• Como a seleção brasileira feminina se reinventou para buscar a primeira Copa do Mundo


      É irônico pensar que, no país do futebol, as mulheres foram autorizadas a praticar oficialmente a modalidade apenas em 1979. Antes disso, um decreto-lei assinado pelo presidente Getúlio Vargas determinou, por quase 40 anos, que não seria permitida “a prática de desportos incompatíveis com as con dições de sua natureza”, o que incluía o futebol. Apesar de sofrer discriminação de várias maneiras, a primeira seleção brasileira constituída por mulheres se consolidou em 1986, quase 72 anos depois do primeiro time masculino, e, nos últimos anos, vive um de seus momentos mais sólidos.

      Com o legado deixado pela geração capitaneada por joga doras como Marta, Cristiane Rozeira e Formiga, que marcaram a história do futebol brasileiro, o time comandado pelo técnico Arthur Elias desde 2023 voltou ao top 6 do ranking da Fifa, conquistou a medalha de prata nos Jogos Olímpicos de Paris 2024 e venceu a Fifa Series 2026 (competição de amistosos internacionais organizada pela entidade) com uma campanha invicta. “Hoje, somos protagonistas desse esporte”, pontua Cristiane Gambaré, coordenadora de seleções femininas da CBF. Na contagem regressiva para a Copa do Mun do feminina, que será sediada em 2027 no Brasil, o time mostra amadurecimento, resultado de uma mudança estratégica na estrutura do futebol brasileiro feminino.

      Nos bastidores, houve uma reorganização das categorias de base, que integrou os times sub-15, sub-17, sub-20 e a seleção principal, com o objetivo de construir uma identidade coletiva capaz de sustentar o crescimento a longo prazo. O fortaleci mento das competições nacionais e dos clubes do país também foi uma virada de chave para a categoria. “Fiz parte da seleção brasileira que conquistou a medalha de ouro nos Jogos Pan-Americanos de 2007, diante de 72 mil pessoas no Maracanã. E, mesmo naquele momento tão importante para a modalidade, ainda não existiam disputas oficiais para as equipes femininas”, afirma Aline Pellegrino, gerente de competições femininas na CBF. Hoje, a confederação organiza nove campeonatos, entre torneios profissionais e categorias de base. “Esses eventos profissionalizam os times, incentivam patrocínios e fomentam a torcida. Sediar a Copa de 2027, por exemplo, é uma chance única para acelerar investimentos e ampliar a participação das mulheres no futebol.”

      Parte da equipe atual, a meio-campista Angelina Costantino, de 26 anos, viveu a transição entre gerações e reforça a importância do trabalho feito pela comissão técnica, que atua na construção de um time menos dependente do talento individual. Em junho, Arthur Elias convocou, além das 26 selecionadas para o amistoso contra os Estados Unidos, outras 30 jogadoras para um período de preparação extra, já que há poucas datas oficiais da Fifa até o Mundial. “Isso faz com que todas tenham a oportunidade de viver o planeja mento para um jogo importante, o que deixa o grupo mais competitivo”, diz Costantino, que já vestiu a braçadeira de capitã e joga atualmente no time estadunidense Orlando Pride. “É importante entender que a responsabilidade da vitória é dividida. Hoje, o foco é vencer todos os jogos, independentemente de qual seja.”

      Herdeira da camisa 10 da seleção e jogadora do Manchester City, a atacante Kerolin Nicoli, de 26 anos, resume o espírito atual do time: “Queremos consolidar o futebol feminino brasi leiro em outro patamar, em termos de estrutura, visibilidade e respeito, para que a próxima geração não precise lutar pelo bá sico, mas possa apenas jogar futebol e mostrar o seu talento.” A Copa do Mundo em casa significa mais do que a disputa pelo título, é a concretização de um legado que tem sido construído uma mulher após a outra. “O objetivo é claro: vamos buscar nossa primeira estrela”, resume Cristiane Gambaré.



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