O fisiculturista Gabriel Ganley, de 22 anos, foi encontrado morto em sua residência em São Paulo. Com mais de 1,5 milhão de seguidores nas redes sociais, Ganley discutia abertamente o uso de hormônios anabolizantes. A polícia investiga a morte, classificada como suspeita, e embora a causa oficial não tenha sido confirmada, a imprensa sugere um pico de hipoglicemia.
A hipoglicemia ocorre quando os níveis de açúcar no sangue caem perigosamente. No contexto do fisiculturismo, essa condição pode ser desencadeada pelo uso de insulina em protocolos de ganho muscular. Especialistas consultados por VEJA SAÚDE alertam que o caso sublinha os perigos do uso indiscriminado de medicamentos, especialmente hormônios como insulina e testosterona, para hipertrofia.
Clayton Macedo, diretor da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem), contesta a ideia de segurança com acompanhamento médico, afirmando: “Provavelmente dirão que o problema é que ele fazia o uso ‘underground’, por conta própria, e vemos na mídia, inclusive propagada por médicos, a ideia de que com acompanhamento médico a estratégia é segura, mas isso não é verdade.”
Funções da Insulina no Fisiculturismo
A insulina, hormônio naturalmente produzido pelo pâncreas, é vital no metabolismo da glicose, direcionando o açúcar para as células como fonte de energia. Seu principal uso médico é no diabetes, tratando a deficiência ou resistência à insulina. O ortopedista Carlos Eduardo Viterbo, que adverte sobre os riscos dos anabolizantes, explica as três funções cruciais da insulina para fisiculturistas.
Ação Anabólica e Crescimento Muscular
Primeiramente, a insulina possui efeito anabólico, transportando glicose para os músculos e promovendo o crescimento tecidual. Macedo ressalta que pacientes com diabetes descompensada perdem massa e peso, evidenciando a importância da insulina neste processo.
Contrabalanço do Hormônio do Crescimento (GH)
Em segundo lugar, especialmente para atletas da categoria 'open' – cujo objetivo é o máximo volume muscular –, a insulina contrapõe a ação do hormônio do crescimento (GH), outra substância comum em protocolos. O GH pode desregular o metabolismo da glicose, levando à hiperglicemia, o que a insulina tenta evitar.
Auxílio na Fase de Bulking
Finalmente, a insulina é utilizada na fase de 'bulking', etapa em que fisiculturistas ingerem quantidades elevadas de calorias para ganhar peso. A substância otimiza a absorção e aproveitamento da glicose pelo organismo. Ganley chegou a compartilhar em suas redes os efeitos colaterais de uma ocasião em que ganhou 20 quilos em poucos dias.
Riscos Fatais da Hipoglicemia por Uso Indevido
A insulina deve ser administrada apenas por indivíduos com deficiência do hormônio e sob estrita indicação médica. Fora desse cenário, seu uso é perigoso, causando quedas abruptas nos níveis de glicemia, que podem ser fatais. Numa crise de hipoglicemia, há falta de energia para os órgãos, principalmente o cérebro.
Para se proteger, o corpo libera hormônios contrarreguladores, como a adrenalina, que elevam a frequência cardíaca, provocando taquicardia e arritmia, conforme Macedo. Se não tratada a tempo, a crise pode evoluir para coma e, subsequentemente, morte.
O Perigo da Polifarmácia e Substâncias Ilegais
Macedo aponta que, para fisiculturistas, a insulina pode ser o fator decisivo em um organismo já sobrecarregado por outras substâncias. Ganley, por exemplo, falava abertamente sobre o uso de hormônios anabolizantes derivados da testosterona.
O uso estético de anabolizantes é proibido no Brasil pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) e pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) devido aos seus riscos. Contudo, essas substâncias são facilmente encontradas no mercado clandestino e, por vezes, são prescritas de forma inadequada por médicos. Muitos desses produtos, como trembolona e clembuterol, são de uso veterinário e administrados em doses elevadíssimas, com efeitos colaterais imprevisíveis. Além dos músculos visíveis, os anabolizantes também causam hipertrofia de órgãos internos, como o coração, resultando em graves problemas cardiovasculares.
Fonte: https://saude.abril.com.br








