Segredo austral: o charme histórico e o novo fôlego cultural de Córdoba


A porta de entrada da Argentina para todo brasileiro é, obviamente, Buenos Aires, ícone cultural de toda a América Latina. Mas pouca gente, do Brasil ou de outro país que seja, sabe que, a um voo de 1h20, ou um trajeto de trem de seis horas de duração a partir da capital argentina, se esconde outra pérola do nosso vizinho mais meridional: Córdoba. De porte menor, com um pouco mais de 1 milhão de habitantes, seu ritmo é mais tranquilo, especialmente se comparada à irmã portenha.
Isso não quer dizer que a cidade, e a província da qual faz parte, não reserve boas e memoráveis surpresas, entre vinhos artesanais que não devem nada aos rótulos internacionais mais renomados, uma gastronomia local rica em ingredientes e sabores, uma vida cultural intensa e uma noite para lá de fervida.
Uma vez em solo argentino e já hospedada no Hotel Azur, minha jornada em Córdoba começou por um tour pela Manzana Jesuítica (Quarteirão Jesuíta). Com ruas fechadas ao trânsito, o local abriga três patrimônios tombados pela Unesco: Igreja da Companhia de Jesus, onde o papa Francisco concluiu o noviciado, o Colégio Monserrat e a Universidade Nacional de Córdoba, a primeira de toda a Argentina.

Mesa posta para o café da tarde no campo de golfe da Estancia La Paz, em Ascochinga
Divulgação e Toso
Fora do circuito histórico, no bairro de Nova Córdoba, encontra- se o Museo Superior de Bellas Artes Evita, outra pérola cultural local, com exposições fixas e temporárias. O prédio que o abriga, anteriormente chamado de Palácio Ferreyra, foi projetado pelo arquiteto francês Ernest Sanson e construído no começo do século 20, para servir como lar do médico e cirurgião Martín Ferreyra – a sala central de tirar o fôlego.
Atualmente, o museu abriga uma poderosa coleção de arte moderna e contemporânea, que reúne obras como Pago de la Deuda Externa Argentina a Andy Warhol, de Marta Minujín com participação do próprio artista norte-americano, Bailarines, de Emilio Pettoruti, e Sueño y Mentira de Franco, de Pablo Picasso. Pelos corredores, não pude deixar de reparar nas dezenas de obras que retratam a ditadura argentina. Oscar Brandán é um dos artistas cordobeses que dissecam esse período com obras como La Sombra, que exprime a prática do sequestro de crianças pelos militares da época.
O assunto, ainda que polêmico e delicado, faz parte da história do país e é interessante ver como ele é abordado pelos artistas locais. Como se o roteiro cultural da capital não fosse o suficiente, fui surpreendida com a experiência de bem-estar do Circuito de Águas do Hotel Azur, um procedimento relaxante que consiste em um passeio à luz de velas por 12 áreas diferentes, onde a água, em seus vários estados e temperaturas, é o fio condutor. Para finalizar, uma massagem foi a pedida certa para aliviar o estresse.
Vista do Get Hotel Molvento para o lago Los Molinos, na Villa Ciudad Parque.
Divulgação e Toso
Durante minha estadia na capital, o orgulho de todos os cidadãos locais ficou muito claro, e esse sentimento se estende à boemia local – Córdoba garante aos residentes (e visitantes) uma vida noturna super alto-astral, que contrasta com as construções históricas e o ar interiorano. Mas são nas estâncias jesuíticas espalhadas pelo estado de Córdoba em que a arquitetura das igrejas rouba um pouco do protagonismo da vibrante capital da província. Com muita suntuosidade em seus projetos, as construções impressionam por sua influência barroca. Durante os dias que passei na região, pude conhecer duas delas: Alta Gracia – que leva o mesmo nome da cidade em que está localizada – e Santa Catalina em Totoral, ambas patrimônios tombados pela Unesco desde 2000.
Na Estancia Jesuítica de Alta Gracia, é possível conhecer a história do lugar através do Museo Nacional Estancia Jesuítica de Alta Gracia y Casa del Virrey Liniers, que funciona desde 1977 e guarda uma importante coleção de objetos dos séculos 17 a 19, assim como exposições temporárias e um programa de atividades culturais.
Já a Estancia Jesuítica Santa Catalina é uma área privada, porém aberta a visitações. E que grata surpresa tive ao entrar e descobrir que o design original dos séculos 17 e 18 foi mantido quase em sua totalidade. Por lá, em 1740, graças à dedicação à vitivinicultura, o vinho Lagrimilla del Oro foi idealizado, tornando-se o primeiro vinho do Vice-Reino do Rio da Prata. Hoje, a vinícola La Caroyense produz uma versão em homenagem a essa tradição.
Interior da Igreja da Companhia de Jesus, localizada na Manzana Jesuítica de Córdoba
Divulgação e Toso
Como não é possível falar da Argentina sem citar essa bebida, tive a oportunidade de visitar três vinícolas. A primeira delas foi a familiar Sineres, localizada na Villa General Belgrano, que apresenta uma linha de espumantes em apenas três variedades: pinot noir, chardonnay e malbec. Por lá, pude realizar uma visita guiada, em que aprendi mais sobre o processo de vinificação da vinícola e desfrutei uma degustação harmonizada com uma seleção de iguarias locais – carnes, empanadas, doce de leite, e por aí vai. Já as outras vinícolas se localizam na Colonia Caroya, município ao norte de Córdoba.
Com 15 tipos de vinhos em seu catálogo fixo, a Terra Camiare abriu suas portas em 2015, no entanto, tem mais de um século de história,uma vez que está localizada no mesmo terreno que já foi uma vinícola familiar. O vinhedo, que fica ao lado da fábrica, conta com nove hectares e uvas que vão das clássicas malbec, passando pela cabernet até as uvas Isabel, usada para vinhos de mesa, sucos, geleias e consumo in natura, conhecida pelo sabor marcante de frutas vermelhas.
Já a La Caroyense, a mais antiga dentre as que visitamos, conta com uma arquitetura recheada de vitrais, que lembra uma igreja, e um museu que conta a história da marca, com salas que, antigamente, serviam como tanques de fermentação. Com 92 hectares de vinhedos na cidade, a vinícola teve início como uma cooperativa em 1930, com34 membros fundadores, que uniram forças para criar uma empresa que permitisse maior sucesso e progresso econômico para a região.
A produção de vinhos não é a única arte que acontece no norte de Córdoba. Na cidade de La Granja, encontramos a galeria do fotógrafo Marcos Furer, que retrata paisagens e pessoas locais. O artista deu início à sua carreira em 1988, quando um amigo de sua irmã lhe apresentou algumas fotos que mudaram sua vida. Para ele, a qualidade da foto não depende da câmera, nem das lentes, nem do editor, muito menos da impressora ou do papel, e sim do olhar do fotógrafo. A viagem se encerrou de volta à capital, onde pude descobrir um pouco mais da vida noturna local, com centenas de bares nas ruas e muita gente se divertindo. Exatamente como a vida deve ser. @voegoloficial @visitcordoba
HORA H
Com tanto a se fazer em Córdoba, relaxar ao final do dia é oportuno e essencial. Descubra onde se hospedar na cidade e em seus arredores
ESTANCIA LA PAZ
Divulgação e Toso
ESTANCIA LA PAZ

Jogar golfe com minha mãe fez parte da minha infância, mas há tempos eu não pisava em um campo, e o mesmo acontece comandar a cavalo. Durante minha estadia na Estancia La Paz, pude mudar esse cenário e praticar essas duas atividades que tanto amo.O hotel conta 500 hectares e piscinas ideais para renovar as energias. @estancialapazhotel
AZUR
Divulgação e Toso
AZUR

Com apenas uma portinha para a rua, impressionam os interiores do Azur Hotel, projeto de 1915, em um prédio, originalmente lar da família Crespo, onde nenhum dos quartos é igual ao outro. A infraestrutura e a arquitetura são magníficas, e seu café da manhã é imperdível. @azurhotel

GET MOLVENTO
Divulgação e Toso
GET MOLVENTO

Em um terreno cercado de lavandas e lagoas, o Get Hotel Molvento se localiza na Villa Ciudad Parque. Com uma infraestrutura de cair o queixo, é ideal para famílias, já que, dentre as opções de hospedagem, é um dos poucos que contam com apartamentos para quatro e seis pessoas, além de todo o lazer necessário para esquecer dos problemas. @get.hotelmolvento
PALADAR LOCAL
Uma vez em Córdoba, não deixe de experimentar estes cinco endereços para degustar o melhor da culinária argentina
STANDARD69
Reprodução/ Instagram
STANDARD 69

O badalado restaurante une o melhor da culinária latino-americana a drinques autorais. Não deixe de pedir uma arepa, perfeita para noites quentes. @standard_69
LA DESPENSA DE AZUR
Divulgação
LA DESPENSA DE AZUR

O menu-degustação do chef Lautaro Nibeyro tem 13 etapas que trazem ingredientes e preparos locais, que contam a história da província. @azurhotel
SIBARIS
Reprodução
SIBARIS

O destaque fica para uma das entradas que incluem miúdos de cabrito grelhados, batatas fritas, molho de ossos defumados em brasa e cebolas em conserva. @sibarisrestaurante
EL PAPAGAYO
Divulgação
EL PAPAGAYO

O restaurante, um dos 100 melhores da América Latina peloThe World’s 50 Best, traz seleção de carnes mais vegetais locais explorados de maneira inovadora. @elpapagayo69
LA TORGNOLE

O chef Martin Altamirano impressiona em cada prato. O pão de cristal com homus, kimchi de cenoura, beterraba, maçã, gengibre e mostarda é imperdível! @latorgnolet

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