Ela já não precisa mais de apresentação: todo mundo já sabe que em Caraíva, não há carro nem asfalto, que a chegada é de canoa e que o Wi-Fi pode simplesmente sumir no meio do jantar. O que muda, ano após ano, é o que está pulsando lá dentro — quem está cozinhando, para onde os buggys estão indo, qual pastel está com fila… E é justamente esse movimento miúdo, essa vila que se reinventa sem perder o chão de areia, que me faz querer voltar sempre com minha família. É por ter vivido experiências únicas por ali que separei para este artigo o que realmente vale a parada agora, com um olho em quem também viaja com crianças.
Onde comer: o que está em alta?
Se tem um assunto sério em Caraíva, é comida. E o nome que ninguém escapa de ouvir é o do KOA, à beira do rio, comandado pelo chef Alexandre Suda. A brincadeira da casa é literal: você deixa o chinelo numa fila antes mesmo de abrir, e só depois é chamado para a mesa. Vale a espera — os peixes na brasa justificam o hype todo. Com crianças pequenas, prefira ir cedo e já avisado sobre a fila; para os maiores, faz parte da aventura.
Bem diferente em ritmo, mas igualmente disputado, é o Comune, de frente para o Rio Caraíva — gastronomia mais elaborada, entradas caprichadas como o tartare de atum, e uma vista que estica o jantar até o breu total tomar conta do rio. Funciona bem em família, mesa tranquila e sem pressa.
Para o programa mais descontraído do fim de tarde, nada supera o Boteco do Pará: décadas de existência, mesas debaixo das amendoeiras e o pastel de arraia que virou lenda local. É ali que a vila inteira se encontra para ver o sol sumir no rio — e é pra mim, sem dúvida, o mais fácil com criança: informal, ao ar livre, ninguém liga se a bagunça é grande.
Já o Odara puxa para o lado mais chique da vila, com uma carta de drinks à altura — ótimo para uma noite a dois, menos indicado se a ideia é levar os pequenos.
O Culinária Central é sempre a recomendação mais unânime que ouço por lá: frutos do mar frescos, moqueca generosa, preço justo para os padrões (nada baratos) de Caraíva, e ainda tem opções vegetarianas. Um dos mais tradicionais de Caraíva, e funciona muito bem em família.
Vale reservar também uma noite para o La Dolina, um pedacinho da Argentina bem na praça da igrejinha. O destaque fica por conta das empanadas e das carnes na brasa — ótimo para quem for emendar o passeio até lá com o jantar.
Do lado do peixe cru, Caraíva amadureceu muito. O Âmbar Sushi ganhou fama pelo atum fresquíssimo e pelas combinações autorais com releituras que respeitam a culinária japonesa; o Mangue Sushi é mais descontraído, com drinks autorais e um clima de bar que agrada todo mundo, do casal em lua de mel ao grupo de amigos.
E, se a fome bater no meio da tarde ou depois da praia: o Krug Beer, na praça da igreja, é uma das minhas paradas preferidas para uma pausa mais informal, e o hambúrguer surpreende. Já a Tapioca da Paty — sim, aquela que fica aberta até tarde — resolve qualquer beliscada fora de hora; a tapioca de carne seca com molho de berinjela é praticamente obrigatória.
Dois passeios em um só dia
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Se o tempo em Caraíva for curto, uma combinação que funcionou muito bem para nós foi aldeia Pataxó + Ponta do Corumbau, no mesmo dia. Sai-se de buggy pela praia, ainda com a maré baixa, com parada na Reserva Porto do Boi. A experiência inclui a vivência de rituais e tradições Pataxó, como pintura corporal, banho de descarrego com ervas e uma degustação de peixe assado na folha de patioba, acompanhado de farinha de mandioca e banana-da-terra. É um contato real com a cultura pataxó, guiado por quem vive ali, e funciona bem com crianças mais curiosas (vale calibrar a expectativa se os seus forem muito pequenos, porque o ritual pede um pouco de paciência.)
Dali, o buggy segue até a travessia de canoa no Rio Corumbau e, do outro lado, alguns minutos de caminhada levam à Ponta do Corumbau — uma língua de areia que avança mar adentro na maré baixa, formando piscinas naturais. É, para mim, uma das paisagens mais bonitas do sul da Bahia.
Outros programas que são unanimidade em família
A descida de rio de boia é, sem exagero, o passeio-símbolo de Caraíva — e o preferido dos meus filhos. Uma lancha leva o grupo rio acima até a Prainha e, no momento certo da maré, todo mundo desce boiando de volta, num ritmo manso que varia conforme as condições do rio e a fase da lua.
A Praia do Espelho, a cerca de quarenta minutos, também virou clássico de quem viaja com crianças: piscinas naturais e trechos de águas tranquilas na maré baixa, estrutura de pousadas e restaurantes na areia, e a possibilidade de ir de buggy ou lancha sem enfrentar a caminhada mais castigada pelo sol.
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Caraíva segue sendo aquele lugar que resiste ao tempo por teimosia coletiva: moradores, pousadas, barqueiros, todo mundo cuidando junto para que a vila não perca a alma. O que muda é só a superfície: um restaurante novo, uma fila diferente. O fundo — o rio, as canoas e o clima despretensioso — esse permanece exatamente como sempre foi.
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Nota: Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Vogue Brasil.
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