• Como as mulheres da geração X estão mudando o conceito de perfume-assinatura


      Nunca fui muito fiel a perfumes. Mas confesso que, nos últimos anos, essa minha vocação para inconstância ganhou outro patamar. Cada dia tenho um preferido. Minto. Às vezes tenho três favoritos no intervalo de 24 horas. Troco mesmo, sem pudor nem medo de parecer volúvel. O que antes poderia ser visto como falta de personalidade, hoje, essa curiosidade olfativa tem se mostrado uma verdadeira libertação para mulheres da minha geração, acostumadas a serem reconhecidas por um perfume-assinatura.

      Para Jelena Ostojic, diretora da Nishane, essa liberdade reflete confiança, repertório e uma nova relação com o luxo. À frente da direção global da marca turca de perfumaria de nicho, ela passa boa parte do ano visitando boutiques em diferentes países, conversando com vendedores e observando consumidores. Aos 50 anos e com 24 dedicados à perfumaria de luxo, Jelena vê surgir um comportamento recorrente entre mulheres maduras: elas continuam tendo perfumes favoritos, mas já não sentem necessidade de permanecerem fiéis a apenas um.

      “Elas sempre terão uma fragrância que consideram a queridinha, mas dificilmente usarão apenas ela. Hoje experimentam, alternam, compram várias”, diz a executiva. Na perfumaria de nicho, esse comportamento ganhou até novas formas de expressão. Uma delas é o layering — a combinação de duas ou mais fragrâncias para criar um perfume exclusivo. Outra é a construção de um verdadeiro guarda-roupa olfativo, no qual diferentes perfumes acompanham o estado de espírito, ocasiões ou simplesmente a vontade daquele dia.

      A própria Jelena sorri ao admitir que seria incapaz de escolher apenas um. “Perdi a conta de quantos frascos tenho. Adoro misturar fragrâncias. Perfume é alegria.” A observação dela coincide com um movimento maior do mercado. O crescimento da perfumaria de nicho ampliou muito o repertório disponível para o consumidor. Ao lado das grandes casas tradicionais, centenas de marcas independentes passaram a explorar matérias-primas raras, narrativas autorais e combinações olfativas pouco convencionais. O resultado é um mercado no qual a descoberta passou a fazer parte da experiência de compra.

      Na perfumaria de nicho, esse cenário ganha contornos ainda mais relevantes, como enfatiza Jelena: “Na nossa indústria, os ingredientes são comprados de pequenos produtores, que ainda coletam alguns dos ingredientes manualmente e que estão distribuídos por pequenas fazendas… O verdadeiro luxo da perfumaria de nicho, ao meu ver, é esse trabalho artesanal, exclusivo, o feito à mão”.

      Jelena Ostojic, diretora da Nishane — Foto: Foto: Divulgação
      Jelena Ostojic, diretora da Nishane — Foto: Foto: Divulgação

      A curiosidade, seja pelo que está por trás do perfume, seja pela experimentação, aparece com frequência entre consumidoras maduras. “Chegamos a uma idade em que temos mais liberdade, abrimos mão de ideias que nos limitavam”, avalia Jelena. “E na relação com perfumes, isso fica bem claro: testamos mais, misturamos mais. Se uma combinação não funcionar, tudo bem. Quem se importa?”

      A frase ajuda a explicar uma transformação que vai além da perfumaria. A longevidade vem alterando hábitos de consumo em diferentes categorias do mercado de luxo. O relatório The State of Fashion 2025, produzido pela McKinsey em parceria com o Business of Fashion, aponta que consumidores acima dos 50 anos concentram uma parcela crescente dos gastos com moda e produtos premium e devem se tornar um dos públicos mais estratégicos para as marcas nos próximos anos. Apesar disso, continuam sub-representados nas campanhas e nas estratégias de comunicação.

      A categoria de fragrâncias premium e de nicho segue direção semelhante. Estudos da McKinsey mostram que elas permanecem entre o grupo de melhor desempenho do setor, impulsionadas por consumidores que valorizam qualidade, autenticidade e experiências personalizadas. Jelena acredita que essa sofisticação aparece de maneira muito clara dentro das lojas. “Essas mulheres procuram um atendimento exclusivo. Querem entender os ingredientes, conhecer a história da fragrância, saber de onde vêm as matérias-primas. Quando alguém investe em um perfume de luxo, espera viver uma experiência completa.”

      A executiva percebe outra característica comum na consumidora madura: a clareza sobre as próprias preferências. “Muitas entram na loja sabendo exatamente o que gostam. Dizem que adoram baunilha, ou que não suportam tuberosa. Conhecem as notas, conhecem os estilos.” Essa segurança, entretanto, não elimina a curiosidade. Pelo contrário. “Elas não se fecham à oportunidade de dar mais uma chance a algo que antes não considerariam. O que define essa consumidora é a confiança”, explica. Confiança para testar combinações inesperadas. Para abandonar regras que já não fazem sentido. E também para comprar pensando em si mesma. “Antes, muitas mulheres compravam pensando em agradar o marido, impressionar as amigas… Hoje, compram mais pensando nelas mesmas.”

      A mudança aparece também do outro lado do balcão. Jelena atribui boa parte do sucesso da própria trajetória à experiência acumulada. Depois de mais de duas décadas viajando pelo mundo, acompanhando mercados e formando equipes, acredita que a maturidade tornou-se uma vantagem competitiva em um segmento no qual compreender pessoas pesa tanto quanto conhecer perfumes. “Quando somos mais jovens, somos mais impulsivos. Com o tempo, ficamos mais pacientes e enxergamos as coisas de maneira diferente. A experiência faz muita diferença. Mas acho que, sobretudo, a maturidade nos torna melhores profissionais porque, quando optamos por fazer um trabalho, fazemos porque amamos, porque acreditamos, porque nos sentimos realizadas. Sai a obrigação e entra a paixão. Isso é um privilégio.”

      A experiência realmente tem potencial para mudar o mercado, à medida que valoriza a maturidade. E isso pode ser visto na executiva que aprendeu, ao longo do tempo de trabalho, a ler diferentes culturas por meio do perfume; passando pela consumidora, que conhece seus próprios gostos e não precisa mais seguir tendências para validar suas escolhas; até na própria fragrância, que deixa de representar uma identidade fixa para acompanhar as muitas versões que uma mulher pode assumir ao longo da vida.



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