A faixa-título e música de abertura do novo álbum de Troye Sivan, She’s the Best, foi lançada como single principal acompanhada de um clipe que viralizou, com Nicole Kidman esbanjando sensualidade em um bar decadente e Sasha Colby desfilando pelas ruas do centro de Nova York, com vapor saindo das grades de ventilação. A canção é uma homenagem às mulheres que fizeram parte da formação do artista. Já as últimas palavras que se ouvem no disco são de uma amiga próxima de Sivan, Lily-Rose Depp, que canta em francês sobre a tristeza doce e persistente de um amor que não durou.
Considerado como um todo, porém, She’s the Best percorre caminhos menos previsíveis. Vai da irreverente e agitada “Party” aos sintetizadores psicodélicos e crescentes de “Le Boy”, uma faixa eufórica que está entre as melhores de sua carreira, passando por uma sequência de músicas em que a autoconfiança dá lugar à vulnerabilidade e Sivan se vê desejando alguém com quem possa dividir a vida. Perto do fim, aparece “FF”, abreviação de “Fuck Forever”, single que o artista lança hoje acompanhado de um clipe cinematográfico ambientado em Fire Island, dirigido por Gordon von Steiner, seu colaborador frequente e diretor criativo. Na música, ele imagina um romance futuro tão sólido e duradouro quanto uma casa projetada por um arquiteto, feita de “concreto e aço”.
O resultado é surpreendentemente vulnerável: um álbum marcado pela melancolia, que aos poucos dá lugar a uma confiança conquistada a duras penas, culminando em uma espécie de afirmação pessoal. O disco também apresenta a paleta sonora mais ampla de Sivan até hoje. She’s the Best reúne algumas das produções mais minuciosas que você ouvirá neste ano, passando com naturalidade pelo trip-hop, house, shoegaze, breakbeat e pop orquestral extravagante, com doses certeiras de estranheza. Para este trabalho, Sivan ampliou o grupo de compositores e produtores com quem costuma trabalhar. Além de seus parceiros habituais Leland e Oscar Görres, colaborou com nomes como Jack Antonoff, George Daniel e seu irmão mais novo, Tyde Levi. Pela primeira vez, também assumiu funções de produção no próprio álbum.
A diferença entre os primeiros singles e o lado mais introspectivo de She’s the Best não foi uma tentativa deliberada de enganar o público, explica Sivan. Ele conversa com a Vogue do apartamento que está alugando em Nova York, nas semanas que antecedem o lançamento, com o sobrinho ainda bebê sentado em seu colo. A escolha das músicas que apresentariam o disco aos fãs aconteceu de maneira intuitiva: as duas primeiras do repertório, “She’s the Best” e “Party”, pareciam o ponto de partida natural para um álbum que, dali em diante, seguiria por diferentes direções, explorando os extremos do hedonismo, a solidão, o desejo e, por fim, retornando à presença acolhedora das mulheres que o ajudaram a seguir em frente.
Vogue: O álbum acaba de chegar. Como você está se sentindo?
Troye Sivan: Acho que é aquela sensação de… Sabe quando você está prestes a fazer uma prova, já fez tudo o que podia e só resta se entregar à experiência? É onde estou agora. Lançar um álbum é uma experiência muito estranha porque, de repente, ele simplesmente aparece no seu celular. Você olha e pronto, está ali. Mas, no geral, estou muito feliz e animado para que as pessoas escutem. Acho que este álbum, mais do que os outros, precisa ser ouvido por inteiro para que sua história seja realmente compreendida. Foi interessante escolher os singles porque o disco inteiro gira em torno de contrastes, contradições e tensões. Foi muito difícil escolher uma única música que representasse tudo isso.
Vogue: É curioso você dizer isso porque, depois de ouvir o álbum inteiro, ele vai para lugares que não seriam necessariamente esperados a partir dos dois primeiros singles. Por que escolheu justamente essas músicas para apresentar o projeto?
Troye Sivan: Quando parei para olhar o álbum como um todo e percebi como era difícil defini-lo por meio de singles, quis escolher aquela música que tem o significado mais importante para mim. Dei ao disco o nome She’s the Best porque toda essa jornada, com seus altos e baixos e suas tensões, encontra uma espécie de antídoto na própria música “She’s the Best”. Ela fala sobre a única coisa na minha vida que me transmite estabilidade. Fiquei realmente dividido entre colocá-la no fim ou no começo do álbum. Mas gostei da ideia de abrir o disco com ela e dar esse nome ao trabalho porque, no fim das contas, quando eu olhar para este período da minha vida daqui a dez anos, não quero me lembrar da solidão, da turbulência, dos caras aleatórios com quem estou tentando sair e de toda essa saudade de algo que nem sei se vai acontecer. Prefiro me lembrar das pessoas que realmente estiveram ao meu lado.
Vogue: Algumas das músicas que mais me chamaram a atenção são canções de amor dedicadas a um romance futuro, alguém que talvez você ainda nem tenha conhecido. Não é fácil encontrar uma abordagem nova para uma canção de amor, mas essa ideia me parece bastante original. Foi catártico escrever essas músicas? Elas ajudaram você a processar esses sentimentos?
Troye Sivan: Não foi algo totalmente intencional enquanto eu estava compondo. Era simplesmente o que estava acontecendo na minha vida. Quando percebi que havia um fio condutor entre as músicas, cheguei a pensar em chamar o álbum de Le Boy, que é a sétima faixa, porque muitas delas foram escritas para essa figura. Mas, voltando ao que disse antes, tive uma conversa comigo mesmo e pensei: sério? Quero mesmo dedicar esse trabalho inteiro a um cara que nem existe? Não. Quero me concentrar no que é real.
Ajudou? Sim, acho que sim. Sempre usei a música como uma forma de catarse, mas também não diria que muita coisa mudou desde então. Então talvez não tenha ajudado tanto assim! [Risos.] Definitivamente foi bom… Bom talvez seja uma palavra forte demais, porque não diria que essas músicas foram sempre divertidas de escrever. Mas, quando comecei a pensar no álbum e na direção que queria seguir, havia uma coisa à qual eu sempre voltava: a única abordagem que você pode defender sem medo, que não deixa brechas, é ser honesto. Às vezes isso é desconfortável, mas é o que sempre fiz e acho que é o que sempre vou fazer. Então pensei: tudo bem, talvez este não seja necessariamente um álbum cheio de músicas para dançar à beira da piscina. Mas é verdadeiro, e é o melhor que posso oferecer.
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Vogue: Imagino que, independentemente de essas músicas ajudarem você a atravessar esses sentimentos ou não, elas provavelmente vão fazer alguém que as escute se sentir menos sozinho. Existe uma certa vergonha em admitir esse desejo e essa vulnerabilidade por alguém que você ainda está imaginando, mas é algo universal. Eu já senti isso.
Troye Sivan: Espero que sim. Estou muito, muito curioso para saber o que essa pessoa vai achar. Um dia, quando eu finalmente a conhecer. Ou ele vai achar muito romântico o fato de eu ter escrito músicas sobre ele antes mesmo de nos encontrarmos, ou vai considerar isso um sinal de alerta e desistir completamente da ideia. [Risos.] Pode acontecer qualquer uma das duas coisas. Vamos ver.
Vogue: A produção do disco é brilhante e, por si só, já proporciona uma verdadeira jornada. Li que, no passado, você estava sempre tentando alcançar e aperfeiçoar a canção pop perfeita, mas que, neste álbum, não teve medo de deixar as músicas um pouco mais caóticas ou permitir que elas se desenvolvessem de maneiras inesperadas. Pode falar um pouco sobre isso?
Troye Sivan: Basicamente, eu não queria que a música soasse artificial, como algo calculado demais. É claro que as estruturas e as regras da música pop são muito eficientes para transmitir uma história. Mas passei tanto tempo aperfeiçoando isso, trabalhando nessas estruturas e ficando obcecado com cada detalhe, que fiquei interessado em criar algo que parecesse surgir de um lugar mais espontâneo. Então me libertei das expectativas que tinha de mim mesmo como compositor de pop. Em “She’s the Best”, por exemplo, pensei: cantar sobre o quanto adoro as mulheres pode soar paternalista e cafona.
Então, por que não falar isso em vez de cantar? Talvez seja porque estou envolvido demais no processo, mas, quando escuto a música de outras pessoas, presto atenção à produção, e isso me leva mentalmente para dentro do estúdio. Só que eu queria que a minha música desse a sensação de estar acontecendo na vida real. Essa também é uma das razões pelas quais usei tantas amostras de áudio ao longo do álbum. Fiquei fascinado, por exemplo, com o trabalho do The Avalanches e comecei a me perguntar: por que essa música parece tão viva? Acho que é porque você consegue ouvir o mundo dentro dela. Sem dúvida, este é meu álbum mais experimental até agora.
Vogue: Os videoclipes lançados até agora são um dos grandes destaques do projeto. Quando você começou a pensar na parte visual? Já imaginava as imagens enquanto escrevia as músicas?
Troye Sivan: Sim, praticamente desde o começo. Quando estou compondo, deixo duas janelas abertas no computador ao mesmo tempo: em uma, faço anotações; na outra, procuro referências visuais. Para mim, a música é muito visual, embora eu não ache que tenha sinestesia. Tenho minhas dúvidas sobre isso, de modo geral. [Risos.] Mas talvez seja justamente porque não tenho essa condição que não consiga imaginar como seria. De qualquer forma, é uma via de mão dupla: uma coisa inspira a outra, que depois volta a inspirar a primeira, e assim por diante. Encontrar uma boa referência visual pode me colocar em um caminho novo, seja na produção, seja na letra. Ela abre portas, que acabam abrindo outras portas.
Vogue: E qual foi a história por trás do clipe de “FF”? Vocês filmaram em Fire Island?
Troye Sivan: Sim, fomos para Fire Island, e a experiência foi muito especial. Era a minha primeira vez lá, e o lugar me lembrou um pouco a Austrália. É surpreendentemente bonito e tem muita história. Eu queria contar uma história de amor, e aquele lugar me pareceu um cenário lindo para isso. Além disso, depois do videoclipe gigantesco que fizemos para “Party”, acho que Gordon e eu queríamos criar algo que representasse “FF” e o lado mais íntimo do álbum. Queríamos fazer algo simples, cinematográfico e, espero, muito bonito.
Vogue: Há algumas cenas bastante sensuais tanto no clipe de “FF” quanto no de “Party”. É estranho filmar esse tipo de sequência?
Troye Sivan: Acho que, de alguma forma, já fiquei tão acostumado que perdi um pouco a sensibilidade para isso. Não quero acabar com a fantasia de ninguém, porque espero que as pessoas sintam uma química verdadeira quando assistirem aos vídeos. Mas, no fim das contas, é atuação, então não acho tão estranho. É quase como ficar nu durante uma consulta médica. Há um monte de gente ao redor, e você pensa: estamos todos aqui para trabalhar. Alguém grita “corta” e, de repente, você já está de pé, circulando e se preparando para a próxima coisa.
Vogue: Você quis fazer algo diferente com o visual e a moda neste álbum? É a primeira vez que você não aparece na capa do disco.
Troye Sivan: Vejo a moda como mais um braço do conjunto de ferramentas criativas. E acho que o ponto de partida foi não querer parecer que estava usando uma fantasia. Eu realmente queria me sentir eu mesmo. Não queria pintar o cabelo de loiro e assumir uma persona de estrela pop. No álbum anterior, nos divertimos bastante criando uma espécie de versão masculina da Christina Aguilera, com aquelas calças de couro abertas e as tiras. Desta vez, acho que, pela natureza do disco e pelo momento em que estou na vida, queria simplesmente me sentir confortável e mais centrado em mim mesmo. Sei que soa meio clichê, mas a ideia era respeitar o Troye como pessoa, em vez de criar um personagem. E tem sido uma experiência muito libertadora poder simplesmente ser eu mesmo.
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