O nome de Azzedine Alaïa se consagrou em Paris, mas seu imaginário nunca deixou a África – o continente onde nasceu, e para onde a Fundação Azzedine Alaïa volta os olhos, até 4 de janeiro, em Azzedine Alaïa e a África. Depois de percorrer as coleções privadas do costureiro, suas silhuetas e suas formas, a fundação se debruça agora sobre a relação mais íntima de todas, a que Alaïa manteve, a vida inteira, comas próprias origens. Tunisiano de Túnis, nascido (reza a lenda) em 1935, ele deixou o continente ainda jovem. E nunca deixou de ser fascinado por ele.
A mostra, com curadoria minuciosa de Olivier Saillard, reúne mais de 60 peças e recusa, já na primeira sala, o pitoresco e a cor de temporada. Para Alaïa, o continente jamais serviu de mostruário de estampas a puxar conforme a estação; era antes um modo de pensar: geometria, disciplina de construção e uma relação quase sagrada com o corpo feminino. Seu método repousa, aliás, sobre um interessante paradoxo. Ao contrário dos contemporâneos que cruzavam o mundo atrás de referências distantes, Alaïa quase não viajava. Gostava de dizer que “viajava sentado na cadeira”, imóvel atrás da mesa de corte, os olhos na tesoura e no tecido. Sua África nasce, portanto, da memória de infância e de alguns raros encontros decisivos.
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Saillard organiza esse território em três geografias. A primeira é a Tunísia branca da infância: peças de algodão de brancura ofuscante, que reverberam as fachadas de Sidi Bou Saïd, aspergidas de água no calor para amenizar os pátios internos. Dali vem o muxarabi – a treliça que filtra tanto a luz quanto o olhar –, que Alaïa reinventa perfurando o couro a laser até torná-lo uma pele rendilhada, a revelar e a esconder o corpo como faziam as janelas de Túnis. Vêm também as longas camisas listradas que despontam sob casacos simples, à maneira dos homens do deserto, exibidas com solares, o preto absoluto e fosco de 1983 e 1984, extraído da economia estilística das máscaras africanas em madeira queimada e couro, cabeças envoltas em capuzes majestosos, gestos com a fluidez de um tecido indomável.
A segunda geografia é o Egito. Fascinado pela arte secreta da mumificação, Alaïa estudou as técnicas faraônicas de enfaixamento até chegar, em 1985, aos célebres vestidos bandage, a malha elástica estruturada que modela e sustenta a silhueta semos aros e as barbatanas do espartilho ocidental. É, até hoje, uma das maiores proezas técnicas da moda contemporânea, nascida do olhar de um costureiro cativado por rainhas e faraós.
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A terceira é a África subsaariana, e talvez a mais comovente. Todos os tons de areia se insinuam ali, dissolvendo-se em vermelhos intensos, ao lado da ráfia e do barbante que Alaïa usou em vestidos inteiramente bordados de conchas e búzios, nas coleções de verão de 1988, 1989 e 1990. Essa virada tem nome: Peter Beard. Em abril de 1996, o costureiro e o fotógrafo viajaram orgulho na coleção de 1992. Em contraponto a esses brancos juntos pelo território Maasai, no Quênia, e as imagens de Beard, expostas no primeiro andar da fundação, documentam a revelação. Impressionado com a postura e a “nobreza de espírito” das mulheres da comunidade, Alaïa traduziu aquela majestade em matérias brutas e orgânicas. Diante das peças, as pinturas de Kris Ruhs criam uma paisagem sensorial em que arte e moda se completam.
Há, no ar, algo que excede a exposição. “Para Azzedine, a África era muito importante”, lembra Farida Khelfa, musa e amiga do costureiro. Olhando para o estúdio que a Fundação manteve intacto, ela lembra que ali tudo permaneceu como era: os corpetes em que ele trabalhava às vésperas da morte, os moldes, as padronagens intactas. “Sua vida continua. Este lugar era o lugar dele.”
E a vida que enchia esse lugar tinha trilha e mesa. No alto do ateliê, reinava Oum Kalthoum. “Trabalhávamos dias e noites inteiros ao som dela. Todas as meninas sabiam suas canções de cor”, conta Farida. Havia o cuscuz de Soumaré, cozinheiro de Azzedine por muitos anos, e, sobretudo, uma mistura de gente que só ali se via. “Na cozinha de Alaïa, Tina Turner sentava-se ao lado da faxineira e do senhor que passeava comos cães.”Havia Whitney Houston, estrelas francesas e gente da vida real, lado a lado. “Azzedine misturava as pessoas: os jovens e os velhos, os pobres e os riquíssimos. É isso a vida: estar com todo mundo.” E, diante das robesemforma de djellaba, Farida se emociona: “Se eu fosse jovemestilista, viria auscultar as roupas de Alaïa para me formar, de tão belas que são”.
Ao colocar a Tunísia, o Egito e as culturas subsaarianas em pé de igualdade artística e técnica à supremacia parisiense, Azzedine Alaïa e a África valida a evidência visual de que a altacostura levou tempo demais para enunciar que a África foi muito mais do que uma inspiração. Esteve, desde sempre, no centro de seus diálogos mais rigorosos, poéticos e duradouros.
A exposição fica aberta todos os dias até 4 de janeiro na Fundação Azzedine Alaïa com entradas por 10 euros. Confira mais informações aqui.









