• supper clubs apostam na mesa como lugar de conexão


      Compartilhar uma refeição à mesa com desconhecidos pode parecer um gesto pouco usual. Mas, à medida que as relações estão mais distantes e centradas em telas, partilhar um jantar com quem não se conhece ganha um novo apelo. A tendência não é novidade: há séculos, civilizações se reúnem ao redor de mesas para compartilhar muito mais do que comida. Durante o Renascimento, os banquetes organizados pela nobreza significavam mais do que opulência e demonstrações de poder: eram instrumentos de propaganda política, ocasiões para celebrar alianças e reafirmar hierarquias.

      Essa tradição para aproximar desconhecidos ajuda a entender a ascensão dos supper clubs– que remonta aos Estados Unidos dos anos 1930 e guarda relação com o período da Lei Seca – e dos jantares compartilhados, fenômeno que vem ganhando força nas grandes metrópoles ao redor do mundo. Segundo o WGSN, o aumento na procura por experiências gastronômicas autênticas reflete mudanças no comportamento: o desinteresse por festas de grandes proporções dá lugar a encontros mais intimistas; a abertura para experimentar novas cozinhas e, sobretudo, a busca por socialização e relações reais em um mundo hiperconectado.

      “Pelo olhar do marketing de experiência, a exclusividade sempre foi um pilar de diferenciação. Hoje, percebemos que esse lugar tem se deslocado da posse para a presença”, diz Fabiana Horta, consultora de negócios de alimentos e bebidas. “É possível a qualquer um com dinheiro ter bens materiais, mas não se sentar à mesa com determinado grupo de pessoas. Nos novos modelos de jantar, o que conta é o anfitrião e o que ele gostaria de demonstrar naquele encontro.”

      Na prática, a proposta de um supper club é simples: em vez de reservar uma mesa no restaurante com os amigos de sempre, chega-se sozinho para dividir uma refeição com desconhecidos em ambientes intimistas, como a casa do próprio chef. “Nada mais especial do que algo pensado para você.Oque impressiona o comensal é a mobilidade da hospitalidade em parar, ouvir e acolher pequenos detalhes para adaptar e criar”, complementa a consultora.

      Um dos principaos objetivos do modelo é expandir o círculo social. Rodrigo Barradas é português, da região do Alentejo, e viveu, nos últimos dez anos, em diversas cidades ao redor do globo, mas foi na Cidade do México que encontrou inspiração para criar um supper club paulistano, o Sussurro: “Alguns amigos já estavam em outra fase da vida, casados, com filhos. Não há mais vontade de estar na balada, na madrugada, mas ainda existe o desejo de se relacionar”. A primeira edição do Sussurro aconteceu em dezembro de 2025. “O que eu mais via na cidade eram grupos relacionados ao wellness. Senti que existia um gap. As gerações mais conectadas da história são também aquelas que sentem a maior falta do coletivo. A intimidade se tornou um luxo”, comenta.

      Sem um calendário definido e com uma cadência mais livre, Rodrigo traz, para suas noites selecionadas, mesas compartilhadas em lugares inusitados – até agora, galerias de arte e um espaço secreto em Pinheiros foram palco de seus jantares. A ideia é também variar os chefs e ofertar sempre algo novo para os convidados. Para participar, é necessário preencher um questionário, após contato prévio na DM do Instagram @susurrosupperclub: “Daí vem o match ideal entre aqueles que irão se sentar à mesa”, explica. Neste ano, mais duas edições estão programadas:uma na segunda quinzena de outubro e outra em dezembro. “A novidade é que elas terão um ‘afterzinho’. Algo leve, até as duas da manhã.”

      Na capital da Bahia, o relações públicas Isac Hora uniu sua paixão, a arte contemporânea, à gastronomia, área em que trabalha, para um novo negócio genuinamente baiano, o Arte Bahia (@artebahia.art), em colaboração com seu parceiro, o fotógrafo Gabriel Matos. “Em 2024, o clube privado Resid me procurou para desenhar experiências para seus membros numa viagem a Salvador. Eu tinha amigos chefs de cozinha e já estava no mundo da arte. Assim,juntei os pilares e levei o grupo para a Casa Ritual, no Farol de Itapuã. É um espaço que fechado ao público e tem uma coleção de arte absurda. Ali, aconteceu o almoço, batizado de ‘Passar uma Tarde em Itapuã’ para convidados, que se sentaram e não quiseram mais ir embora”, conta ele.

      A criação dos eventos acontece conforme a demanda de clientes, que trazem seus próprios convidados para partilhar a mesa. As programações tomam estúdios, casas de artistas e espaços que fogem do convencional, especialmente no Centro Histórico e em bairros como Santo Antônio Além do Carmo. Todo o cenário constrói uma narrativa que vai além da gastronomia, em encontros nos quais chefs discorrem sobre ingredientes e materializam a Bahia no prato. Nomes como Fabrício Lemos (à frente do Grupo Origem) e Nara Amaral (Di Janela) já participaram dos eventos. “O maior atrativo é a exclusividade, o que o dinheiro não compra.Os visitantes sentem falta de conhecer profundamente a cidade. E nada mais perfeito do que começar pela gastronomia e pela arte”, finaliza Isac.

      “São Paulo. Oito lugares. 20 horas.” É assim que os jantares itinerantes batizados de La Table duChef, do chef Patrick Prado e seu Pour Vous Gastronomia, são descritos em seu site de reservas. Dentro da cozinha, um laboratório para foodie nenhum botar defeito, repleto de utensílios, que recebe poucas pessoas por noite nas datas abertas, anunciadas de tempos em tempos. Todas elas estão esgotadas até o fim de novembro de 2026, mas há possibilidade de entrar na lista de espera.

      O menu de seis etapas começa com as gougères e percorre clássicos da gastronomia francesa, com abundância de molhos e ingredientes primorosos.Durante os jantares, a proximidade dos clientes como chef dá o tom. O balcão, que separa cozinheiro e comensal, circunda a ilha de trabalho e serve como apoio para a finalização dos pratos de cada etapa. Ou seja, é um espetáculo ao vivo que vira, indiscutivelmente, assunto.





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