• Como os coletivos esportivos LGBTQIA+ criam espaços de afeto, segurança e resistência


      O esporte é cada vez mais coletivo. Grupos de corrida, de pedal, de crossfit: para além do exercício, os espaços de treino se tornaram locais para conhecer pessoas e criar laços. Mas nem sempre esses ambientes são seguros e inclusivos para pessoas LGBTQIAPN+, em especial para pessoas trans. Um levantamento realizado pela Nix Diversidade em parceria com a Nike mostra que, embora o esporte tenha muita importância na vida de 68% dos participantes da comunidade, 85% deles apontam a LGBTfobia como um problema estrutural no ambiente esportivo brasileiro.

      Para contornar essa barreira, coletivos autônomos começaram a surgir como refúgios onde as pessoas LGBTQIAPN+ podem se exercitar com segurança, conforto e, acima de tudo, serem elas mesmas. “Esses grupos são iniciativas da própria comunidade para dar acesso ao esporte”, afirma Fabrício Addeo Ramos, diretor e fundador da Nix. A organização, que surgiu há 25 anos com foco em projetos culturais, expandiu sua atuação para as áreas de diversidade, economia criativa e social. Desde 2021, eles já mapearam mais de 250 coletivos esportivos inclusivos em quase todos os estados do Brasil.

      Muitos desses grupos nascem da vivência de quem foi excluído das práticas esportivas tradicionais por preconceito ou traumas. Foi o que aconteceu com Patty Furtado Lima (conhecida artisticamente como Paty Micheletti), uma das fundadoras do coletivo Trans No Corre. “Eu sempre tive uma relação muito grande com o esporte, sou faixa azul em taekwondo. Mas, assim que comecei minha transição, me senti arrancada desse espaço”, conta Patty. Em 2022, ao lado de outras quatro pessoas trans que se conheceram em grupos de corrida, ela decidiu criar um espaço de pertencimento real. “Fizemos do bagaço um suco, e criamos o nosso própio local seguro”, diz.

      Para democratizar o acesso, o Trans No Corre faz seus treinos na região central. Os encontros acontecem aos sábados, às 10h, com concentração e aquecimento na Praça Roosevelt — um espaço altamente simbólico, marcado pela violência e exclusão de travestis durante a ditadura militar — e seguem em direção ao Minhocão.

      Sabendo do histórico de afastamento esportivo e da eventual perda de condicionamento físico de muitos membros que passam pela transição, o coletivo divide os treinos em três pelotões: o de corrida direta, o de “corre e anda” (intercalado) e o de caminhada.

      É essa mesma energia de celebração e acolhimento que toma as ruas de São Paulo na 6ª Corrida do Orgulho LGBT+. O evento esportivo e cultural da capital paulista reúne atletas amadores, profissionais e entusiastas. Mais do que uma busca por medalhas ou recordes pessoais, a corrida funciona como uma vitrine política e festiva da diversidade, mostrando que eles têm o direito de ocupar o asfalto com segurança e liberdade. Neste ano, o percurso de 5 quilômetros será realizado partindo da Praça do Patriarca, Centro Histórico da capital paulista, no dia 28 de junho.

      Coletivos pioneiros pavimentaram o caminho mostrando que o esporte pode salvar vidas. É o caso do Angels Volley, projeto de vôlei voltado para mulheres trans. O grupo possui participantes que chegaram a ficar quase 30 anos sem praticar atividades físicas e encontraram no esporte uma reconexão — revelando, inclusive, talentos profissionais como a Amanda Bolina, segunda mulher trans a estrear na Superliga B de Vôlei. No futebol, o pioneirismo fica com o Real Centro, fundado em 1990 no centro de São Paulo. O grupo considerado o primeiro coletivo gay do país está em atividade até os dias de hoje. “É um trabalho histórico de resistência e acesso no futebol, que infelizmente ainda é um dos esportes mais LGBTfóbico”, pontua Fabrício Ramos.

      Essa busca por autonomia, saúde e mobilidade também move o Monta Mona, coletivo de ciclismo fundado em julho de 2021 por Natalia Nato, que logo após a pandemia pedalava cerca de 40 km por dia para ir ao trabalho. O grupo nasceu de forma descontraída: em uma noite fria, pedalando com um macacão de unicórnio para encontrar amigos em um bar, ela foi parada por um rapaz que perguntou se aquele era um coletivo de bike LGBT. A resposta foi direta: “Não, mas a gente pode criar”.

      Coletivo Monta Mona — Foto: Divulgação
      Coletivo Monta Mona — Foto: Divulgação

      Hoje, o Monta Mona abriga desde ciclistas experientes até iniciantes — e as bicicletas compartilhadas de aluguel são mais do que bem-vindas. O nome brinca com o ato de “montar na bike” e a gíria “Mona”. “Traz a ideia de reação e empoderamento, uma releitura do meme ‘bota o cropped e reage’. Para nós é ‘monta na bike e reage'”, explica Natalia.

      Para ela, ser ciclista e LGBT na capital paulista revela uma dupla vulnerabilidade. “A cidade é violenta com os nossos corpos e com o pedal. Ainda mais se for um pedal de locomoção ou de passeio, focado no lazer e que anda mais devagar.” Atualmente, o grupo conta com mais de 395 membros em uma comunidade fechada no WhatsApp. Eles organizam rotas pelo Centro, Pinheiros e Parque da Juventude, sempre com comunicadores via rádio e o lema rígido de que ninguém fica para trás: um organizador puxa o bloco na frente e outro garante a segurança na retaguarda, oferecendo suporte e checagem de pneus.

      Checagem de pneus do Monta Mona — Foto: Divulgação
      Checagem de pneus do Monta Mona — Foto: Divulgação

      Mais do que performance, esses coletivos operam como redes de assistência social, saúde integral e saúde mental. “O TransNoCorre não é sobre a corrida, é sobre as relações que a gente constrói por meio dele. Dentro do grupo, as pessoas enviam vagas de emprego, se ajudam, marcam rolês… Nossos corpos estão se movimentando a todo momento”, destaca Patty Micheletti. Fabrício compartilha do mesmo sentimento. “As pessoas costumam dizer que o esporte é transformador, e aqui nos coletivos exergamos isso claramente. Você vê as pessoas que começam ganhando qualidade de vida de forma absurda e conseguindo compartilhar e multiplicar isso”.

      Apesar do crescimento no número de coletivos, a demanda é por transformar todo e qualquer ambiente esportivos em um local acolhedor. Para Fabrício, academias a grandes assessorias esportivas precisam ter mais escuta, diálogo e um olhar humanizado. “Quando você tem um esporte mais inclusivo, você tem toda uma cadeia esportiva que atinge mais pessoas, que se torna muito mais democrática e que realmente cumpre seu papel transformador”, conclui.



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