Finalmente a menopausa está deixando de ser um assunto privado para entrar na agenda da saúde pública. No Brasil, projetos que discutem a ampliação do cuidado no climatério e a possibilidade de oferecer terapia de reposição hormonal pelo SUS levantam uma outra questão: como cuidar de uma população feminina que vive cada vez mais, mas ainda encontra um sistema de saúde pouco preparado para as particularidades de cada fase da vida da mulher?
E não estamos falando de pouca gente. Estima-se que cerca de 30 milhões de brasileiras estejam hoje na transição menopausal, na menopausa ou na pós-menopausa. E, segundo uma pesquisa nacional publicada na PLOS One, quase 70% das mulheres entrevistadas entre 45 e 65 anos consideravam insuficientes as informações que recebiam sobre menopausa.
O problema começa antes mesmo do tratamento. Muitas mulheres não sabem o que está acontecendo com seus corpos. E, com frequência, encontram profissionais que também não estão preparados para reconhecer esse momento. “Quantas mulheres vão ao médico fazer uma consulta ginecológica e o médico nem pergunta sobre o ciclo dela, não se aprofunda nos sintomas para levantar a possibilidade de ela estar na perimenopausa?”, questiona o ginecologista Ricardo Barone. Para ele, o cuidado deveria começar antes da menopausa propriamente dita, na transição em que as alterações hormonais e os primeiros sintomas aparecem.
O corpo que o sistema não conecta
A mulher chega ao sistema de saúde por diferentes portas: uma consulta por insônia, outra por alterações de humor, outra por dores articulares… E nem sempre um especialista conecta os pontos. “Você tem a mulher que procura o ambulatório do SUS obesa, hipertensa, com dor articular, alteração de sono, alteração neurológica. Ela vai várias vezes ao atendimento médico sem saber que grande parte daqueles problemas pode estar relacionada à menopausa.”
Uma dos principais desafios é justamente reconhecer quando os sintomas podem estar relacionados à transição menopausal e quando é preciso investigar outras causas. “O ideal é ter um ambulatório onde existam médicos dispostos a orientar a mulher nessa fase, sobre o que vai acontecer na vida dela”, afirma o dr. Barone. “O trabalho inicial é de conscientização, de treinamento de uma equipe.” É por isso que não adianta apenas colocar medicamentos à disposição, por mais relevante que essa iniciativa seja. A indicação e o acesso ao tratamento precisa vir acompanhado de avaliação médica, acompanhamento e possibilidades diferentes para cada mulher. “O tratamento tem que ser individualizado”, defende o dr. Barone.
Há uma razão histórica para que esse despreparo não seja apenas uma questão de formação individual. São séculos de uma ciência médica construída usando o corpo masculino como referência. O National Institutes of Health (NIH), nos Estados Unidos, reconhece que, embora hoje as mulheres representem aproximadamente metade dos participantes de estudos clínicos apoiados pelo órgão, a pesquisa biomédica básica e pré-clínica ainda recorre com maior frequência a animais machos e células de origem masculina.
Isso ajuda a entender por que falar de saúde feminina vai muito além de criar uma lista de doenças. Precisamos voltar algumas casas e começar a produzir conhecimento sobre o corpo da mulher, formar profissionais a partir disso e desenhar serviços que levem em conta as diferentes necessidades femininas ao longo da vida. E essa falta de embasamento não está apenas na menopausa. Pesquisas, diagnóstico, cuidado da dor, doenças cardiovasculares, saúde mental e resposta a medicamentos também são áreas em que as diferenças entre os sexos importam muito. Sim, é complexo.
Em abril, o Reino Unido deu um passo que chama atenção: sua nova estratégia nacional de saúde da mulher reconheceu oficialmente a ‘misoginia médica’ como um problema do NHS. É uma mudança importante porque o problema deixa de ser apenas a mulher que não encontra resposta. O sistema, que deveria reconhecer os sintomas, passa também a ter responsabilidade.









