Tatiana Tibúrcio construiu uma das trajetórias mais consistentes do teatro e da teledramaturgia brasileira das últimas duas décadas. Carioca do Flamengo, formada pela Escola Técnica Estadual de Teatro Martins Penna, ela se entendeu como artista, e como sujeito negro, dentro da Companhia dos Comuns, grupo dirigido por Marcio Meirelles que marcou a cena teatral negra dos anos 2000. Foi ali, como conta nesta entrevista, que algumas coisas se tornaram inegociáveis. “Eu não tiro a pele para ir trabalhar, para viver ou para fazer qualquer coisa. Eu sou uma mulher negra 24 horas por dia. Então, não tem como não ser militante 24 horas por dia”, diz.
No teatro, integrou também o Amok Teatro e recebeu indicação ao Prêmio Shell de melhor atriz por Salina, a última vértebra (2015). Na televisão, estreou em Suburbia (2012) e passou por Sol Nascente, Um Lugar ao Sol e Terra e Paixão, entre outras produções. Em 2020, venceu o troféu APCA de melhor atriz por Falas Negras, especial dirigido por Lázaro Ramos em que interpretou Mirtes de Souza, mãe do menino Miguel Otávio, que morreu aos 5 anos após cair de um prédio de luxo no Recife. Atriz, diretora e preparadora de elenco, é também idealizadora do Negro Olhar, ciclo de leituras dramatizadas dedicado a autores e artistas negros, projeto que nasceu do encontro com Ruth de Souza, a Dona Ruth que ela cita nesta conversa.
Na entrevista a Liliane Rocha, Tatiana trata a atuação como o que também é: um mercado de trabalho, com suas barreiras de entrada, seus custos invisíveis e suas regras não escritas para profissionais negras. Ela reconhece avanços: “Nós, que sempre estivemos aqui, passamos a nos tornar visíveis aos olhos daqueles que nos negavam”. Mas nomeia o que persiste, do imaginário branco que ainda condiciona a aceitação de artistas negros ao desgaste emocional de negociar cada figurino e cada gesto em cena, uma carga de trabalho invisível que colegas brancas não carregam. Para as próximas gerações de atrizes negras, o desejo é direto: “Que elas tenham o privilégio e o prazer de apenas interpretar”.
Liliane Rocha: O Brasil conhece a atriz Tati Tiburcio. Sua trajetória, seus personagens e suas conquistas falam muito sobre você, mas não falam tudo, e nem deveriam. O que você gostaria que as pessoas soubessem sobre você para além das credenciais? Quem é a Tati que existe quando as luzes do palco se apagam?
Tatiana Tibúrcio: Alguém que tenta fazer diferença com o seu trabalho, alguém que procura ter empatia com o maior número possível de situações, porque eu acho que essa é uma das capacidades que mais faltam neste mundo. Fala-se muito de justiça, de igualdade e de respeito, mas, antes de tudo isso, é preciso ter empatia. O ensinamento mais precioso, aquele que nos foi deixado há mais de dois mil anos, de amar o próximo como a si mesmo, é, na essência, um convite à empatia. Então, eu acho que a Tati, para além da profissional, é alguém que se esforça muito, em todos os sentidos, para exercer essa capacidade o máximo possível.
Liliane Rocha: Ao olhar para a sua trajetória, qual foi o momento em que você sentiu que havia conquistado o seu espaço sem precisar abrir mão de quem você é?
Tatiana Tibúrcio: Eu não sei se existe um momento específico. Acho que vamos percebendo isso pelos trabalhos que realizamos e pela forma como somos tratados dentro deles. Quando começo a perceber uma escuta real e respeitosa para aquilo que eu apontava como importante, não apenas para mim, individualmente, mas também para quem que eu represento. Porque eu não tiro a pele para ir trabalhar, para viver ou para fazer qualquer coisa. Afinal, ela não está pintada. Eu sou negra 24 horas por dia. Eu sou mulher 24 horas por dia. Eu sou uma mulher negra 24 horas por dia. Então, não tem como não ser militante 24 horas por dia. Houve um momento na minha vida em que descobri que era artista. E houve um momento, dentro da Companhia dos Comuns, em que descobri que tipo de artista eu queria ser. A partir daí, algumas coisas se tornaram inegociáveis. E, quando você começa a perceber que aquilo que, para você, é inegociável, e que você vem defendendo e argumentando, está sendo ouvido e respeitado, é aí que pensa: “Estou no caminho certo. Estou fazendo a coisa certa.”
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Liliane Rocha: Existe alguma emoção que acompanha a sua carreira desde o início e que continua presente até hoje?
Tatiana Tibúrcio: Eu acho que é a indignação. Costumo dizer isso por conta de uma situação pessoal, que não vem ao caso detalhar agora, mas que foi muito dura para mim. Veio de pessoas brancas, e eu fui chamada de ingrata. Eu era muito nova, ainda não tinha o letramento que tenho hoje, mas já sentia que havia algo errado com esta fala. E eu me perguntava: “Mas por que eu sou ingrata? Por quê? Por que eu não me submeti? Por que eu não baixei a cabeça? Porque o que estava sendo cobrado não fazia sentido para mim.” Então, o preço estava alto demais, entende? E não fazia sentido. Quando comecei a ter letramento, entendi que aquilo que chamavam de ingratidão e de arrogância era, na verdade, consciência e autoafirmação, mesmo sem eu ter, naquele momento, as palavras certas para explicar isso.
Então, costumo dizer que sou uma negrinha, sim, e que sou ingrata, sim. E tenho muito orgulho de ser uma negrinha ingrata, entendendo essa ideia de gratidão como um certo grilhão. Gratidão é, na verdade, fazer bom uso daquilo que lhe foi dado. Se algo lhe foi dado para que você cresça, cresça. Essa é a forma de retribuir tudo o que lhe foi oferecido. Qualquer coisa diferente disso não foi dada de bom coração. Foi dada com a intenção de aprisionar você de alguma maneira. Então, entendendo por essa perspectiva, eu sou uma negrinha ingrata e tenho muito orgulho disso.
Liliane Rocha: Ao longo da sua trajetória, você construiu uma carreira consistente em um mercado que historicamente restringiu as possibilidades de representação para mulheres negras. Em que momento você percebeu que sua presença em cena deixava de ser apenas artística e passava também a ocupar um lugar político e simbólico?
Tatiana Tibúrcio: Quando, ao falarem sobre mim, essa questão passou a ser apresentada como algo emblemático, importante e digno de reconhecimento. Quando o meu posicionamento passou a estar totalmente atrelado à minha imagem, sem apagá-la, sem deixar de me enxergar como artista, mas reconhecendo-me como uma artista relevante justamente ser quem eu sou. Então, acho que é nesse momento que as coisas começam a fazer sentido.
Liliane Rocha: Olhando para trás, se você pudesse conversar com a Tati de vinte anos atrás, o que diria a ela sobre o preço, os aprendizados e o verdadeiro significado do sucesso?
Tatiana Tibúrcio: Eu diria para ela ter calma. Diria: “Vai ser difícil, neguinha. Vai ser puxado.” (risos). Porque, às vezes, se a gente pensar muito nas consequências, acaba olhando apenas para o individual e deixa de fazer. Costumo dizer que o que aprendi com a filosofia africana, a partir da ideia de ubuntu, de que eu sou um com o outro, para o outro e pelo outro, é algo que considero uma das coisas mais mágicas do mundo: não existe coletivo sem individualidade, e não existe individualidade sem coletivo. O coletivo é formado por indivíduos. Então, é preciso haver individualidade para que exista o coletivo. E a individualidade, sem o coletivo, perde o sentido. Você é apenas um vazio, um nada. Então eu diria isso a ela: “Tenha calma, tenha paciência. Vai ser difícil. Você vai ter que abrir mão de algumas vantagens e de algumas facilidades pelo caminho, mas sempre terá orgulho de cada passo que der. Vai poder dizer: ‘Valeu a pena, e eu não voltaria atrás em nada’. Acho que isso é o mais importante.”
Liliane Rocha: Você transitou por diferentes linguagens, do teatro à televisão, construindo uma carreira sólida e reconhecida. Na sua percepção, o que mudou na forma como o mercado enxerga atrizes negras e quais desafios permanecem praticamente inalterados desde o início da sua trajetória?
Tatiana Tibúrcio: Eu acho que o que mudou foi a visibilidade. Nós, que sempre estivemos aqui, passamos a nos tornar visíveis aos olhos daqueles que nos negavam, nos apagavam e achavam que podiam continuar existindo sem nos enxergar. Então, eu acho que, de uma maneira geral, nós nos tornamos visíveis. E isso em todos os sentidos. Quando falo de forma geral, não me refiro apenas à presença, mas também à estética, à singularidade do nosso olhar, ao nosso visual, à nossa interpretação, a tudo. Nós nos tornamos visíveis. Agora, tem coisas que não mudam. A Dona Ruth costumava dizer que eu era muito revoltada. Até entender o que ela queria dizer, eu ficava calada, por respeito. Eu pensava: “Como uma pessoa que passou por tudo isso, que teve que ouvir tantas humilhações e viver tudo o que viveu, pode me dizer que o mundo é dos brancos e que eu tenho que ser menos negroide?”
Eu falava: “Não faz sentido.” Com o tempo, fui entendendo o que ela queria dizer. Imagine uma parede. Se você der um murro nela, quem ganha? Você ou a parede? Você vai sair com a mão machucada. A melhor maneira de vencer uma parede é ir devagar. Se você deixar a água infiltrar, ela vai cair sem que seja preciso dar um murro. Quando a água tiver infiltrado o suficiente, basta um sopro e ela vem ao chão.
O que a Dona Ruth estava querendo me dizer era para que eu parasse de bater de frente. Que eu buscasse caminhos e estratégias, assim como a água e o rio fazem para continuar fluindo e abrindo caminho. A água não é mais rígida do que a pedra, mas, com o tempo, é capaz de transformá-la. E essa é uma transformação irreversível. É esse tipo de transformação que nos interessa. Então, pensando nesse sentido, a gente ainda precisa ser muita água nesse muro que se apresenta à nossa frente para continuar transformando. A abertura que conquistamos, enquanto sujeitos pretos dentro da arte, ainda está muito relacionada ao imaginário branco. Quando vemos pessoas negras sendo aceitas e ocupando lugares de destaque, muitas vezes elas ainda estão mais próximas de um padrão estético estabelecido, que é branco. Avançamos muito porque nos fizemos visíveis e ocupamos espaços que antes eram inimagináveis. Mas ainda precisamos alcançar a naturalidade da nossa pluralidade. Precisamos ser aceitos em toda a nossa existência e complexidade, e não apenas naquilo que se aproxima do padrão já estabelecido.
Liliane Rocha: Olhando para a frente, quando você imagina os próximos dez anos da dramaturgia brasileira, qual legado gostaria de deixar e que tipo de caminho espera que as novas gerações de atrizes negras encontrem ao chegar aos espaços que você ajudou a abrir?
Tatiana Tibúrcio: Eu espero que elas encontrem um mercado em que não precisem estar blindadas para poder entrar. Eu anseio que essas atrizes entrem em cena pensando apenas em interpretar. Que, quando uma diretora disser que a personagem precisa acolher a amiga branca que está sofrendo, elas não tenham que pensar se podem fazer isso com todo o carinho e afeto do mundo ou não, porque, senão, vão passar a imagem da “Mammy”, de E o Vento Levou, da Tia Nastácia. Que possam pensar apenas na intensidade da emoção que precisam imprimir.
Porque eu penso assim o tempo inteiro. Eu ainda não posso entrar em cena pensando apenas em interpretar. Qualquer gesto que eu tenha que fazer, preciso levar em consideração. Se alguém vai me dar um uniforme, eu tenho que pensar: “Como é esse uniforme?”. Tenho que dizer: “Não, espere aí. O avental eu não vou usar, porque a minha colega branca, de avental, transmite uma mensagem. Eu, de avental, transmito outra. E essa mensagem que o meu corpo comunica usando esse figurino eu não quero mais passar.” Isso gera um desgaste emocional absurdo. Eu espero que as atrizes que venham depois de mim não precisem mais passar por esse tipo de desgaste. Que elas tenham o privilégio e o prazer de apenas interpretar.
Liliane Rocha: Que mensagem final você gostaria de deixar para os nossos leitores e leitoras da VOGUE Negócios?
Tatiana Tibúrcio: Coragem. Guimarães Rosa dizia que o que a vida quer da gente é coragem. Para a gente viver, a gente precisa ter coragem. Coragem de abrir mão. Coragem de ser feliz. Coragem de acreditar. É uma crença ativa. Aquele que acredita e faz. Porque, quando você acredita, você se imbui de desejo. E esse desejo tem que ser uma mola propulsora para ir para frente.
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Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Vogue
Nota: Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Vogue Brasil.
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