Em Vicentina Pede Desculpas, longa protagonizado por Rejane Faria, a dor de uma mãe que tenta lidar com a morte do filho dá lugar a perguntas que continuam depois da sessão. Até que ponto conhecemos as pessoas que amamos? O que deixamos de perceber sobre quem está ao nosso lado? Com delicadeza, o filme acompanha uma mulher que procura as famílias das vítimas de um acidente causado pelo filho para pedir desculpas, numa tentativa de encontrar algum sentido para uma perda que não consegue reparar. “Esse filme nos faz pensar sobre as relações humanas e sobre o que estamos fazendo com elas”, diz a artista, em conversa com a Vogue Brasil.
É nesse papel que a atriz vive um momento marcante de sua trajetória. Após a première internacional no Festival de Toronto, da passagem pela competição oficial de San Sebastián – onde foi ovacionada – e da exibição no Festival do Rio, o longa chega à programação da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, realizada de 15 a 29 de outubro. Já a estreia no circuito comercial está marcada para 5 de novembro, em salas selecionadas, além de chegar à Netflix no dia 20 do mesmo mês. Tanta aclamação internacional apenas consagra uma parceria que Rejane e o diretor Gabriel Martins começaram a desenhar lá em 2013. Ver o filme ganhar o mundo e o circuito comercial é, para a atriz, a tradução perfeita dessa estrada construída juntos: “Parece que é uma coroação, assim, de um tempo de trabalho, né?”.
Essa conexão também diz muito sobre o caminho percorrido por Rejane até aqui. Mineira de Belo Horizonte, a atriz construiu boa parte de sua carreira no teatro e integra o coletivo Quatroloscinco, Teatro do Comum. O reconhecimento no audiovisual ganhou nova dimensão nos últimos anos com o aclamado Marte Um e, agora, consolida-se com Vicentina Pede Desculpas. O público também poderá vê-la em Yellow Cake, de Tiago Melo, que estreia nos cinemas do país em 29 de outubro, além de outros longas que integram a programação da Mostra.
Aos 65 anos, Rejane subverte a lógica do etarismo ao mostrar que o amadurecimento é sinônimo de expansão. Após duas décadas nos palcos, ela vê o protagonismo no cinema como uma forma ativa de se colocar no mundo. No papo, ela defende a autonomia de realizadoras e atrizes pretas, além do desejo de fazer uma série de ação. Para ela, o envelhecimento é o momento de colocar o bloco na rua com ainda mais força: “Existe uma invenção social de que quando você chega nesse momento da vida, você precisa recuar. E é muito pelo contrário, estamos com toda a bagagem para avançar”, afirma. Confira abaixo:
VOGUE: Como foi receber o convite para interpretar Vicentina e o que esse papel representa na sua trajetória com Gabriel Martins?
REJANE FARIA: Fico pensando em tudo o que já fiz e em como cheguei a Vicentina. Parece uma coroação de um tempo de trabalho. Conheço o Gabriel desde 2013 e comecei a trabalhar com audiovisual com Maurino Martins, sócio dele. Até então, eu fazia apenas teatro. Recebi o convite para o audiovisual e fiquei um pouco receosa, porque nunca tinha feito esse tipo de trabalho. Mas eles disseram: “Não, vamos lá, vamos com a gente. A gente vai entendendo como fazer”. Desde 2013, venho trabalhando com eles em curtas e longas, às vezes com personagens menores, às vezes maiores, até chegarmos a Marte Um e Vicentina Pede Desculpas. Sinto que foi um caminho que construí e para o qual o Gabriel também foi me preparando. No início, o roteiro não havia sido escrito para mim, mas, ao longo dessa trajetória conjunta, ele foi sentindo vontade de me convidar para o papel. Fiquei muito entusiasmada e feliz quando li o roteiro, mas confesso que tive um pouco de medo, porque é uma personagem completamente diferente de mim. Ao mesmo tempo, senti uma grande confiança da parte dele ao me propor esse desafio. Encaro o papel como um presente dessa caminhada.
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VOGUE: O filme aborda o luto, a depressão, mas também fala sobre afeto e relações familiares. Como foi trabalhar com esses temas, especialmente a partir da perspectiva de uma mãe?
REJANE FARIA: Sou muito diferente dela, mas as situações apresentadas podem acontecer com qualquer um de nós. Além de temas fortes, como o luto, há um contraponto: aquilo que nos tira desse lugar. Talvez entremos nesses estados porque estamos vivendo em uma velocidade diferente do ritmo natural da vida. Acabamos seguindo por esse caminho das doenças mentais, dos desbotamentos. A própria finitude é um assunto sobre o qual falamos muito pouco. Em contraponto, temos os encontros, as pessoas tentando se reconectar e os afetos. Acho que isso equilibra a narrativa. Para mim, como mãe, foi desafiador interpretar algo de que tento me afastar o tempo inteiro, algo que me causa medo. Tenho dois filhos de outra geração e estamos sempre preocupados com os caminhos que eles vão seguir. Identifico-me com esse lugar, mas também deposito muita confiança e esperança nas possibilidades de saída que os filhos encontram.
VOGUE: A história também provoca reflexões sobre o quanto conhecemos as pessoas próximas de nós. Que tipo de reação você tem percebido entre o público após as sessões?
REJANE FARIA: Tive poucas conversas pessoais, porque as estreias são muito corridas e temos muitos compromissos. Mas recebi respostas muito positivas, especialmente no sentido de que o filme traz esperança. Também encontrei uma mãe que havia perdido um filho recentemente. Ela teve uma catarse muito forte, mas se sentiu acolhida ao perceber que não era a única a passar por aquela experiência. De certa forma, sentiu esperança ao entender que, se outras pessoas conseguiram seguir em frente, ela também conseguiria. Foi muito bonito quando veio falar comigo e choramos juntas. Ofereci uma sessão para ela. São essas pequenas coisas que nos alimentam e nos fazem perceber que o filme realmente tem um efeito sobre as pessoas. Acho que, apesar de enfrentarem todas essas questões, as pessoas se agarram à esperança e passam a repensar suas atitudes cotidianas. Não temos como saber tudo sobre quem está ao nosso redor. Muitas pessoas da minha família, meus filhos e minha mãe, por exemplo, desconhecem aspectos da minha vida, e isso é um fato. O distanciamento que estamos vivendo neste momento da sociedade acaba potencializando essa situação. O filme pode levar a perguntas importantes: como estou me relacionando com as pessoas? Estou falando sobre mim? Estou ouvindo o que elas têm a dizer? Isso não acontece apenas nas conversas, mas também no olhar e na atenção ao outro. Podemos conversar com o motorista de um Uber, olhar para as pessoas no ônibus, cumprimentá-las. São atitudes cotidianas que nos fortalecem. Percebo que essas trocas estão ficando cada vez mais distantes de nós. Por todas as camadas e temáticas que apresenta, acho que o filme nos faz pensar sobre as relações humanas e sobre o que estamos fazendo com elas.
VOGUE: Você construiu boa parte da sua carreira no teatro e, aos 65 anos, vive um momento de projeção no cinema. Como avalia essa fase profissional e o espaço destinado às mulheres mais velhas na indústria audiovisual?
REJANE FARIA: Tem sido muito interessante viver tudo isso, embora eu já trabalhe profissionalmente com arte há 20 anos. Durante a maior parte desse período, minha atuação foi no teatro, onde encontrei uma forma de me expressar, de me situar e de me colocar no mundo. Durante muito tempo, vivi em função dos acontecimentos sociais, de casar, ter filhos, trabalhar, naquela correria cotidiana. Em determinado momento, comecei a me perguntar o que estava fazendo, o que representava neste mundo e como estava me posicionando. Queria entender se apenas assistia às coisas acontecerem ou se tinha uma participação ativa na construção de uma sociedade melhor. Essas respostas vieram com o desenvolvimento de dramaturgias, a criação de espetáculos e o trabalho no coletivo Quatroloscinco, Teatro do Comum, que completa 20 anos no ano que vem. A partir daí, fui percebendo que ainda tinha muitas coisas a fazer. Quando o grupo foi formado, eu tinha 46 anos. Pensei que, depois de encontrar uma forma de expressão na qual acreditava e por meio da qual conseguia me comunicar com as pessoas, precisava fortalecer esse caminho e expandi-lo. Não podia ficar restrita a uma sala de teatro.
Naquela época, eu já estava perto dos 50 anos e tinha muito vigor. Trabalhava com um grupo de atores jovens, de 17, 18 e 20 anos, e era a única com uma idade mais avançada. Isso não fazia diferença em nenhum momento. Tínhamos a mesma energia e o mesmo desejo de falar sobre nossas ideias. A academia nos ensina a referenciar muito. Sou muito grata a ela e bebo dessa fonte diariamente, mas acredito que também precisamos expor nossos pensamentos e tomar atitudes. Quando saímos desse ambiente, podemos encontrar outras formas de expressão. Decidimos, então, trabalhar de maneira autoral e começamos a escrever nossas próprias peças, a partir do que sentíamos e pensávamos. Essa postura me acompanha até hoje. Cada trabalho parece o primeiro, porque continuo com a mesma vontade de falar sobre assuntos que considero importantes. Cada diretor e cada roteirista traz uma proposta diferente, e isso me renova. Neste ano, consigo estrear cinco longas por uma série de coincidências relacionadas a cronogramas, produção e disponibilidade. Isso torna esse momento ainda mais evidente. É curioso porque hoje sou uma mulher preta de 65 anos, e sabemos que a trajetória nessa sociedade tem muitos atritos. Mas não quero ficar presa a eles. Quero seguir em frente, tentando abrir espaço para mim e para todos que puderem vir comigo. Estou muito feliz.
VOGUE: O etarismo ainda impõe limites à trajetória profissional de muitas mulheres. Como você enxerga essa questão e de que maneira ela se relaciona com suas perspectivas de carreira?
REJANE FARIA: Ao mesmo tempo que criamos a expectativa de que vamos alcançar algo, nos deparamos com o etarismo e com uma série de outras questões. Existe uma invenção social de que quando você chega nesse momento da vida, você precisa recuar. E é muito pelo contrário, estamos com toda a bagagem para avançar. É um conflito positivo também, porque nos mantém atentos o tempo inteiro.
VOGUE: Que caminhos considera importantes para ampliar a autonomia e as oportunidades de artistas negras no mercado cultural?
REJANE FARIA: Sempre uso uma palavra que, para mim, define o início de uma caminhada: autonomia. Precisamos nos preparar para nos apresentar ao outro. Não podemos esperar que alguém nos enxergue e nos conduza a algum lugar. Com autonomia, podemos escrever, atuar, dirigir, produzir e realizar uma série de coisas dentro do campo artístico. É necessário fazer isso para que as pessoas comecem a reconhecer nosso trabalho. Alguém pode dizer: “Olha aquela pessoa que escreveu isso. Que legal o espetáculo que ela dirigiu. É pequeno, mas está muito bonito”. Assim, começamos a nos apresentar à sociedade. Somos muitos artistas, e o número de atores que se formam a cada ano é impressionante. Não temos mercado para absorver toda essa produção.
Por isso, se você não desenvolve um trabalho autoral, individual ou coletivamente, e não começa a escrever a própria história, fica muito mais difícil avançar até que alguém ajude a dar continuidade a esse percurso. Outra questão importante é estudar sempre, à sua maneira. Isso não significa que seja necessário ler teorias todos os dias. É possível estudar observando, sentindo e percebendo as coisas, entendendo que o nosso mundo não se limita ao que está à nossa volta. Existe um mundo inteiro, com milhares de acontecimentos. As guerras nos afetam, assim como nosso comportamento pode afetar outras pessoas. Podemos fazer micropolítica, ajudar quem está ao nosso redor, e isso tem muito valor. Precisamos ampliar o olhar para compreender o que está acontecendo e, ao mesmo tempo, trazer essas questões para a nossa realidade, construindo uma coletividade que permita às coisas avançarem juntas.
VOGUE: Como o reconhecimento recente tem influenciado suas escolhas e suas expectativas para os próximos trabalhos?
REJANE FARIA: O reconhecimento tem um efeito muito positivo. Cada matéria que leio, cada elogio que recebo e cada crítica, seja especializada ou de pessoas que amam a arte, reforçam meu desejo de continuar trabalhando e aumentam minha responsabilidade. Agora que fiz Vicentina, sempre me pergunto o que farei depois. Quero encontrar algo tão bonito, forte e interessante quanto esse trabalho. Se não chegar outro roteiro desse nível, penso no que posso fazer com o material que receber, no que posso acrescentar para que o resultado tenha a mesma força do trabalho que acabei de realizar. Isso me deixa muito vaidosa, mas é uma vaidade com os pés no chão. Tem mais a ver com reconhecer minha capacidade e pensar no que posso fazer com ela. Quando temos poder, precisamos utilizá-lo de maneira positiva. Se, neste momento, as pessoas querem me ver e me ouvir, espero que surjam trabalhos que me permitam dizer coisas importantes. Nesse sentido, sinto muito orgulho do que estou fazendo e tenho ainda mais vontade de continuar.
VOGUE: Quais são seus próximos objetivos no audiovisual? Há formatos, personagens ou parcerias que gostaria de explorar?
REJANE FARIA: Quero muito trabalhar com diretoras mulheres no cinema. Até agora, trabalhei com poucas, entre elas Lillah Halla, e gostaria especialmente de trabalhar com mulheres pretas na direção. Também quero continuar minha trajetória com a Filmes de Plástico. Gosto muito de séries e gostaria de protagonizar uma de ação, algo que me tirasse desse lugar da senhora. Quero fazer alguma coisa muito louca, que também seria um grande desafio. Acima de tudo, quero continuar trabalhando. Não tenho vontade de parar e não me sinto cansada. Pelo contrário, me sinto revigorada sempre que realizo algum trabalho. Quero continuar, seguir em frente.
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