Diplomacia científica no agro pode auxiliar Brasil com barreiras externas

    Antes das tarifas, a ciência agrícola. Entre os desafios do agro brasileiro no mercado internacional estão as dificuldades de consolidar a pesquisa nacional como uma das referências mundiais sobre agricultura tropical para possibilitar comparar sistemas de produção adotados ao redor do globo, além de ampliar o reconhecimento do que é desenvolvido no Brasil.

    A avaliação é resultado de anos de pesquisa da chefe da Embrapa Gado de Corte e conselheira da Organização Mundial dos Agricultores (WFO), Mariana Pereira, que identifica a persistência de uma visão predominantemente eurocêntrica e norte-americana na definição de parâmetros científicos e produtivos internacionais.

    “A Europa tem ainda uma visão muito errada sobre esses temas e sobre a produção no Brasil, que, ao mesmo tempo, é a maior referência em ciência tropical do mundo”, afirma à reportagem.

    Segundo Pereira, o desconhecimento sobre as pesquisas, tecnologias e práticas produtivas desenvolvidas no Brasil contribui para a formação de barreiras que antecedem até mesmo as restrições tarifárias e comerciais.

    Para superar esse cenário, é necessário ampliar a capacidade de comunicar ao mundo o conhecimento produzido nas instituições de pesquisa e aplicado nas propriedades rurais brasileiras, em um movimento conhecido como diplomacia científica.

    O conceito se refere ao uso da ciência, da pesquisa e da cooperação internacional como instrumentos de aproximação entre países, construção de confiança e influência nas decisões globais. Participam pesquisadores e instituições científicas em fóruns internacionais, o intercâmbio de conhecimento e a produção de evidências capazes de subsidiar políticas públicas, negociações e acordos comerciais.

    No agronegócio, a diplomacia científica ganha relevância diante das diferenças entre os sistemas produtivos de regiões tropicais e temperadas.

    A apresentação de dados científicos sobre produtividade, sustentabilidade, uso da terra e tecnologias adaptadas ao clima tropical pode contribuir para o reconhecimento das particularidades da agricultura brasileira e para a construção de parâmetros internacionais que considerem diferentes realidades produtivas.

    No contexto, a ciência passa a desempenhar também um papel estratégico nas relações comerciais, ao oferecer embasamento técnico para o diálogo com parceiros internacionais e ajudar a enfrentar percepções equivocadas sobre a produção agropecuária brasileira.

    Uma das estruturas que dão suporte à ciência voltada à agricultura tropical no Brasil é o SNPA (Sistema Nacional de Pesquisa Agropecuária).

    Instituído em 1992, o sistema reúne a Embrapa, organizações estaduais de pesquisa, universidades, institutos federais e estaduais, além de outras entidades públicas e privadas ligadas à pesquisa agropecuária.

    A rede tem entre os objetivos desenvolver projetos conjuntos, compartilhar informações científicas e coordenar pesquisas para atender às necessidades de regiões, estados e municípios.

    A organização ajuda a compreender a base institucional da ciência tropical: ao orientar pesquisas pelas demandas regionais, o sistema oferece uma estrutura para desenvolver soluções adequadas às diferentes condições de produção do país, além de cooperação científica.

    A produtora rural Carminha Missio destaca que a integração entre pesquisa de campo no Brasil é uma forma forma de traduzir a “representação de manejos utilizados nas bases produtivas de ponta à ponta no país”, o que faz parte do desafio de “vender bem” a referência brasileira internacionalmente.

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