Câmara infla verba de gabinete em 13% sem passar pelo plenário

A Mesa Diretora da Câmara dos Deputados reajustou, nesta sexta-feira (20), em 13,7% a verba de gabinete mensal destinada ao pagamento de assessores parlamentares. Com a mudança, o valor disponível para cada um dos 513 deputados federais saltou de R$ 133,1 mil para cerca de R$ 151 mil por mês. A atualização foi formalizada por ato administrativo, sem necessidade de votação em plenário.

A medida é justificada pela Câmara como recomposição inflacionária — a primeira desde 2023 —, mas ocorre em meio ao debate sobre responsabilidade fiscal e ao custo crescente da máquina legislativa, que segundo relatórios técnicos terá um impacto anual de aproximadamente R$ 540 milhões com as recentes mudanças nas carreiras do Legislativo.

De acordo com a Diretoria-Geral da Câmara, o reajuste não representa um “aumento real”, mas uma atualização baseada no Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acumulado desde a última revisão do benefício, em 2023. A Casa argumenta que a medida é necessária para garantir o funcionamento regular dos gabinetes, sem reduzir o quadro de pessoal.

A lógica apresentada é a de que, sem o ajuste no teto da verba, o recente aumento salarial concedido aos assessores acabaria por reduzir a capacidade de contratação dos deputados. Na prática, se o limite financeiro permanecesse estagnado enquanto os salários individuais subiam, os parlamentares seriam forçados a demitir pessoal para fechar as contas de seus gabinetes.

Pressão política por reajuste e a Lei nº 15.349/2026

O reajuste é consequência da reestruturação das carreiras do Poder Legislativo, viabilizada após a sanção da Lei nº 15.349/2026 pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A legislação alterou a estrutura administrativa e salarial do Congresso, ampliando gratificações e regras de promoção para os servidores.

Nos bastidores, a pressão sobre o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), foi intensa. Líderes partidários, reunidos no Colégio de Líderes, defenderam que a atualização do teto da verba de gabinete era condição essencial para a manutenção do apoio interno e das reformas administrativas da Casa.

Ao optar pelo ato da Mesa Diretora em vez de submeter a matéria ao plenário, a cúpula da Câmara utilizou um mecanismo administrativo que dispensa votação aberta. Para críticos do processo, a escolha evita o desgaste político de um debate público sobre o aumento de gastos públicos em um momento de restrição orçamentária para outros setores. Integrantes da Mesa, por outro lado, defendem que a medida é uma decisão administrativa interna, dentro do orçamento já autorizado.

O impacto no “cotão” e o aumento de gastos públicos

Além da verba direta para contratação de assessores, a publicação no Diário Oficial também atualizou os limites de ressarcimento da Cota para o Exercício da Atividade Parlamentar (CEAP), conhecida como “cotão” — utilizada para reembolso de despesas como passagens aéreas, combustível e divulgação do mandato.

A Câmara reitera que tanto o reajuste da verba quanto a atualização do CEAP seguem estritamente a variação do IPCA. Economistas liberais e representantes do setor produtivo, no entanto, apontam a correção automática de 100% da inflação no setor público como uma assimetria em relação ao mercado privado, que frequentemente precisa absorver perdas inflacionárias por meio de ganhos de produtividade.

Efeito cascata no Legislativo e custo de R$ 540 milhões

O impacto financeiro vai além da folha de pagamento. Relatórios técnicos da própria Casa apontam custo anual de R$ 540 milhões com as mudanças estruturais. Parlamentares admitem, em conversas reservadas, que contratos de prestação de serviços e despesas administrativas diversas também serão pressionados — ampliando o custo real para além do que os números oficiais indicam.

Paralelamente, a presidência anunciou aumentos lineares de 8% para secretários parlamentares e de 9,28% para cargos comissionados.

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