O documentário 'Anatomia do Caos', dirigido pela cineasta Dandara Ferreira, chega aos cinemas para revisitar os turbulentos bastidores da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid-19 no Brasil. A produção traz à tona depoimentos marcantes e a complexa teia de eventos que marcaram um dos períodos mais críticos da saúde pública brasileira, confrontando a dor das vítimas com a busca por responsabilização.
O Impacto Humano da Pandemia na CPI
Entre os momentos mais pungentes registrados pelo documentário está o depoimento do taxista Márcio Antônio do Nascimento Silva, de 57 anos, na CPI da Covid-19, em outubro de 2021. Márcio, que perdeu seu filho Hugo Dutra do Nascimento Silva para a doença, emocionou o país ao declarar: 'Meu filho não é um número. Minha dor não é mimimi', em uma clara alusão às falas do então presidente Jair Bolsonaro. Márcio faleceu em outubro de 2022, aos 58 anos, sem ver a punição dos 78 indiciados pela CPI, que investigou 716.626 mortes por Covid-19 no país.
A CPI da Covid-19, ativa entre abril e outubro de 2021, foi um marco na história política brasileira, reunindo mais de 60 depoimentos de autoridades, médicos e familiares de vítimas. Seu objetivo era investigar as ações e omissões do governo federal durante a pandemia.
Bastidores da Criação de 'Anatomia do Caos'
A cineasta Dandara Ferreira compartilha que a ideia de documentar a CPI surgiu em abril de 2021, logo após sua instalação. Ela percebeu a dimensão histórica do evento, que representava a primeira investigação pública do Estado brasileiro sobre as decisões tomadas durante a maior crise sanitária. O processo se revelou um espaço onde o Brasil confrontava suas escolhas, moldando o foco do filme.
Desafios Emocionais na Produção
Para Ferreira, o maior desafio não foi um dia específico, mas a convivência contínua com o material bruto, que era 'emocionalmente muito duro'. Ela destaca a situação de Manaus, com a falta de oxigênio e o desespero das famílias, como um ponto de ruptura que evidenciou que a crise era agravada por 'escolhas humanas', não apenas pela pandemia.
Impunidade e o Papel da Memória
Apesar da CPI ter proposto o indiciamento de 78 pessoas, incluindo o ex-presidente Jair Bolsonaro, nenhuma condenação ocorreu. Dandara Ferreira reflete que isso 'revela uma característica muito profunda da história brasileira: nós temos dificuldade em transformar traumas em responsabilização', apontando para uma cultura de impunidade em relação às grandes responsabilidades do Estado.
Contudo, a diretora enfatiza que a CPI não foi inútil, pois construiu um 'registro histórico extremamente sólido sobre como a pandemia foi conduzida', um 'patrimônio documental' que permanece. Ela questiona: 'Que país é esse em que uma tragédia desta dimensão pode não produzir consequências proporcionais?' Nesse contexto, o cinema desempenha um papel crucial ao trabalhar com a memória, essencial para que a democracia não perca sua capacidade de exigir responsabilidade. Dandara expressa tristeza e indignação ao ver o filme e saber que muitas das mais de 700 mil mortes no país poderiam ter sido evitadas.
Fonte: https://saude.abril.com.br








