O boom da inteligência artificial tem gerado grande animação nos mercados globais pelos potenciais ganhos de produtividade que a tecnologia promete entregar à economia mundial.
No entanto, antes que esses benefícios se concretizem, a economia global deverá enfrentar pressões inflacionárias significativas decorrentes da expansão acelerada do setor. Esse é o diagnóstico apresentado pela Reach Capital em sua carta de junho.
Em entrevista, Igor Barenboim detalhou os mecanismos pelos quais a inteligência artificial já está gerando inflação e os desafios que isso impõe às autoridades monetárias ao redor do mundo.
Transferência de riqueza e gargalos de oferta
O que está ocorrendo atualmente, segundo Barenboim, é uma transferência de riqueza das chamadas “hyperscalers” — empresas que investem maciçamente em tecnologia, como Apple, Amazon, Google, OpenAI e Anthropic — para os fornecedores de infraestrutura computacional.
“A Goldman Sachs está estimando que vai ter um investimento de US$ 5,3 trilhões em capacidade para produzir, permitir que você vá lá e escreva o que você quer na inteligência artificial e ela faça para você”, afirmou.
Esse volume colossal de investimento esbarra em gargalos de oferta, uma vez que não há fábricas suficientes produzindo os componentes necessários, o que pressiona os preços para cima.
Barenboim destacou que empresas como Nvidia, SK Hynix e Micron, fabricantes de processadores e memórias essenciais para a IA, tornaram-se protagonistas desse movimento. “A inflação é bastante alta nesses setores”, afirmou.
Ao mesmo tempo, o economista alertou que o setor de inteligência artificial está “sugando o capital de todos os outros setores”, criando o que ele descreveu como uma “economia em formato de K“: quem está ligado à tecnologia cresce, enquanto quem não está enfrenta dificuldades.
O desafio para os bancos centrais
Esse cenário dual impõe um dilema complexo às autoridades monetárias. “O Fed só tem um instrumento. Ele precisa, com uma taxa de juros, calibrar esses dois setores — um está com o pé no forno e outro com a cabeça no freezer”, ilustrou Barenboim.
O economista ressaltou que esse é o grande desafio enfrentado por Kevin Walsh, que busca equacionar a política monetária diante de uma economia profundamente dividida.
Questionado sobre se os bancos centrais já deveriam incorporar o impacto da IA em suas projeções de inflação, Barenboim foi categórico: “Não tenha dúvida, acho que isso já é uma coisa que está acontecendo, em especial nos Estados Unidos”.
Para o Brasil, avaliou que o impacto ainda é marginal, mas ponderou que se trata de um choque de oferta sobre o qual o Banco Central tem pouca capacidade de atuação direta.
IA e o mercado de trabalho
Sobre os impactos no mercado de trabalho, Barenboim adotou uma postura cautelosamente otimista. Ele argumentou que, historicamente, novas tecnologias tendem a criar mais oportunidades do que eliminam.
“Boa parte dos empregos que todos nós temos hoje não existia há 100 anos”, disse. Como exemplo, citou os aplicativos de transporte: ao facilitar a navegação urbana, permitiram que mais pessoas atuassem como motoristas, ampliando o mercado — ainda que com impacto sobre os salários do setor.
O economista também mencionou o caso dos revisores de texto: com o surgimento de ferramentas como o Word, a correção ortográfica foi automatizada, mas o valor do profissional capaz de interpretar contexto e sentido aumentou.
“A gente não sabe ainda exatamente qual é o impacto dessas tecnologias em todo o mercado de trabalho, mas com certeza traz ansiedade e oportunidade”, concluiu.
Brasil precisa debater seu papel na revolução da IA
Barenboim expressou preocupação com a ausência do tema no debate público brasileiro. “Eu não vejo no debate eleitoral ninguém conversando sobre isso, sobre uma revolução que talvez a gente esteja vivendo em 100 anos”, afirmou.
Para ele, o Brasil precisa discutir estrategicamente como participar dessa cadeia produtiva, especialmente no que diz respeito às terras raras — minerais essenciais para a fabricação de chips e nos quais o país é abundante.
“A gente tem que usar isso de uma forma inteligente para que o país participe de uma forma mais ampla desse setor”, defendeu.
Por fim, o economista relativizou os riscos de uma desaceleração brusca semelhante ao estouro da bolha ponto-com dos anos 1990. Diferentemente daquela época, as empresas que hoje lideram os investimentos em IA — como Google e Microsoft — possuem balanços sólidos e forte geração de caixa.
“A gente não deve enfrentar uma desaceleração tão brusca como a gente viveu no pós-boom .com”, avaliou.
Quanto ao prazo para que os benefícios da IA se materializem plenamente, Barenboim foi otimista: “Talvez em 15 anos ela já vá ter um impacto integral na economia” — um horizonte muito mais curto do que o observado em revoluções tecnológicas anteriores, como a do motor a vapor ou da eletricidade.









