
Nicolas Ghesquière é mestre em explorar opostos e aparentes contradições em suas criações cerebrais e arquitetônicas. Há sempre um jogo de volumes, uma brincadeira com a escala, um estranhamento que nos captura e nos faz sorrir internamente, quase como uma piada para iniciados, como zíperes que explodem e aparecem gigantes em detalhes da roupa ou mesmo como bolsas, por exemplo.
Mas o diretor criativo da Louis Vuitton foi alguns passos além e fez da sua coleção cruise 2027 um clash total. O desfile foi realizado em Nova York, no The Frick Collection, um museu intimista instalado numa belíssima mansão da Era de Ouro na Quinta Avenida, de frente para o Central Park, reaberto há pouco mais de um ano depois de uma grande reforma.
O acervo de arte europeia reúne 1.800 obras, que vão do Renascimento ao século 19, dispostas nos cômodos da residência construída para a família do industrial Henry Clay Frick e que suas herdeiras transformaram em fundação. Tem Vermeer, Rembrandt, Velázquez, Goya, Turner. Senhor Frick não colecionava impressionistas.
Louis Vuitton | Cruise 2027
Divulgação/ © Louis Vuitton – All rights reserved
O desfile marca o início de uma colaboração de três anos entre o museu e a LVMH, conglomerado de luxo que tem a Louis Vuitton como marca mais importante e que virou o grande patrono da instituição.
Mas lembre-se de que foi um clash, e a arte que inspirou a coleção e ganhou a passarela montada nos diversos salões e ambientes da residência clássica foi o pop dos anos 1980 de Keith Haring, que não utilizava telas por rejeitar a formalidade dos museus e, em vez disso, grafitava ruas e estações de metrô para ser acessível a todos.
Ao som de hits electroclash como “Boys Wanna Be Her”, da cantora Peaches, modelos apresentaram o luxo pop de Ghesquière, uma exploração de dicotomias, dualidades, contradições e interseções, entre Paris e Nova York, o Novo e o Velho Mundo, a formalidade do Upper East Side e a rebeldia de Downtown dos anos 1970 e 1980, o popular e o erudito.
Louis Vuitton | Cruise 2027
Divulgação
Como sempre em suas criações, Ghesquière sobrepõe tempos, buscando referências em construções do passado aristocrático europeu para recosturar em looks futuristas. Nesta coleção, ele remixou ainda elementos art déco, western e utilitários, alusões a faróis de carros e ao papel de parede de uma das galerias do Frick.
A colaboração com o espólio de Keith Haring foi inspirada na descoberta, nos arquivos da maison, de uma mala de couro dos anos 1920 que Haring usou como suporte para vários desenhos nos anos 1980.
As explorações vieram como estampas em vestidos, peças de couro, detalhes nos tênis esportivos e hits garantidos nas bolsas. Uma delas traz elementos da obra Brazil, realizada por Haring durante o tempo em que ficou na Bahia, hospedado na casa de um amigo em Serra Grande.
Louis Vuitton | Cruise 2027
Getty Images
Revistas Newsletter
Num momento em que a maioria das marcas importantes de moda está lidando com as primeiras coleções de seus novos diretores criativos, resgatando códigos, revisitando arquivos, honrando legados, sinalizando caminhos, Nicolas Ghesquière, à frente do feminino da Vuitton desde 2023, mostrou que está confortável para bagunçar o próprio conforto, se aventurar por aí. E segue tendo uma das plateias mais cool do planeta. (PAULA MAGESTE)
Confira abaixo o documentário que acompanha os bastidores da apresentação:
Source link









