• Donald Trump impõe à Europa um “preço” por proteção, diz especialista

      A postura de Donald Trump em relação à Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e aos países europeus tem gerado crescente tensão geopolítica.

      Segundo o especialista Sandro Teixeira Moita, professor de Ciências Militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme), Trump está deixando claro para a Europa que a proteção americana tem um preço: o alinhamento com a agenda estratégica dos Estados Unidos.

      Em entrevista ao WW desta quarta-feira (24), Moita destacou que a questão não é exatamente uma novidade. “Em vários momentos ele lembrava que vários compromissos que os europeus estavam colocando em execução tinham sido assumidos com o ‘Trump 45’ [como 45º presidente dos EUA], a partir de 2017”, destacou o professor.

      Para Moita, a visão de Trump é clara: os aliados europeus não são tratados como parceiros, mas sim como estados que devem ser pressionados ao máximo para seguir a vontade americana. “São quase que vassalos da vontade de Trump e de seu grupo no poder”, afirmou o especialista.

      Essa lógica, segundo ele, fica ainda mais evidente quando se observa o perfil das figuras que compõem a elite do Pentágono, como Pete Hegseth, o general Anthony Tata, e Elbridge Colby, este último descrito como totalmente favorável ao pivô para o Pacífico e à contenção da China.

      Crise no comando militar

      Moita também chamou atenção para uma crise em curso no exército americano: o pedido de passagem à reserva do general Christopher Donahue, atual comandante supremo aliado na Europa.

      Segundo o especialista, Donahue é uma figura de grande respeitabilidade, com longa carreira nas operações especiais, presente em praticamente todos os grandes conflitos americanos desde a Guerra do Golfo.

      “Ele é um dos mais vocais apoiadores da Ucrânia que existem hoje dentro do Pentágono”, afirmou Moita, ressaltando que a saída forçada do general evidencia as prioridades do atual governo americano.

      Outro episódio que ilustra a pressão americana sobre os europeus envolveu a Itália. Moita lembrou que Trump revelou publicamente que a Itália apoiou mais de 500 voos de aeronaves americanas a partir de bases italianas durante as operações contra o Irã.

      A declaração gerou imediata repercussão política no país europeu, com pedidos da oposição italiana para que o governo explicasse a natureza desses voos. Isso porque a primeira-ministra italiana havia afirmado anteriormente que os voos eram apenas logísticos e de apoio técnico, e não voos de ataque. “Com essa revelação, isso fica muito pior”, avaliou o especialista.

      Autonomia estratégica europeia

      Moita observou que, embora os europeus venham discutindo autonomia estratégica desde 2017, a execução concreta dessas iniciativas não tem avançado na velocidade necessária, nem para atender às demandas americanas, nem para suprir adequadamente a própria Ucrânia. Esse vácuo, segundo ele, é justamente o espaço que Trump aproveita para pressionar os aliados.

      O especialista citou ainda declarações feitas por Mark Rutte no Salão Oval, nas quais ele mencionou o chamado “trilhão do Trump”: US$ 1,2 trilhão gastos pelos europeus em defesa desde o primeiro mandato de Trump, sendo US$ 300 bilhões desse total investidos no complexo industrial militar americano desde o início do atual mandato.

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