Flávio busca eleitor de centro, avalia vice e acena ao mercado

A campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) orientou o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro a adotar a moderação como principal estratégia para atrair eleitores de centro e reduzir a rejeição. Faltando oito meses para o pleito de 2026, o pré-candidato a presidente deve utilizar o mesmo tom para tranquilizar agentes do mercado financeiro que ainda resistem a embarcar na candidatura do congressista fluminense ao Palácio do Planalto.

Em reserva, uma fonte do núcleo duro da campanha presidencial contou à Gazeta do Povo que Flávio proporá uma candidatura “menos bélica” e focada em temas que possam interessar mais ao eleitor que costuma mudar de opinião a cada eleição presidencial. Mas, mesmo nesse contexto, a defesa de seu pai e as críticas ao Supremo Tribunal Federal (STF) continuarão como temas centrais e dialogam com as demandas do eleitorado de direita. Mas é na crítica à pauta econômica do governo de Luiz Inácio Lula da Silva que o senador planeja ampliar sua votação, principalmente ao tratar sobre questões como corte de gastos, inchaço do Estado, juros e inflação.

“Há uma fadiga, há uma clareza na cabeça das pessoas que votaram com o Lula em 2022. Grande parte dessas pessoas já se arrependeu. O que mais a gente vê nas redes sociais são pessoas simples […] criticando. ‘Já votei no lado de lá, mas agora não me engana mais’. Isso que eu acho que vai acontecer no país todo, em especial no Nordeste […]. De acordo com o pré-candidato do PL, o que se vê é o “derretimento do Lula no Nordeste e cada vez mais uma consolidação do Bolsonaro”, disse Flávio em entrevista ao jornalista Paulo Figueiredo.

A fala do senador vem na esteira da pesquisa do PoderData* de janeiro deste ano, que mostrou que Lula é aprovado por 34% e desaprovado por 57%. Outros 9% não souberam responder. Quando o dado é estratificado por região, 46% dos entrevistados no Nordeste aprovam Lula, enquanto 45% o rejeitam. No levantamento feito pelo mesmo instituto** em dezembro do ano passado, na mesma região, o petista registrava 50% de aprovação e 46% de rejeição.

Flávio aposta no equilíbrio das contas públicas para agradar o mercado financeiro

Ainda de acordo com o interlocutor da campanha de Flávio, o senador tem buscado tranquilizar o mercado financeiro com promessas de que irá equilibrar as contas públicas, caso vença a disputa pelo Palácio do Planalto. Atualmente, a principal reclamação do setor em relação ao governo Lula é de que, entre outros fatores, o desequilíbrio fiscal pressiona a taxa de juros, hoje em 15%.

A taxa Selic está no maior nível desde julho de 2006, quando chegou a 15,25% ao ano. A Selic é o principal instrumento do Banco Central para alcançar a meta de inflação. Quando o percentual está elevado, o crédito encarece, o consumo das famílias é reduzido e a atividade econômica desacelera.

O diálogo com o mercado também busca posicionar Flávio como um candidato capaz de resolver problemas considerados mais “técnicos” pelos investidores, que viam no governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), o nome ideal para a disputa contra Lula. Mas Tarcísio já declarou apoio a Flávio e disse que irá concorrer à reeleição ao governo paulista.

Nesse cenário, a campanha presidencial do filho de Bolsonaro deve explorar as manobras contábeis do governo petista para maquiar as contas públicas. Segundo dados do Tesouro Nacional, as contas do governo registraram um rombo de R$ 61,7 bilhões em 2025, mas o valor não considera exceções.

O cálculo leva em conta apenas gastos computados para fins de cumprimento da meta fiscal. Ao todo, foram excluídos dessa conta R$ 48,7 bilhões, divididos entre precatórios, ressarcimentos a beneficiários do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), despesas temporárias de educação e saúde e projetos estratégicos de defesa nacional.

Para o cientista político Elton Gomes, professor da Universidade Federal do Piauí (UFPI), a pauta econômica tende a ser um dos principais diferenciais da campanha presidencial de Flávio Bolsonaro, ao lado de temas como combate à corrupção, segurança pública e, de forma lateral, relações internacionais. Segundo ele, o debate econômico historicamente ocupa papel central nas eleições brasileiras e pode ser decisivo para capturar votos fora dos polos ideológicos.

“Uma parte significativa dos eleitores que votaram em Lula nas eleições passadas o fez na expectativa de melhora das condições econômicas, sobretudo por meio de ajuda governamental”, afirma.

Na avaliação do professor, no entanto, o atual cenário fiscal abre espaço para críticas da oposição. “A gestão perdulária do governo atual, com elevado déficit público, juros altos e o retorno da inflação, especialmente nos alimentos, pode ser explorada pela oposição para angariar votos.”

Flávio também acena para possível vice de centro

A composição da chapa presidencial de Flávio Bolsonaro também deve seguir a linha do centro. Apesar de o pré-candidato do PL evitar o assunto publicamente, a avaliação nos bastidores da campanha é de que a escolha de um vice com perfil moderado pode ser decisiva para ampliar o alcance da candidatura junto ao eleitorado centrista.

Três nomes estão em análise: o governador do Paraná, Ratinho Júnior (PSD); o governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo); e a senadora Tereza Cristina (PP-MS). No caso da parlamentar, aliados avaliam que a presença de uma mulher com ligação ao agronegócio poderia contribuir para atrair o eleitorado feminino e ampliar o leque de apoios da chapa.

Entre os nomes cotados, Romeu Zema permanece na corrida ao Palácio do Planalto, e o apoio do chefe do Executivo mineiro é visto como potencialmente decisivo em Minas Gerais, estado que concentra o segundo maior colégio eleitoral do país e teve papel central nas últimas disputas presidenciais.

Minas Gerais passou a ser conhecido como “estado pêndulo” pelo peso que exerce no resultado das eleições nacionais. Nas últimas eleições, os presidentes eleitos venceram no estado, o que reforça a percepção de que quem triunfa em Minas acaba chegando à Presidência da República — fator que coloca o pré-candidato do Novo como uma peça-chave na oposição ao projeto de impedir a continuidade da gestão federal petista.

Já no caso de Ratinho Júnior, o apoio do PSD e a popularidade de seu pai, o apresentador Carlos Roberto Massa, o Ratinho, são vistos nos bastidores como ativos eleitorais relevantes para a candidatura de Flávio. A avaliação é de que a associação com um nome bem avaliado no Sul do país pode ajudar a ampliar o alcance da chapa em um eleitorado estratégico.

Além disso, o PSD aparece como peça central nesse cálculo político. Comandado por Gilberto Kassab, o partido foi o que mais conquistou prefeituras nas eleições municipais de 2024, liderando o ranking nacional com 887 cidades. O desempenho reforça a leitura de que o eventual apoio da sigla poderia garantir capilaridade e estrutura à campanha presidencial do filho de Bolsonaro.

Gomes avalia que a escolha de um vice de centro pode reforçar essa estratégia eleitoral. “Historicamente, no presidencialismo de coalizão brasileiro, vices de centro funcionaram bem, como nos casos de José Alencar e Michel Temer, ao oferecer capilaridade partidária, palanque no Brasil profundo e acesso a recursos”, afirma.

Para o cientista político, esse movimento ajuda a atrair o eleitor não ideológico, interessado em melhorias práticas nas condições de vida, como estabilidade econômica, saúde, transporte e segurança pública.

O professor também aponta que a experiência recente pode servir de alerta. “Uma das fragilidades de Bolsonaro na tentativa de reeleição foi não ter escolhido um vice de centro e insistir em um militar. Pode ser que Flávio não cometa o mesmo erro”, opina.

Metodologia: 

*PoderData (01/2026): O PoderData ouviu 2.500 pessoas em 11 municípios de 26 estados e no Distrito Federal, entre os dias 24 e 26 de janeiro de 2026. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, e o nível de confiança é de 95%.

**PoderData (12/2025): A pesquisa PoderData foi realizada de 13 a 15 de dezembro de 2025. Foram entrevistadas 2.500 pessoas com 16 anos de idade ou mais em 133 municípios nas 27 unidades da Federação. Foi aplicada uma ponderação paramétrica para compensar desproporcionalidades nas variáveis de sexo, idade, grau de instrução, região e renda. A margem de erro é de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos.

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