• Maternidade deixa de ser obstáculo para atletas de elite com novas regras no esporte


      Por muito tempo, a maternidade e o esporte de alto rendimento foram caminhos praticamente impossíveis de se conciliar. Nos habituamos a ver atletas se despedindo prematura e definitivamente de suas carreiras no momento em que decidiam engravidar ou adiando esse desejo por medo de perder espaço, ritmo de competição e oportunidades financeiras. Mas o cenário começa a mudar, ainda que lentamente. Em março deste ano, a World Surf League (WSL) anunciou a criação de uma medida específica para contemplar esse tema, o Maternity Wildcard, que entrará em vigor a partir da temporada de 2027 e permitirá que as esportistas retornem diretamente ao tour, sem passar pelas divisões de acesso, após terem filhos. “O esporte de alta performance foi estruturado sem considerar as particularidades do corpo feminino e das nossas experiências. O Maternity Wildcard é uma mensagem de que ser mãe não precisa interromper o sonho ou a carreira de uma atleta”, celebra a surfista Tatiana Weston-Webb, medalhista olímpica que deixou as competições nos últimos meses após o nascimento de sua filha, Bia Rose, e voltará em junho na etapa de Saquarema, no Rio de Janeiro, por meio de um Season Wildcard. A alternativa existente até então é disputada por esportistas afastados por motivos de saúde, que concorrem entre as quatro vagas disponíveis (duas femininas e duas masculinas) a cada temporada. Entre os critérios de elegibilidade usados pela WSL, estão títulos mundiais, ranking e gravidade do afastamento.

      A WSL não é única nesse movimento. Nos últimos anos, diferentes esportes e ligas ao redor do mundo anunciaram políticas de proteção à maternidade, ainda que em ritmos distintos. A Fifa foi uma das primeiras a agir: desde 2021, ela exige que suas associações-membro disponibilizem uma licença-maternidade mínima de 14 semanas, com pagamento de ao menos dois terços do salário, proteção contra demissão por gravidez e garantia de retorno. O avanço também chegou aos clubes: o Milan Women, da Itália, anunciou a renovação automática de contrato para jogadoras grávidas no último ano de vínculo, além de auxílio para filhos e acompanhantes em viagens. No Brasil, o Santos Futebol Clube lançou em 2024 uma política de apoio à maternidade para atletas da equipe com estabilidade contratual durante a gestação, acompanhamento multidisciplinar e suporte no retorno aos treinos e às competições. A medida ganhou visibilidade neste ano com a volta da artilheira do time, a atacante Ketlen Wiggers, após a licença-maternidade.

      Em outras modalidades, as mudanças também avançam: a Women’s Tennis Association (WTA) criou um fundo que oferece até 12 meses de licença remunerada e proteção de ranking para mais de 320 tenistas, enquanto a Women’s National Basketball Association (WNBA) incluiu benefícios para esportistas grávidas em seu acordo coletivo com atletas do basquete. A atleta de vôlei de praia Carol Solberg – que jogou profissionalmente até o sétimo mês de gravidez e voltou ao circuito profissional após o nascimento do filho José – reconhece os avanços: “Muita coisa mudou desde a época em que minha mãe (Isabel Salgado, ídola do vôlei brasileiro) jogou grávida do meu irmão, em 1986, mostrando que o sonho do esporte profissional pode, sim, conviver com o da maternidade”. Mas ela também lembra as regras que vigoraram até recentemente em sua modalidade: a atleta que voltasse após a gravidez podia manter apenas 75% dos seus pontos de ranking se retornasse em até 12 meses, ou 50% depois disso, com redução progressiva nos primeiros torneios. “É inacreditável pensar que nós éramos punidas por engravidar e ninguém questionava essa regra, obviamente criada por homens.”

      Se para qualquer mulher a gravidez e o puerpério são momentos delicados, cheios de mudanças hormonais que impactam por vezes a saúde física e mental, para uma atleta de alto rendimento essas alterações podem ter uma influência ainda mais acentuada. O tempo até a volta aos treinos e às competições, por exemplo, é uma incógnita, o que torna as medidas que garantem estabilidade tão importantes. A ginecologista do Comitê Olímpico Brasileiro, Tathiana Parmigiano, reforça: “O corpo da mulher que retorna de uma gestação não é igual ao de quem nunca gestou um filho, especialmente nesse grau de performance. A esportista ainda está passando por mudanças hormonais, como nos níveis de lactato, caso esteja amamentando. O gasto energético também é outro. Existe um período de adaptação que deve ser respeitado, inclusive para evitar lesões”. A ginecologista lembra ainda que os espaços de treinamento e competição devem ser pensados para que o filho e uma rede de apoio possam estar presentes, além de um espaço seguro e confortável para amamentar.

      Outra atleta brasileira que simboliza esse momento de maior segurança das esportistas com a maternidade é a ginasta Jade Barbosa, que manteve a carreira ativa após o nascimento de sua filha Eva, hoje com 5 meses. A Federação Internacional de Ginástica passou a flexibilizar regras de retorno, permitindo que as atletas não percam ranking, licença internacional ou benefícios financeiros (como patrocínios e bolsas) ao pausar a carreira. “A maternidade não diminui a ambição, o talento ou a capacidade de uma mulher, ela pode até se fortalecer”, reflete Tati.



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