
Seria a memória, nossa salvação?
Dizem que a verdadeira morte é se afogar no mar do esquecimento. Sendo assim, a memória andaria de mãos dadas com a vida? Seria a memória, a nossa salvação?
Vive quem é lembrado. Segundo Walter Benjamin, o papel do historiador é resgatar dos escombros do passado os injustiçados da história, ou seja, ressuscitá-los através da história. Apesar de ser historiadora de formação, evoco essas questões para poder amenizar uma dor enorme que partilho agora em família. Estamos vivendo um luto terrível. Essa última frase parece carregar uma pretensa ironia: sim, o luto parece ser “viver” a dor de uma morte.
Como elaborar a dor de perder uma pessoa amada? Não há resposta exata. Não há régua ou aferidor que meça tamanho, intensidade, volumetria e latência dessa dor. Ainda mais quando você perde alguém de forma trágica. Há quase um mês, eu perdi um ente muito querido. Daniel Vitor, um primo-irmão que vi crescer. Filho de uma das minhas tias mais amadas. As memórias começam a borbulhar feito bolhas de ar que partem do fundo de uma panela em estado de fervura.
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“Oh, pedaço de mim
Oh, metade arrancada de mim
Leva o vulto teu
Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu”
Quantos sentimentos carregam esses versos tristes e belos de Chico Buarque! Quero me ater ao luto como uma espécie de amputação, mas também na rememoração pela saudade. A saudade, o combustível involuntário da memória.
Assucena compartilha foto com o primo Daniel Vitor
Acervo Pessoal
Me lembro de tanta coisa meu Deus. Me lembro de quando tia a Karla escolheu seu nome, um nome composto. Me lembro da gravidez e da expectativa por sua chegada: enxoval, berço, fraldas e um quarto preparado com muito capricho para receber aquela vida que anunciava esperança. Me lembro de seu crescimento. Dela penteado o cabelinho de seu bebê com uma escovinha macia e passando alfazema depois. Me lembro da primeira vez que ele foi à escola.
Foi uma alegria vê-lo entrar pela primeira vez na casa de vovó. Me lembro de minha tia cuidando de Daniel como uma leoa atenta e amorosa. Me lembro das cólicas intestinais, das noites mal dormidas, dos banhos mornos e tranquilizantes. Me lembro do apego dele que não gostava tanto de outros colos. Eu acompanhei seu crescimento. Mas não tanto sua adolescência. Quando deixei Vitória da Conquista, ele tinha apenas 8 aninhos. Nos desgarramos aí. Mas de uma coisa eu sabia, Daniel era amoroso, coração bom e gostava de dividir seus melhores instantes com seus amigos.
Dia 28 de abril de 2026, meu primo sofreu um atentado que ceifou sua vida aos 26 anos. Relutei em aceitar, em divulgar, em tornar instagramável essa perda tão cruel. Ainda mais, sem ter seus assassinos indiciados por esse crime.
Daniel Vitor nasceu em 27 de outubro de 1999. Seu primeiro nome vem do hebraico e quer dizer: Deus é meu juiz. Um nome forte, graça de um dos profetas mais emblemáticos do Tanach judaico. Já Vitor é oriundo do latim e significa vencedor, vitorioso. A grosso modo Daniel Vitor é um vitorioso que tem Deus por juíz. Que haja justiça pelo significado próprio de seu nome
Há a dor que sinto, e há a dor que minha tia sente, que minha avó sente, que seus irmãos sentem. Há a dor que sentimos quando olhamos a inocência de sua filhinha de quase dois anos, que não crescerá com seu pai. Essa dor não parece ser amenizada por sua partilha, pelo contrário, parece maximalizada, quando estamos diante da impotência de salvar quem amamos dessa amputação dilacerante.
É sabido que nunca se supera uma perda dessa dimensão, mas se aprende a conviver com ela, dia após dia.
Daniel Vitor nasceu em 27 de outubro de 1999. Seu primeiro nome vem do hebraico e quer dizer: Deus é meu juíz. Um nome forte, graça de um dos profetas mais emblemáticos do Tanach judaico. Já Vitor é oriundo do latim e significa vencedor, vitorioso. A grosso modo Daniel Vitor é um vitorioso que tem Deus por juiz. Que haja justiça pelo significado próprio de seu nome
Faço aqui minha tentativa de elaborar esse luto através da manifestação viva da memória de Daniel. Lembrando que ressuscitamos os injustiçados da história, pela justiça feita em suas memórias, e pela memória evocada quando realizamos sua devida justiça.
Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Vogue
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