De todos os sintomas da menopausa — e olha que não são poucos — o que mais me derrubou foi a piora na qualidade do sono. Eu simplesmente não dormia. Melhor dizendo, até dormia, mas acordava o tempo todo. Ondas de calor. Vontade de fazer xixi. Mais calor. Mais xixi. De manhã, estava quebrada. Só queria algumas horinhas ininterruptas de sono !
“É muito comum ouvirmos que dormir mal faz parte da menopausa e que a mulher simplesmente precisa se acostumar. Mas não é bem assim”, afirma dr. Nélio Veiga Junior, ginecologista e obstetra, e pós-doutorando em Menopausa. “Se os despertares são frequentes e estão causando cansaço, sonolência durante o dia ou queda de rendimento, é necessária uma investigação.” A endocrinologista Deborah Beranger, também chama atenção para outro ponto importante: “Numerosos estudos encontraram uma ligação entre sono deficiente ou insuficiente e um risco aumentado de doenças cardíacas e derrames”, afirma.
Ou seja, não tem nada de normal e nada para se acostumar com esses despertares contínuos. Muito pelo contrário. Investigar o motivo do sono picado é fundamental para encontrar o tratamento certo e fazer as pazes com a cama. “O sono na menopausa é influenciado por vários fatores. Sintomas vasomotores podem provocar despertares, enquanto alterações urogenitais e urinárias podem aumentar a frequência com que a mulher precisa ir ao banheiro”, explica o dr. Nélio.
Acordar durante a noite para fazer xixi tem nome: noctúria. “E a relação disso com a menopausa envolve desde alterações urogenitais à mudanças do próprio sono”, diz o ginecologista. E existe ainda uma situação que pode passar despercebida: a mulher acorda por outro motivo e, já desperta, decide ir ao banheiro. “É preciso entender se ela está produzindo urina em excesso à noite ou se ela está acordando por outro motivo e aproveitando para fazer xixi”, avalia o médico.
Há, ainda, uma outra possibilidade, relacionada à bexiga hiperativa, que dá uma vontade incontrolável de fazer xixi. “Na incontinência de urgência, a mulher pode ter uma capacidade menor de retenção da urina na bexiga, o que favorece a vontade súbita de ir ao banheiro. Podem ocorrer escapes por conta da contração involuntária do músculo da bexiga”, explica o ginecologista Igor Padovesi, especialista em menopausa certificado pela North American Menopause Society (NAMS) e membro da International Menopause Society (IMS). O problema pode aumentar também as idas ao banheiro durante a noite. Segundo o médico, existem atualmente medicamentos para a bexiga hiperativa com opções que apresentam menos efeitos adversos, como boca seca, do que os tratamentos mais antigos.
O estrogênio pode ajudar?
Quando os sintomas urinários estão relacionados à síndrome geniturinária da menopausa, o tratamento local com estrogênio vaginal pode ser uma opção terapêutica importante. “Existem evidências científicas de melhora de diversos sintomas urinários com esse tipo de tratamento, incluindo frequência, urgência e noctúria”, afirma o dr. Nélio.
Mas isso não significa que toda mulher que acorda para fazer precise de hormônio. “Precisamos identificar a causa predominante e escolher o tratamento de acordo com ela”, ressalta o especialista. A terapia hormonal sistêmica, por exemplo, atua melhorando ondas de calor e suor noturno em mulheres para quem o tratamento é indicado, o que pode melhorar o sono.
Outros fatores também podem estar atrapalhando o sono, como medicamentos, cafeína e álcool à noite, e apneia, que se torna mais frequente após a menopausa. Para a ginecologista Patricia Magier, o sono fragmentado deve ser investigado e tratado, porque impacta profundamente o bem-estar. “Noites mal dormidas amplificam irritabilidade, reduzem tolerância ao estresse, pioram concentração e memória e aumentam risco de ansiedade e depressão”, afirma. “Cuidar do sono na menopausa não significa apenas perguntar se a mulher tem insônia. É importante investigar ondas de calor, sintomas geniturinários, noctúria, medicamentos, hábitos, saúde mental e possíveis distúrbios do sono”, conclui o dr. Nélio.









