Imagem: Google – Gemini
Por Mauro Falcão, pesquisador e escritor brasileiro
Vivemos uma crise que não é apenas política ou econômica, mas profundamente humana. Trata-se de uma crise de sentido, de consciência e de responsabilidade. Em nome de Deus, normaliza-se o ódio; em nome da fé, mercantiliza-se a esperança; em nome do bem comum, legitimam-se projetos de poder. Diante desse cenário, a pergunta que se impõe não é o que dizemos sobre Jesus, mas o que Ele espera de nós enquanto humanidade concreta, situada e responsável.
Jesus jamais compactuaria com uma religião deformada, reduzida a instrumento de dominação, prestígio ou lucro. Sua crítica mais severa nunca foi dirigida aos que erravam por fragilidade, mas aos que transformavam a fé em aparência moral. Ele não se alinharia ao cristão odioso que usa o nome de Deus para ferir, nem ao machismo camuflado de tradição, nem ao preconceito travestido de idealismo. A fé que exclui deixou de ser fé; tornou-se apenas ideologia religiosa.
Essa distorção se manifesta hoje com força nas redes sociais, onde a espiritualidade foi capturada pelo espetáculo e pelo julgamento. O que deveria ser encontro tornou-se tribunal, e o discurso religioso passou a justificar linchamentos morais. Jesus, porém, nunca formou acusadores. Sua ética nasce da escuta, do encontro e da responsabilidade pelo outro. Onde a fé se transforma em palco, o amor se ausenta.
No plano social, a mesma lógica de distorção se repete. Jesus não se aliaria nem à ganância que diviniza o mercado, nem ao pobre que, negando a própria condição, passa a reproduzir o discurso de quem o oprime na esperança de aceitação e reconhecimento. Cristo não propôs ascensão por imitação do opressor, mas libertação pela reconciliação com a própria dignidade. O Reino anunciado por Ele não exige que os últimos deixem de ser quem são para existirem.
Da mesma forma, Jesus não se deixou capturar pela política travestida de altruísmo. Recusou o poder quando este exigia troca, cálculo ou manipulação da consciência. Ele sabia que a compaixão verdadeira não pode ser instrumento, nem a justiça pode servir a projetos pessoais. Onde o amor vira estratégia, já não é amor.
A filosofia de Cristo, em sua essência, é uma convocação existencial: assumir a própria liberdade como responsabilidade. “Quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la” não é convite à anulação, mas à libertação do ego que aprisiona. Jesus espera de nós consciência crítica, coerência ética e coragem para viver a verdade, mesmo quando ela custa.
Num mundo em crise, Jesus não espera seguidores barulhentos nem religiosos performáticos. Espera seres humanos inteiros, reconciliados consigo mesmos, capazes de amar sem negociar a própria consciência. E talvez essa seja, ainda hoje, a forma mais elevada de fé.








