei”.

O senador, porém, não respondeu aos questionamentos sobre sua relação pessoal com Jocildo Lemos, presidente da Amprev. Na semana passada, quando questionado pela Gazeta do Povo sobre a questão, o parlamentar negou qualquer envolvimento direto dele na indicação ou nas decisões de investimento do fundo. “É falsa e irresponsável qualquer tentativa de vincular o presidente do Senado a essas nomeações ou decisões”, afirmou, por meio de nota enviada pela assessoria.

Lemos e Alberto Alcolumbre foram procurados pela reportagem para comentar o caso da Amprev na semana passada, mas não se manifestaram.

O presidente da Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado Federal, Renan Calheiros (MDB-AL), acusou o Centrão e os “dirigentes da Câmara dos Deputados” de pressionarem o Tribunal de Contas da União (TCU) a não fiscalizar a liquidação do Banco Master pelo Banco Central.

Durante a instalação de um grupo de trabalho no colegiado para investigar o caso Master na semana passada, o emedebista afirmou que o TCU foi “chantageado à luz do dia” por autoridades que pediam o aval do órgão à operação de compra pelo BRB.

“Os dirigentes da Câmara tentaram votar a elevação do FGC para R$ 1 milhão como parte dessa pressão. E tentaram votar uma alteração na lei que tornou o Banco Central independente, para que o Congresso Nacional exonerasse o presidente do Banco Central, sob a pressão de autorizar a compra do Master pelo BRB”, afirmou Calheiros.

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